E o Levi levantou

Texto publicado no devocional Iluminalma (recomendo), na última terça-feira.

VERSÍCULO:
“Depois disso, Jesus saiu e viu um publicano chamado Levi,
sentado na coletoria, e disse-lhe: “siga-me”.” (Lucas 5:27)

PENSAMENTO:
Depois de capturar os corações da multidão, Jesus chama um outro
discípulo, Levi (Mateus). Duas coisas são significativas sobre este
chamamento. Primeiro, Jesus chamou alguém que nenhum outro líder
religioso teria escolhido: um publicano e simpatizante romano. Para
qualquer judeu da época de Jesus, Mateus era considerado mais como
um traidor à sua herança e à sua fé. Segundo, o publicano seguiu,
deixando para trás sua profissão e sua fortuna. Este é um lembrete
poderoso de que não há ninguém que devemos considerar inalcançável
com o Evangelho e inútil para nosso Senhor.

É proibido pensar?

Por Luiz Henrique Matos

No começo, tudo parecia interessante. Embrenhei-me na leitura e sentei atendo às novas vozes que entoavam sua crítica endereçada a uma parte da igreja que, mercantilista, pasteurizou o evangelho. Surgia um contraponto ao velho discurso evangélico massificado na mídia.

Eu gostei de tudo isso. Parecia um eco do que dizia meu coração. Era equilíbrio num pensamento adequado, humano, cheio de essência bíblica.

E surgiram novos pensadores no meio da igreja. Gente intelectual, de ouvido atento e voz ácida contra os que pregam heresias. Gente empenhada em preservar a verdade das Escrituras. Gente finalmente mais preocupada, mais preocupada com… com o quê mesmo?

Com o tempo (pouco tempo) a crítica construtiva deu lugar a uma voz de combate. E líderes cristãos passaram a tomar posição numa batalha ideológica.

Serei sincero, não sei ainda o que pensar a respeito desse tipo de manifestação. Tenho minhas inquietações e indignações com alguns comportamentos que observo na igreja. Às vezes tenho vontade de entoar esse mesmo discurso e virar as mesas dos que fazem comércio no templo, tal como nosso mestre naqueles dias em Jerusalém. Às vezes até viro.

Mas depois, feita a obra, vejo que ainda assim a dor não passa, percebo que a cura não vem pela explosão impetuosa. Noto uma vez mais que só pela graça, o amor, a cruz é que ocorrem transformações. Em Deus. Percebo, afinal de contas, que não importa tanto o que eu digo ou escrevo, mas vale sim o que eu faço, o exemplo que dou, as pessoas que formo. São mais que palavras.

Ao vociferar uma crítica, tenho medo que minha opinião fique restrita a isso: mera opinião. Tenho medo de julgar, de filtrar o que entendo como lei e condenar os outros baseado no simplismo de minhas interpretações, sem pensar com o coração de Deus. E tenho medo também de apontar o dedo ante os olhos dos outros sem enxergar a sujeira que eu mesmo produzo. Também peco. Talvez não os mesmos erros desses “cambistas”, mas peco com outras tantas e iguais falhas.

Acredito que a auto-reflexão na igreja é positiva e necessária. Mas prezo pela atitude sábia, pela ponderação construtiva dos que respeitam a liberdade e resgatam a essência das boas novas que pregamos. Sem batalhas particulares, sem combates contra “carne ou sangue” como nos ensinou o apóstolo, sem levantes que tentam separar o joio do trigo antes da hora. Não existe guerra santa.

“O conhecimento traz orgulho, mas o amor edifica.” (Paulo, na primeira carta ao Coríntios, capítulo 8, verso 1).

Por isso, opto por não dar nomes aos bois. Já o fiz e me arrependi. Pobres dos bois. Hoje, prefiro exaltar as boas obras dos que ajudam a construir dignamente o Reino. Faço minha escolha baseado no amor que promove a paz. Decido meu caminho pensando nas pessoas, vidas, que acabam ignoradas quando nossos olhos se voltam exclusivamente para ideais.

Precisamos ser um. Respeitando as diferenças. Vivendo em Jesus Cristo, como Ele, que viveu e morreu por todos. Todos.

