Um copo de leite, três biscoitos e um legado para a humanidade

por Luiz Henrique Matos

Um copo de leite gelado e três biscoitos de coco, todas as noites, antes de dormir.

O hábito já me domina há bons meses, mas só me dei conta mesmo alguns dias atrás. Eu observava a cena montada sobre a mesa da cozinha, desviando o olhar que deveria estar sobre o livro aberto ao lado e quando ameacei dar o primeiro gole no leite, me peguei falando sozinho: “É, amigão, a idade chega pra todo mundo.”

A idade. Uma entidade clássica, a fase crucial da vida. Sabe-se lá quando ela vem, nessas horas não importa muito se você está fazendo 64 ou 19 anos, quando seus hábitos ficam velhos, é sinal de que “a idade” chegou. No meu caso, a terceira década foi determinante. Eu nem bem fiz 30 anos num dia de 2010 e, no outro, expressões tais como “no meu tempo”, “não tenho idade pra isso” e “ai, meu ciático!” surgiram como mágica em meu vocabulário cotidiano.

Acabou a minha juventude, lá se foram os vinte e poucos, definitivamente. Agora eu tenho casa própria, sou pai de família, dirijo um sedan prateado, encontrei uns fios de cabelo branco na barba – bem no queixo! – e ouço minhas bandas favoritas tocarem no programa “Clássicos do Rrrrrock” na rádio. Eu penso no futuro, me preocupo com as consequências dos próximos passos, estou deixando a mocidade lá atrás e uma certa melancolia me ocorre vez ou outra.

Hoje é dia de vez ou outra.

* * *

Como serão, afinal, as coisas daqui 30 anos? Desde que deixei três décadas para trás, às vezes me pego lucubrando sobre as próximas.

Terei o dobro da idade de hoje. A Manú e eu estaremos embarcando nos 60, aposentados, gozando das ricas benesses da previdência social na década de 2040. Nossa casa, um bolinho novo sobre a mesa, uns biscoitos, o café fresco na xícara e aquele leite lá do primeiro parágrafo em seu devido copo. A sala toda cheia de fotos, os rostos cheios de rugas, o quintal cheio de netos e as lembranças cheias de pó. E eu ali, gordinho e grisalho, na minha cadeira, fazendo um balanço das escolhas e caminhos que trilhamos.

Legados.

Na etapa final da vida, me conheço bem, estarei encucado com o fato de a altura da grama no quintal estar muito grande para tal época do ano – qualquer época do ano – e pensando que tipo de marca eu terei deixado nas vidas dos meus filhos, na humanidade e em todas essas indagações tão fundamentalmente pequenas e típicas dos seres humanos.

No fundo, essa é a questão. Os anos vão passando e o sujeito começa a refletir sobre essas coisas. Vale para o leitor de auto-ajuda e para o de filosofia clássica também. A gente pensa, quer saber: que tipo de lembrança deixaremos no mundo? Queremos que nossas vidas, de algum jeito, tenham um significado, queremos saber se fizemos as coisas certas.

É nessas crises, com o cérebro embalado por mais uma dose fresca do mais puro leite semi-desnatado que eu considero que, já que não consigo enxergar como é que serão as coisas daqui 20 ou 30 anos, deveria ao menos começar alguma coisa que cresça e dure até lá. Sei lá, talvez plantar uma árvore, escrever um livro de memórias, abrir uma caderneta de poupança. Talvez semear alguns valores na vida da minha filha.

* * *

“Na verdade, quem sabe o que é bom para o homem, nos poucos dias de sua vida vazia, em que ele passa como uma sombra? Quem poderá contar-lhe o que acontecerá debaixo do sol depois que ele partir?” (Eclesiastes 6:12)

* * *

Quem é que sabe? Pode ser até que isso, os legados e tudo, sejam uma grandessíssima bobagem. Nessa semana, enquanto pensava justamente nessa história, esbarrei no verso do rei Salomão que me fez repensar o rumo desse texto algumas vezes. Afinal, vale alguma coisa a gente gastar, neurônios ou tostões que sejam, tentando edificar algo para a posteridade? Faz algum sentido eu querer projetar alguma imagem que gostaria que o mundo – as 11 ou 12 pessoas que me cercam – tivesse de mim quando envelhecer?

