Não que interesse a alguém, mas só para constar, eu registro: há sete anos, numa tarde lá em casa, esse blog entrou no ar.
E tanta coisa mudou.
Não que interesse a alguém, mas só para constar, eu registro: há sete anos, numa tarde lá em casa, esse blog entrou no ar.
E tanta coisa mudou.
por Luiz Henrique Matos
Lá em casa, toda vez que a Nina passa do ponto nas birras ou apronta alguma coisa realmente muito grave, nós a chamamos para “uma conversa muito séria” lá no quarto (calma, antes que a polícia bata na porta de casa, quero deixar claro que “uma conversa muito séria” não passa de três minutos de bronca, a sós, olhando bem na bolinha nos olhos).
Pois bem, num sábado pela manhã estávamos no quarto assistindo TV, enrolando para levantar e a mãe fez o favorzão de trazer café na cama para nós. Bolo, pão com requeijão, iogurte, Nescau no copo, bolachas… só coisa boa. A certa altura, já quase satisfeitos, a Nina foi tentar virar de lado na cama e acabou dando um chute no meu copo de Nescau. Sim senhoras e senhores, lá foram 400ml de líquido marrom bem escuro sendo absorvidos por lençóis, edredon e pelo colchão.
Ela ficou preocupada.
- Pai, disculpa…
- Nina, não se preocupe, filha. Não tem problema, tá? Não foi culpa sua, foi sem querer.
Limpamos a cama, levamos a tralha para o tanque e eu fui para a sala terminar de dar o café da manhã para a Nina. Só havia sobrado o iogurte. Abri, lambi a “tampinha” de alumínio, me ajeitei no sofá e enquanto tentava pegar a primeira colheirada para servir minha filha, fiz alguma grande besteira e espirrei iogurte para todo lado. Sofá, almofadas, roupas e o piso, tudo devidamente afetado.
Eu fiquei preocupado.
Corri para providenciar minha segunda faxina em menos de uma hora e a Nina observava sentadinha no sofá. Quando voltei, meio ofegante, retomei o assunto.
- Ixi, Nina, você viu o que o papai fez?
- Derrubou tudo, né?
- É… aiaiai. Mas agora já está tudo pronto. Vamos tomar o seu danone?
- Mas… pai?
- Oi, Nina.
- E quem é que vai “conversar muito sério” com você?
(para o Frases de Crianças)
Ruas de ouro, anjos tocando harpas, um coral de vozes em louvor… Não, eu prefiro a afirmação de Borges. E depois de se estar no paraíso uma vez, é quase impossível resistir a tentação de investir seus recursos para viver essa experiência outra vez.
(Clique nas fotos para ampliar)
El Ateneo, eleita a segunda livraria mais bonita do mundo (eu queria era saber qual é a primeira…). Se interessar a visita, fica na Av. Santa Fe, em Buenos Aires.
por Luiz Henrique Matos
Era cedo. Estávamos na cozinha e como todos os dias, eu preparava um copo de Nescau para a Nina. “Leitinho, papai, leitinho” é a fala matinal que me desperta, junto com a música do Louis Armstrong que toca no relógio.
Hoje ela foi atrás de mim. Enquanto eu ajeitava o lanchinho da escola, ela virava o copo de leite numa golada só. Depois, não satisfeita, pediu:
- Pai, eu quero também aquele outro. O amarelo.
- Que amarelo, filha?
- Aquele, pai. Abre o armário.
Bom, eram seis da manhã, eu estava com sono e você precisa me desculpar pela falta de paciência com minha pequena.
- Ah, filha, isso não é hora de olhar o armário. Não é hora de doce. E você já comeu.
- Nããão, pai. Eu quero aquele amarelo. Eu esqueci o como chama…
- Nina, eu não sei o que você está querendo. Você já tomou seu leite, agora é hora de se arrumar e ir pra escola.
- Ah, pai… por favoooor! (ela agora está com essa mania de dizer “por favoooor” pra qualquer coisa que queira mesmo, como se fosse um apelo em última instância. Funciona).
