Cenas natalinas: Antes e depois

Por Luiz Henrique Matos

“No frio, no escuro, entre os montes pregueados de Belém, o Deus que não conhece nem antes nem depois adentrou o tempo e o espaço. Aquele que desconhece quaisquer fronteiras deixou-se restringir por elas: o chocante confinamento à pele de um bebê, as atemorizantes limitações da mortalidade. ‘Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação’, diria posteriormente um apóstolo; ‘Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste.’ Mas as poucas testemunhas oculares não viram nada disso. Elas viram uma criança lutando para fazer funcionar pulmões que nunca tinham sido usados.” (Philip Yancey, “Descobrindo Deus nos lugares mais inesperados”)

Um ano já havia se passado e eles mal se deram conta disso. Foi tudo absurdamente tão depressa que o tempo parecia ter consumido e embaralhado os fatos. Naquela noite fria, o casal acolhia-se em sua casa, nos fundos da carpintaria e, em família – sim, agora eram uma família completa e essa era sua maior satisfação – se preparavam para mais uma temporada do duro inverno da Galiléia.

Sim, era aquela uma data de festa para o bom José e sua Maria. Deus tem cuidado de nós, ele dizia. Mas nenhum dos dois podia evitar o olhar curioso e contemplativo ao sondar o pequeno Jesus crescendo em sua casa.

Foi um ano bom, pensou José enquanto se levantava para recolher qualquer coisa sobre a mesa e observava sua mulher amamentando a criança. Mas ele se dava conta do que se passava a sua volta e se preocupava. O homem, transparente que era em suas expressões, não conseguia esconder o peso da dificuldade que era sustentar sua casa no pequeno povoado em que viviam. E tinha medo. O medo de todo pai em trazer o bom sustento para o lar, em prover sempre o melhor. E o medo único do servo, o judeu que não aprendera de seus mestres como é, afinal, que se cria o filho de Deus.

Dará tudo certo, José, tenha paz homem. A pequena Maria sempre o acalmava. Ele admirava sua confiança. Que mulher incrível. Mas… Senhor, como será daqui dez ou vinte anos? Como sucederá essa história?

Jesus crescia bem. Era um bebê cercado de amor e cuidado. Às vésperas de seu aniversário, já ensaiava os primeiros e trôpegos passos, já balbuciava as expressões fundamentais: ma-mãe… papa… Aba!

E naquela noite, se passava um ano da viagem a Belém e o pernoite na estrebaria, um ano que brilhou no céu a estrela, um ano que José recebera um filho como herança de Deus. A plenitude dos tempos. Naquela noite, a família se reconfortava em casa, sem saber ao certo a proporção e grandeza do que tinham em seu colo, sem saber que viviam o tempo e o dia que dividiria e mudaria toda a história da humanidade.

Era Natal.

O dia em que o mundo todo então iria parar para sempre, e recordar a chegada entre os homens do Messias, do Salvador, o Cordeiro Santo, Filho do Homem, amigo, o princípio e o fim, mestre, Senhor, o bom pastor, o Deus vivo entre nós, uma criança nos braços de José e Maria.

Nessa noite, em que ainda se pode ouvir o canto dos anjos ecoando nos céus: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade!”

Antes de Cristo, depois de Cristo, em Cristo.

E eu, que buscava apenas Deus, encontrei a ti

Meu amado, que me ergueu
Desta terra lúgubre em que fui lançada,
E, entre os cachos inertes, soprou
O sopro da vida, até a fronte confiantemente
Voltar a brilhar, como vêem os anjos,
Antes de seu beijo salvador! Meu, meu,
Que veio a mim quando o mundo desaparecera,
E eu, que buscava apenas Deus, encontrei a ti.

Poema Sonnets from the Portuguese de Elizabeth Barret Browning, citado por Donald Miller no livro “Como os pinguins me ajudaram a entender Deus” (p. 108).

O universo em um grão de areia

Big Bang Theory

Big Bang Theory

Eu queria escrever um comentário sobre isso. Tentei. Mas não consegui. Leia a citação abaixo de Chet Raymo sobre a teoria do Big Bang e me entenderá.

Se, um segundo após o Big Bang, a razão entre a densidade do universo e sua taxa de expansão tivesse diferido do valor adotado por apenas uma parte em 10¹5 (isto é, o numero 1 seguido de quinze zeros), o universo teria rapidamente desmoronado sobre si mesmo ou inflado tão rapidamente que as estrelas e as galáxias não poderiam se condensar a partir da matéria primal… Se todos os grãos de areia de todas as praias da terra fossem universos possíveis – isto é, universos consistentes com as leis da física tal como as conhecemos – e apenas um desses grãos fosse um universo que permitisse a existência de vida inteligente, então esse grão de areia seria o universo que habitamos.

Chet Raymo, astrônomo norte-americano, no livro “Starry nights, the soul of the night” (Noites estreladas, a alma da noite). Citado por Philip Yancey em “Descobrindo Deus nos lugares mais inesperados” (p. 36).

Inspiração para escrever

Frase de Clarice Linspector citada por Ricardo Gondim.

Como explicar a inspiração? Às vezes, no meio da noite, dormindo um sono profundo, eu acordo de repente, anoto uma frase cheia de palavras novas, depois volto a dormir como se nada tivesse acontecido. Escrever, e falo de escrever de verdade, é completamente mágico. As palavras vêm de lugares tão distantes dentro de mim que parecem ter sido pensadas por desconhecidos, e não por mim mesma.
- Clarice Lispector em “Outros escritos” – Editora Rocco, p.124