“A maior carência do nosso tempo é por uma igreja que se torne o que a igreja raramente tem sido: o corpo de Cristo com o rosto voltado para o mundo, amando aos outros independentemente de religião ou cultura, derramando-se numa vida de serviço, oferecendo esperança a um mundo aterrorizado e apresentando-se como alternativa genuína ao que se passa hoje.” (Brennan Manning).

 

Frases sobre religião

“Cristão é o cara que crê em Cristo; carola é o que o teme.”
- Stanislaw Ponte Preta

“A verdadeira religião é a vida que levamos e não o credo que professamos.”
- Louis Nizer

“Ir somente à igreja não faz você cristão mais do que ir à garagem não faz de você um carro.”
- Laurence J. Peter

“Creio no Deus que fez os homens e não no Deus que os homens fizeram.”
- Alphonse Karr

“A graça barata é inimiga mortal de nossa Igreja… (…) Graça barata significa justificação do pecado, e não do pecador. (…) A graça barata é a graça que nós dispensamos a nós próprios. A graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento, é o batismo sem a disciplina de uma congregação, é a Ceia do Senhor sem confissão dos pecados, é a absolvição sem confissão pessoal. A graça barata é a graça sem discipulado, a graça sem cruz, a graça sem Jesus Cristo vivo, encarnado. (…)”
- Dietrich Bonhoeffer

Respeitando as fontes, li as quatro primeiras no blog do Sérgio Pavarini e a última, do Bonhoeffer, no blog Celebrai!.

Tragédias – O que os números não dizem

por Luiz Henrique Matos

Parecem só números. Os frios números dos economistas, estatísticos, contabilistas, pesquisadores. Os relatórios chegam das agências através de notas, com dados, gráficos, escalas, percentuais, contagens, somas e/ou subtrações.

Chegam também as imagens. Duras imagens. Mas tão artificiais e estáticas como poderiam ser as produzidas em qualquer estúdio. Vemos na tela da TV, do computador ou nas páginas de sites e jornais. Fatos, dados e fotos. Nada mais.

E eu leio, quase como se meu olhar passasse por sobre uma receita de bolo:

- 100.000 mortos por ciclone que atingiu Mianmar. 1.500.000 foram afetados.
- 1 mãe é morta na frente dos filhos em Taubaté (SP).
- 18.000 soterrados em terremoto na China. Mais de 12.000 mortos.
- 45 pessoas morrem após explosões no oeste da Índia.
- 1 criança jogada da janela do 6º andar morre em São Paulo (SP).
- 4.000 soldados americanos já morreram desde a invasão do Iraque.
- 48 mortos e 5 desaparecidos em naufrágio de barco no rio Solimões (AM).

Faz diferença para você?

São pessoas. João, Johnny, Cheng, Mohammed, Maria, Jen, Isabella, Hashid, Park, Lee… gente, vidas, com sangue correndo nas veias, coração pulsando, a mente atribulada em medo, desesperados. São planos que não se cumpriram, famílias destruídas, crianças órfãs, cidades inteiras arruinadas. É mais, muito mais do que podemos calcular.

Não, por favor, não são números. Nunca poderão ser.

Eram, são, somos pessoas. Criados e sonhados por Deus. Cada um para quem o Pai concedeu seu sopro de vida. Homens, mulheres e crianças por quem Jesus Cristo morreu naquela cruz.

Sonhos interrompidos.

Há lágrimas nos céus. Angústia, dor e luto no coração do Pai, que vê sua criação sucumbir diante da fúria de uma catástrofe.

E nós. Não podemos ser apenas espectadores, leitores e analistas dos fatos que chegam pela mídia. Não podemos passar por mais essa sem nos comover. Não, não dá para encarar a tragédia com a mesma normalidade e inércia do mais recente aumento de 0,25 pontos percentuais na taxa de juros nominais. Que se danem os juros!

Não importam os dados, importam as pessoas.

Precisamos ter o coração de Deus. O Deus que rasgou o céu, o tempo e a eternidade para resgatar aqueles a quem ama. O Deus que se sacrificou e levou a dor da humanidade em seus ombros. O Deus que deixou o mandamento para que os seus filhos sejam na terra o que ele mesmo é.

Devemos resgatar o caráter e a atitude de Cristo, que são nosso exemplo e direção de vida.