- Tá. Eu vou abrir o armário.
Abri a porta e só via pacotes de biscoito, o açucareiro, Nescafé, sal, Ovomaltine, uma lata amarela de leite Ninho… Opa, amarelo!? Leite Ninho?
- Nina, é isso aqui que você quer? Um grudinho*?
Ela sorriu. Ficou um tempo sem dizer nada. Eu, com a cara amassada de sono ainda esperava retomar a rotina. E ela arremata:
- Viu como você aprende?
Realmente.
(*Grudinho é um troço que minha sogra inventou e a Nina adora. A receita é simples: duas colheronas de leite em pó e uns 10 ou 20 mililitros de água. Vira uma pasta grudenta e, segundo dizem, deliciosa – há paladar para tudo)
- Crônica para o blog Frases de Crianças
Depois de alguns meses – bom, toda leitura para mim, em geral, dura alguns meses – finalmente terminei a leitura de O Livro de Jesus, de Walter Wangerin Jr. Não é uma leitura fácil. Tal como em O Livro de Paulo, Wangerin mergulha nos detalhes da história bíblica para construir seu romance. Sua ficção não muda os fatos, ela os enriquece.
As roupas, os costumes, o clima, a geografia e os alimentos. Cada página contém nuances que ajudam na compreensão da história e enriquecem a narrativa.
Não posso dizer, entretanto, que concordo com todos os seus pontos de vista. Mas me rendo à riqueza do texto, à qualidade de sua imaginação e a capacidade de emocionar contando uma história que já lemos tantas vezes.
Parece-me difícil escrever um romance a respeito de circunstâncias nas quais cremos como reais e cujo personagem principal é tão essencialmente verdadeiro a ponto de tê-lo como seu Deus.
Reescrevo abaixo um trecho:
Durante todo o tempo que convivi com Jesus nunca o ouvi reagir a dor física. Que ele sentia eu via em seu rosto. Seus lábios se comprimiam e branqueavam. Sua testa franzia. Seus olhos arrojavam-se num tique para a esquerda, pálpebras tremulando. Porém, a linha de seu cabelo densamente cacheado nunca se alterava, nem tampouco sua resistência ao desgaste, o que fazia com que ele, mesmo nos ferimentos mais graves, parecesse alinhado, não-perturbado. Ele nunca proferiu nenhum som de resmungo.
Hoje ele grunhe e gargareja de dor.
Não há nenhum pilar natural ou poste na parte alta da praça. Por isso os romanos rebocaram uma imensa carroça de transporte, prenderam as rodas com pedras e amarraram o Senhor, inteiramente despido com exceção de sua roupa de baixo, às tábuas de sua porção posterior.
Certa ocasião, ele se pusera de pé, como uma vela, na popa de um barco açoitado por uma tempestade, seu manto drapejando como uma bandeira, e erguera os braços; e o mar se acalmara por completo.
Com freqüência ele erguera os braços e toda a população ficava em silêncio e era ensinada, e milhares haviam sido alimentados com peixe e com pão.
No alto dos montes, ao crepúsculo, ele erguera os braços como mastros e bandeira, e orara.
Agora seus braços foram erguidos para ele. Estão amarrados às extremidades das traves mais altas da carroça; seu rosto apertado contra a madeira áspera.
O legionário que está em pé e de lado, atrás do meu Senhor, empunha o cabo de um açoite na mão direita. Ele estala o pulso. Faz com que suas tiras e garras de metal agitem-se no ar, um som de serpente. Então, correndo de repente, o legionário gira o braço inteiro acima da cabeça e salta. Precipitando-se até Jesus, dobra-se sobre ele com tamanha violência que as garras de metal vergastam como um ancinho as costas do prisioneiro, fatiando a carne do ombro à cintura; Jesus se contorce; a pele se alarga; suas feridas são sorrisos abertos, o osso branco aparecendo como dentes do lado de dentro, seco como pedra calcária – mas em seguida o sangue corre pelas longas feridas e começa a espalhar-se.