Eu penso na minha carreira, penso nas fotografias da família, penso nas convicções que defendo e em cada lição de moral que aplico na Nina. Mas eu sei bem que o que vai marcar a vida da minha filha não são exatamente as coisas que conquistei ou as mensagens registradas, mas o tipo de ser humano que fui. Coisas, isso de fato nós deixamos como herança, mas o caráter é o nosso legado.

Existe uma alegria pura e inconteste que reside no fato de encarar a vida de forma mais simples, desfrutando plenamente do que recebemos de graça e deixando de lado as preocupações vazias com o dia de amanhã – a ansiedade, por definição. Jesus falou sobre isso certa vez. Mas o problema que enfrento em desfrutar de forma livre o dia de hoje é que o amanhã demora muito pra chegar – minha ansiedade, por definição.

Por si só, a vida é uma dádiva. E filhos são um bom legado. O presente, a felicidade irreprimível de ver uma vida crescer sob seu teto, do começo à eternidade. Os primeiros passos, as palavras, o ensino todo sobre alguns impasses da humanidade, sobre a fé em Deus e sobre a importância de guardar seus brinquedos na caixa após o uso.

Ter filhos é experimentar e entender, em alguma proporção, o amor de Deus pelo homem. Eu sei que isso é um clichê bem redundante, mas fatos são mesmo coisas que se repetem incansavelmente até que notemos.

Ter Deus é perceber, a certa altura, que ele não se preocupa com legados ou marcas. Ele simplesmente é, ele está, eternamente, aqui e em todo lugar.

Nós crescemos, adquirimos novos hábitos, somos moldados pelo ambiente e tudo o que nos cerca ao longo do tempo. Mesmo à revelia, jamais abandonamos a condição de filhos, de criação do Pai eterno. Carregamos seus sonhos incrustados em nossos propósitos de vida, refletimos sua imagem, herdamos seus traços. Temos em nós o sentimento de pertencimento ao Criador, ainda que questionemos sua existência ou critiquemos seus atos por tantas e tantas vezes. Ele não liga, ele ama, se oferece e é nele que encontramos o refúgio para onde podemos voltar. O Pai sempre estará lá. Aqui.

Vai chegar o dia em que nossos filhos terão filhos. Vai chegar o dia em que a Nina vai morar longe e virá nos visitar num final de semana com sua família. Ela vai entrar em casa, largar a bolsa sobre o sofá, abrir a geladeira e perguntar da nossa vida, dos parentes que não vê, do que ando lendo. Ela vai descalçar as sandálias, ajudar a mãe na cozinha, vai querer comer um pouco do que quer que seja que estiver em meu prato, vai me cobrar, reclamar que não cuido da saúde direito, que fico tomando café o tempo todo e que isso acaba com o estômago. Ela vai agradecer pela ajuda com as crianças ontem à tarde, vai criticar minha roupa, minha barriga, minha mentalidade retrógrada sobre a política e o mundo e vai ficar brava por ter que repetir cada frase duas ou três vezes porque eu já não escuto direito. E ela vai sair para o quintal, batendo o pé porta afora, cheia das suas razões, mas deixando no rastro cada pequeno gesto que contemplo hoje. Eu, minha xícara na mão, observando aquela mulher, minha filha, a pequena Nina, e a vontade absurda de poder pegá-la no colo, rodar contra o vento e jogar pro alto outra vez. A esperança de que tudo aquilo seja só um truque da imaginação, que ela ainda seja criança e que volte logo, escalando minhas pernas e me cochiche no ouvido o pedido para que eu conte mais uma história.

Meu legado.

Falta muito?

por Luiz Henrique Matos (5/10/11)

- Pai?
- Oi, Nina?
- Vai demorar pra chegar?

Essa é clássica. Estamos na estrada viajando para o interior, no avião atravessando o oceano ou no carro indo até a padaria do bairro, não importa, para a Nina sempre estamos “demorando muiiito”. É a fase, eu sei. Aos quatro anos, minha filha ainda não consegue distinguir com precisão as medidas de tempo e distância. Qualquer coisa pode ser rápida ou devagar, pequena ou grande, dependendo do grau de ansiedade dela no momento.