(p. 382)
E segue. Se puder, leia.
É uma pena que não tenhamos tantos livros de Walter Wangerin traduzidos para o português (além dos dois citados, a Mundo Cristão também publicou O Livro de Deus, que completa a trilogia). É uma pena que não tenhamos bons livros de autores cristãos sendo publicados por aqui.
- LHM
por Luiz Henrique Matos
No domingo, fizemos um churrasco aqui em casa. Amigos, comida, crianças, preguiça e amenidades. Gosto de ficar assim sem fazer nada ao lado de gente querida. Faz bem para a mente, é bom pra recuperar o tempo que a gente perde trabalhando.
Foi bom também porque, sentado com os amigos depois do almoço, pude falar sobre um assunto que já há algum tempo me angustia.
Em geral, os assuntos que me angustiam por algum tempo estão restritos a trabalho, família, o próximo jogo do São Paulo, a igreja e, mais recentemente, o aumento significativo da minha circunferência abdominal – com o perdão pelo linguajar chulo.
E nesse caso, preciso dizer que não será hoje que abrirei um discurso sobre detalhes estéticos. A verdade é que, dentre as tantas coisas, falávamos do tema menos apropriado para uma ocasião tão singela: igreja.
O ponto essencial é que eu fico imaginando se não seria mais adequado que a igreja privilegiasse sua atuação social, colocando isso no primeiro plano de suas atividades, ao invés de expor suas práticas devocionais e investir recursos na divulgação de suas crenças, doutrinas e mensagens.
Posso estar sendo ingênuo, mas será que ajudar os pobres e auxiliar as famílias não é mais urgente do que discutir a forma como nos comunicamos com o mundo, as melodias de nossas canções e as estratégias de evangelização?
Jesus vivia dessa forma. Ele dedicava seu tempo em servir e se relacionar. Ele ouvia mais do que falava.
Sei de muitas igrejas se preocupam em servir e ajudar os necessitados. Grande parte das que conheço, investem o maior percentual de sua arrecadação em projetos sociais e assistencialistas. Mas quem é que sabe disso?
Em nosso relacionamento com a sociedade, externamos as práticas devocionais e internalizamos os serviços. Mostramos ao mundo nossas atitudes de adoração, nossos cânticos e as pregações impactantes e guardamos, dentro dos muros de nossas comunidades, as obras sociais, os orfanatos e os ministérios de cuidado familiar.
Recebo semanalmente uma série de newsletters de igrejas brasileiras e norte-americanas mostrando sua agenda de atividades. São boletins com design elaborado, mensagens bonitas e linguagem moderna. Falam basicamente de atividades devocionais. Os livros, os clipes musicais, os vídeos inovadores, a presença em redes sociais, a mensagem do culto, a série de pregações, a dinâmica dos grupos pequenos e os acampamentos. De verdade, no que isso parece interessante a alguém que não conhece uma igreja?
Quando mostramos uma preocupação real com os outros, o que fazemos nos torna simpáticos.
Posso também estar errado – eu costumo estar quando alimento minhas utopias -, mas acho que as pessoas estão cansadas dos nossos discursos e divagações. Falo, inclusive, das pessoas de dentro da igreja. Ninguém mais tem paciência para ouvir um grupo de religiosos anunciando salvação, perdão, redenção e um messias, quando não sentem que precisam disso realmente. Quando, principalmente, não conseguem enxergar o Messias nas pessoas que o anunciam.
Eu vejo mais gente mudando de igreja do que gente nova na igreja. Eu vejo sempre as mesmas poucas pessoas servindo a muitos “irmãos de fé” e nenhuma multidão empenhada em servir o mundo.
E então, quando ninguém mais está disposto a ouvir a nossa defesa inovadora do cristianismo no contexto social pós-moderno (bom, sempre tem que ter um titulo bacana para virar tema de livro depois), culpamos a pós-modernidade, a televisão e algum multimilionário com pinta de anti-cristo e investimos mais dos escassos recursos que já temos em plástica pura e simples. Remodelamos nossas canções, redecoramos os salões de reunião, lançamos mão de novas mídias e – me perdoe a expressão – “secularizamos” nossa imagem para torná-la mais interessante ao homem dos nossos dias.
Agora, por outro lado, quem não se sente atraído – ou ao menos respeita – um grupo de pessoas que se empenha em melhorar a condição do mundo? A solidariedade, as boas ações, a generosidade, o amor. Esse é o comportamento que não enfrenta barreiras, que encontra a simpatia das pessoas.
Jesus costumava guardar suas práticas devocionais para os momentos de isolamento. Sua intimidade com Deus era vista pelos que já o conheciam há mais tempo. Diante das multidões, ele não se exibia, ele saciava necessidades.
Do lado de fora da igreja, em sua face mais exposta, deveria aparecer a prática essencial do cristianismo: a preocupação com o próximo. O amor. Internamente, em nossas reuniões e congregações, aí sim, nossa vida devocional é que sustenta a força desse trabalho (intercessão, adoração, estudo, jejum). Outra vez, o amor.
Reclamamos da dificuldade de evangelizar e da grande “concorrência” para expor a Verdade em que cremos no mundo atual, mas somos nós quem esquecemos de refletir a imagem da Verdade em que cremos: Jesus Cristo.
Jesus, puro e simples. Precisamos menos dos recortes periféricos e mais da sua essência.
Bom, é verdade que eu demorei a notar, mas finalmente nos tocamos de que o assunto não era a coisa mais interessante para se discutir num churrasco. Por isso mesmo, deixamos o assunto no ar e, num silêncio momentâneo de reflexão que se seguiu, ouvimos um “alô, você ligado no futebol…” vindo da televisão. Ia começar o jogo. Coisa boa e digestiva para um domingo à tarde, de extrema importância para acalentar nossas inquietações mais íntimas.
- Rapaz, como anda jogando mal esse seu time! – eu disse para provocar um amigo.
- Cara, você engordou, hein? – ele retrucou.
E as coisas, como sempre, ficaram a deriva. Meu peso, o jogo de futebol e as questões fundamentais – e inapropriadas para um churrasco – da igreja.
“A religião que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo” (Tiago 1:27).
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Esse texto faz parte da série “Correndo atrás do vento”
Leia mais:
3. E o futuro, a quem pertence?
4. Pessoas mudam, o mundo muda (manifesto)
6. Clichês
7. Deus não tem um sonho pra você
8. Julgando um livro pela capa (e pessoas por sua opção religiosa)
11. Comodidade
Altamente recomendável a leitura do texto “A África dos meus sonhos”, escrito por Marcelo e postado no site do Caio Fábio.
Trouxe a África comigo. Trouxe as ocultas personagens desse intercâmbio. Trouxe os rostinhos dos que ficaram no meio do caminho enquanto prosseguíamos. Sinceramente não sirvo para salvar ninguém por estatística. Ou dou um jeito logo em tudo, ou é melhor nem ter começado!
Nos meus sonhos, voltei a um vilarejo miserável em Oron, miserável cidade de Akwa Ibom State.
Devolvemos a essa vila um jovenzinho-bruxo todo quebrado pelo “vodu cristão”! Ele foi levado ao campo pelo irmão mais velho e quando ia ser imolado com um facão, foi arrancado da morte pelos homens do Chief Mr. Medekon, um dos maiores e mais respeitados anciãos da cidade. Conduzido ao orfanato, coube-nos investigar a causa de sua bruxificação e conversar com seus pais a respeito.
(Continua…)
Clique aqui para ler a íntegra do texto.
Confesso minha ignorância: até hoje eu não conhecia Glen Gould. Mas visitando o blog da Livraria Cultura, li o post com esses dois vídeos originais do pianista (considerado por muitos o melhor intérprete de Bach) e não resisti.
Estilo, diversão, envolvimento e técnica absurda. Como bem define o Wagner Brenner (autor do post): “dê um minuto para ser fisgado”.