Às vezes, estou concentrado numa tarefa ou conversando com alguém e ela surge:

- Pai? Papai! Paaaiii!?
- Calma, filha. Espera só um minuto, tá?
- Mas, pai, por favor! – ela puxa a ponta do meu queixo tentando virar meu rosto na sua direção.
- Filha! – olho sério, repreendo, viro de volta.
- É que…
- Nina, o que a gente conversou sobre você saber esperar a sua vez?
- Tá bom – e aí ela fica ali, paradinha, esperando a vez para falar, dá até dó.
- Pronto, filha, agora sim. O que é?
- É… é… pai, é que, sabe… – e começa o assunto.

O curioso de tudo é que eu já sei, em detalhes, tudo o que ela vai me dizer, mas eu paro e escuto. Eu gosto de ouvi-la, tenho uma certa satisfação em observar minha menina expondo seus argumentos e falando de si. É nessas horas que a gente vai descobrindo que eles crescem de verdade. Mais tarde, na hora de dormir, aproveito o momento para contar uma historinha que transmita alguma moral que, subjetivamente, trate sobre a importância da paciência. Não sei se ela entende, ela dorme, eu viro as costas, vou para meu quarto, deito a cabeça no travesseiro e faço as minhas preces antes de cair no sono.

- Pai!?

E começo o mesmo relato diário, repetitivo e insistente as últimas décadas. Pedidos, necessidades urgentes, casos de vida ou morte, mesmo. Eu insisto. Se pudesse alcançar o queixo dele – ou o último fiozinho da barba longa e branca – tentaria puxar na minha direção. E o curioso de tudo é que, apesar de conhecer cada mísera letra de tudo o que vou despejar nos próximos minutos, ele pára e escuta. Talvez ele se satisfaça me ouvindo ali parado, bradando imaturidades, como eu com a Nina. Talvez.

“Antes mesmo que a palavra me chegue à língua, tu já a conheces inteiramente, Senhor.” (Salmo 139:4)

E não importa quantos sermões e histórias eu escute que evoquem o valor da paciência e sua importância para a alma, o estômago e a queda de fios de cabelo, minha tendência é pensar que não é bem de espera que eu preciso. Eu avalio que é bem provável que eu não tenha sido muito específico e ele não tenha entendido do que eu preciso e-x-a-t-a-m-e-n-t-e. É melhor pensar num jeito adequado para falar na próxima vez, talvez uma outra ordem para as palavras, um jeito mais didático.

Mas, porquê, afinal de contas, tudo demora tanto?

Somos imediatistas. A Nina e eu. Talvez você também. Acho que vivemos num período da história em que isso se torna ainda mais evidente e critico. É o que falam. Essa nossa cultura do agora, em que tudo está online, fácil e abundante faz a gente ignorar o valor da espera ou a necessidade de tempo que certas coisas demandam. O excesso de informação, a overdose de estímulos, acabamos desaprendendo – ou, pode ser que nunca tenhamos assimilado isso de verdade – o valor de disciplinas como quietude e contemplação. Não sabemos esperar, não nos prestamos a reconhecer que certas coisas levam mesmo anos ou meses para acontecer.

Não nos prestamos a reconhecer que certas coisas levam mesmo cinco minutos para acontecer.

Há algum tempo, eu estava chegando no escritório pela manhã e, sei lá o motivo, me espantei com um fato cotidiano. Tudo ia acontecendo mais ou menos como na coisa toda da rotina diária. Entro na garagem, estaciono o carro, tranco o carro, esqueço que tranquei o carro, volto para checar, desço até o hall, pego um café na lanchonete, chego na catraca, caramba-cadê-meu-crachá?, procuro num bolso, procuro em outro bolso, procuro na mochila, procuro no casaco, pronto, passo pela catraca, cumprimento o segurança e caminho até a fila do elevador, que demora um bocado pra chegar. O sujeito à minha frente já fez o favor de apertar o botão para subir. Então, passam-se trinta segundos e nada do elevador. Um minuto e nada. Um minuto e meio e ainda nada do elevador. Nem chegamos a dois minutos de espera e o indivíduo apertou outra vez o botão. Não satisfeito com o fato de a máquina não obedecê-lo imediatamente, começou a apertar, insistentemente, o botãozinho, seguidas vezes, na esperança de que ela fosse sensível à sua necessidade e resolvesse acelerar o passo e vir mais rápido porque, afinal, havia um homem com pressa esperando lá no térreo. Absurdo.