Texto de Rubem Alves com o qual me deparei ontem, buscando uma outra coisa pelo Google. Pois é, ainda bem que minha busca deu errado.
Sobre simplicidade e sabedoria
Pediram-me que escrevesse sobre simplicidade e sabedoria. Aceitei alegremente o convite sabendo que, para que tal pedido me tivesse sido feito, era necessário que eu fosse velho.
Os jovens e os adultos pouco sabem sobre o sentido da simplicidade. Os jovens são aves que voam pela manhã: seus vôos são flechas em todas as direções. Seus olhos estão fascinados por 10.000 coisas. Querem todas, mas nenhuma lhes dá descanso. Estão sempre prontos a de novo voar. Seu mundo é o mundo da multiplicidade. Eles a amam porque, nas suas cabeças, a multiplicidade é um espaço de liberdade. Com os adultos acontece o contrário. Para eles a multiplicidade é um feitiço que os aprisionou, uma arapuca na qual caíram. Eles a odeiam, mas não sabem como se libertar. Se, para os jovens, a multiplicidade tem o nome de liberdade, para os adultos a multiplicidade tem o nome de dever. Os adultos são pássaros presos nas gaiolas do dever. A cada manhã 10.000 coisas os aguardam com as suas ordens (para isso existem as agendas, lugar onde as 10.000 coisas escrevem as suas ordens!). Se não forem obedecidas haverá punições.
No crepúsculo, quando a noite se aproxima, o vôo dos pássaros fica diferente. Em nada se parece com o seu vôo pela manhã. Já observaram o vôo das pombas ao fim do dia? Elas voam numa única direção. Voltam para casa, ninho. As aves, ao crepúsculo, são simples. Simplicidade é isso: quando o coração busca uma coisa só.
Jesus contava parábolas sobre a simplicidade. Falou sobre um homem que possuía muitas jóias, sem que nenhuma delas o fizesse feliz. Um dia, entretanto, descobriu uma jóia, única, maravilhosa, pela qual se apaixonou. Fez então a troca que lhe trouxe alegria: vendeu as muitas e comprou a única.
Na multiplicidade nos perdemos: ignoramos o nosso desejo. Movemo-nos fascinados pela sedução das 10.000 coisas. Acontece que, como diz o segundo poema do Tao-Te-Ching, “as 10.000 coisas aparecem e desaparecem sem cessar.“ O caminho da multiplicidade é um caminho sem descanso. Cada ponto de chegada é um ponto de partida. Cada reencontro é uma despedida. É um caminho onde não existe casa ou ninho. A última das tentações com que o Diabo tentou o Filho de Deus foi a tentação da multiplicidade: “Levou-o ainda o Diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória e lhe disse: ‘Tudo isso te darei se prostrado me adorares.’“ Mas o que a multiplicidade faz é estilhaçar o coração. O coração que persegue o “muitos“ é um coração fragmentado, sem descanso. Palavras de Jesus: “De que vale ganhar o mundo inteiro e arruinar a vida?“ (Mateus 16.26).
O caminho da ciência e dos saberes é o caminho da multiplicidade. Adverte o escritor sagrado: “Não há limite para fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne“ (Eclesiastes 12.12). Não há fim para as coisas que podem ser conhecidas e sabidas. O mundo dos saberes é um mundo de somas sem fim. É um caminho sem descanso para a alma. Não há saber diante do qual o coração possa dizer: “Cheguei, finalmente, ao lar“. Saberes não são lar. São, na melhor das hipóteses, tijolos para se construir uma casa. Mas os tijolos, eles mesmos, nada sabem sobre a casa. Os tijolos pertencem à multiplicidade. A casa pertence à simplicidade: uma única coisa.
Diz o Tao-Te-Ching: “Na busca do conhecimento a cada dia se soma uma coisa. Na busca da sabedoria a cada dia se diminui uma coisa.“
Diz T. S. Eliot: “Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?“
Diz Manoel de Barros: “Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar. Sábio é o que adivinha.“
Sabedoria é a arte de degustar. Sobre a sabedoria Nietzsche diz o seguinte: “A palavra grega que designa o sábio se prende, etimologicamente, a sapio, eu saboreio, sapiens, o degustador, sisyphus, o homem do gosto mais apurado. “A sabedoria é, assim, a arte de degustar, distinguir, discernir. O homem do saberes, diante da multiplicidade, “precipita-se sobre tudo o que é possível saber, na cega avidez de querer conhecer a qualquer preço.“ Mas o sábio está à procura das “coisas dignas de serem conhecidas“. Imagine um bufê: sobre a mesa enorme da multiplicidade, uma infinidade de pratos. O homem dos saberes, fascinado pelos pratos, se atira sobre eles: quer comer tudo. O sábio, ao contrário, para e pergunta ao seu corpo: “De toda essa multiplicidade, qual é o prato que vai lhe dar prazer e alegria?“ E assim, depois de meditar, escolhe um…
A sabedoria é a arte de reconhecer e degustar a alegria. Nascemos para a alegria. Não só nós. Diz Bachelard que o universo inteiro tem um destino de felicidade.
O Vinícius escreveu um lindo poema com o título de “Resta…“ Já velho, tendo andado pelo mundo da multiplicidade, ele olha para trás e vê o que restou: o que valeu a pena. “Resta esse coração queimando como um círio numa catedral em ruínas…“ “Resta essa capacidade de ternura…“ “Resta esse antigo respeito pela noite…“ “Resta essa vontade de chorar diante da beleza…“. Vinícius vai, assim, contando as vivências que lhe deram alegria. Foram elas que restaram.
As coisas que restam sobrevivem num lugar da alma que se chama saudade. A saudade é o bolso onde a alma guarda aquilo que ela provou e aprovou. Aprovadas foram as experiências que deram alegria. O que valeu a pena está destinado à eternidade. A saudade é o rosto da eternidade refletido no rio do tempo. É para isso que necessitamos dos deuses, para que o rio do tempo seja circular: “Lança o teu pão sobre as águas porque depois de muitos dias o encontrarás…“ Oramos para que aquilo que se perdeu no passado nos seja devolvido no futuro. Acho que Deus não se incomodaria se nós o chamássemos de Eterno Retorno: pois é só isso que pedimos dele, que as coisas da saudade retornem.
Ando pelas cavernas da minha memória. Há muitas coisas maravilhosas: cenários, lugares, alguns paradisíacos, outros estranhos e curiosos, viagens, eventos que marcaram o tempo da minha vida, encontros com pessoas notáveis. Mas essas memórias, a despeito do seu tamanho, não me fazem nada. Não sinto vontade de chorar. Não sinto vontade de voltar.
Aí eu consulto o meu bolso da saudade. Lá se encontram pedaços do meu corpo, alegrias. Observo atentamente, e nada encontro que tenha brilho no mundo da multiplicidade. São coisas pequenas, que nem foram notadas por outras pessoas: cenas, quadros: um filho menino empinando uma pipa na praia; noite de insônia e medo num quarto escuro, e do meio da escuridão a voz de um filho que diz: “Papai, eu gosto muito de você!“; filha brincando com uma cachorrinha que já morreu (chorei muito por causa dela, a Flora); menino andando à cavalo, antes do nascer do sol, em meio ao campo perfumado de capim gordura; um velho, fumando cachimbo, contemplando a chuva que cai sobre as plantas e dizendo: “Veja como estão agradecidas!“ Amigos. Memórias de poemas, de estórias, de músicas.
Diz Guimarães Rosa que “felicidade só em raros momentos de distração…“ Certo. Ela vem quando não se espera, em lugares que não se imagina. Dito por Jesus: “É como o vento: sopra onde quer, não sabes donde vem nem para onde vai…“ Sabedoria é a arte de provar e degustar a alegria, quando ela vem. Mas só dominam essa arte aqueles que têm a graça da simplicidade. Porque a alegria só mora nas coisas simples.
(Concerto para corpo e alma, p. 09)
O original está aqui.