Depois de mais alguns minutos esperando, finalmente entramos todos em nosso meio de transporte. Eu olhava de canto e meio assustado para o sujeito, que apertou o sexto andar. Apertei o oitavo, me acomodei próximo à porta, esperei todos entrarem e, tal como faço diariamente, apertei o botão para a porta fechar logo, duas vezes. Aff… quem é que agüenta aqueles segundos intermináveis até que ela resolva fechar sozinha?

Somos egoístas. A Nina, eu e o sujeito do sexto andar. Talvez você também. Julgamos o mundo a partir das nossas perspectivas. Queremos determinar o tempo, queremos do nosso jeito. Queremos. E acreditamos que alguém tem a obrigação de atender esses desejos. E achamos que Deus é um funcionário com boas qualificações para o cargo.

Não pensamos em Deus, só pensamos em nós mesmos, nossos umbigos e o mundo todo girando em torno dele. Queremos que tudo aconteça de acordo com a nossa vontade e julgamos que esse ponto de vista é suficientemente aceitável para todos. Se as coisas acontecessem, afinal, exatamente como planejamos, o mundo seria um lugar melhor. E aí entra a contradição existencial do negócio: como as coisas podem acontecer exatamente como cada um de nós planejou sem que isso afete, diretamente, os planos uns dos outros? Não é necessário então que algo, alguém ou o acaso determinem os fatos?

O ponto é: o homem não está no centro do universo, Deus é quem está no centro do universo – bem, isso se você, como eu, descartou a opção “acaso” no parágrafo anterior. O homem está no centro do coração de Deus. E é nele que nos descobrimos.

Só em Deus entendemos quem somos e a razão de sermos. O Pai revela nossa identidade e em seus braços a vida toda adquire uma nova perspectiva, não mais centrada em mim, mas no outro. Não mais imediatista, mas contemplativa. Não mais materialista, mas cheia de significado. Não mais, mas menos. Porque Deus é simples.

Mas, quanto tempo as coisas levam para acontecer? Quanto ainda mais até que minhas dúvidas sejam sanadas, que meus desejos sejam atendidos, até que certas coisas façam sentido e eu finalmente compreenda?

Somos dependentes. A Nina, eu, o sujeito do sexto andar e a humanidade toda. Talvez você também.

Me ajuda com o banho? Me ajuda com o cadarço? Me faz um copo de leite? Escova meus dentes? Pode pegar a massinha no armário pra gente brincar? Empresta seu celular pra eu jogar? Pode me contar uma história? Pode sarar o machucado na minha perna? Pode ir mais rápido? Pode dormir aqui comigo hoje a noite? Pode ser agora?

Para a Nina, eu sou um repositório de conhecimento, força bruta e um pai com capacidade multitarefa. Ela me julga capaz de resolver seus problemas. Ela julga e espera que eu faça tudo isso. Bem, ela julga e espera que eu faça tudo isso, agora!, ao mesmo tempo. E eu acho que ela vai aprender o valor de certas coisas se conseguir esperar um pouco. Ela precisa conhecer alguns chavões – que para ela ainda não são chavões – como o de que a caminhada vale mais do que o destino final e que a verdadeira felicidade não está no fim, mas no durante. São essas coisas, quase pílulas de auto-ajuda e tal, mas que no fundo, são mesmo o que importa numa boa história.

O tempo, no fim das contas, é muito preciso, o segundo após o outro, o ponteiro nunca falha, nunca muda sua forma. Mas a medida de tempo em cada circunstância é relativa.

Ela acha que eu demoro muito.

Eu não a culpo.

Somos crianças. Sim, todos nós.