E hoje, vale, muito mais que palavras, a intercessão sincera, seja em oração, em donativos ou em atitudes. Vale, mais que um sermão, ser mão estendida para ajudar.

“Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram’. “Então os justos lhe responderão: ‘Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar?’. “O Rei responderá: ‘Digo-lhes a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram’.” (Mateus 25:34-40).

Lições de Eclesiastes

Ainda influenciado pelas lições de Salomão postadas na última semana, estou há alguns dias encarando esses versículos e tentando entendê-los. Mas não dá. Tem coisas que simplesmente são o que são e tem conclusões que, no fim das contas, só nos deixam com as mesmas dúvidas. Para quem procura por respostas, penso eu que tais frases só nos levam, uma vez mais, a uma única Verdade.

“Percebi ainda outra coisa debaixo do sol:
Os velozes nem sempre vencem a corrida;
os fortes nem sempre triunfam na guerra;
os sábios nem sempre têm comida;
os prudentes nem sempre são ricos;
os instruídos nem sempre têm prestígio;
pois o tempo e o acaso afetam a todos.”

Sobre a velhice, rotinas e prioridades

por Luiz Henrique Matos

Eu nem posso dizer que não haviam me avisado. As frases-feitas me passam pela mente como verdades nas quais eu não quis acreditar. “O tempo voa”, “vixe, passa rápido”, “aproveite agora”, “você vai ver como cresce rapidinho”… eles tinham razão.

No mês passado ela fez um ano. Já fez um ano! Corre para todo lado, balbucia as primeiras palavras, arrasta os brinquedos pela sala, faz as manhas de todo neném quando quer algo e engorda e cresce em ritmo de gado novo. O que eu posso fazer? Nada, nem sei por que pergunto. Os cabelinhos encaracolados, a pele branca, bochechas gordas, a boquinha rosa… Nina, meu neném, até há pouco tempo totalmente dependente, agora é uma pessoinha cheia de vontades, uma menina, criança, que daqui a pouco cresce e cresce mais. E assim vai. Quando se vê, já foi.

Passa rápido demais. E percebo que tem coisas dos últimos anos que se misturaram na memória. Vi-me mais uma vítima de outra verdade, a de que depois dos dezoito os anos já quase não se contam. E ficam esparsos, cada vez mais, os momentos memoráveis do dia-a-dia. A praga da rotina.

Não, não reclamo da vida. Ela é boa demais da conta. Tenho esposa, uma filha, trabalho. Tenho Deus, meu Senhor e Pai. Minha família e meus amigos. O que paro pra pensar é na rotina – sempre ela – e nos dias que insistem a passar, na parte da vida que se contam nas horas, que observo já vivida, lá atrás, através do retrovisor do carro que dirijo em primeira marcha no trânsito caótico dessas nossas avenidas.

Também não vou me iludir, o auto-engano é frustrante demais. Sei que as coisas continuarão como são e assim sempre serão. Mas eu não. Quero fazer diferente.

E isso passa pelos momentos memoráveis, daqueles mais simples, de um dia de boas risadas, boa comida, de descompromisso.

É o que eu quero. Estar com minha família e aproveitar. Lembrar que os recursos mais valiosos são aqueles para os quais dedico mais tempo. Jesus disse: “onde estiver o seu coração, ali estará o seu tesouro”. Falta agora um pouco dessa ordem em mim.

Deus, família, trabalho, igreja… tudo tem sua ordem, seu tempo, valor. Mas mais do que uma fração de minutos ou dias, importa a qualidade e não a quantidade que se emprega.

Para entender esse valor, recordo das boas marcas e lembranças. São essas coisas que quero viver mais. Em casa, à mesa, na rua, no chão, na estrada, à mesa, de mãos dadas. Sei que sou mais do que o acaso. Sei, em Deus, que existe um propósito para a vida. E eu gostaria de envelhecer e saber que cumpri com integridade minha jornada, o bom caminho. Mas não só. Se for assim não tem graça. Bom será saber que o fiz ao lado daqueles a quem amo.

Todos lá sentados num gramado de verde quase escuro, numa tarde de sol brando e céu azul, ao lado do pomar, em frente à casa de madeira clara, o cão correndo pelo jardim, as crianças brincando na terra, os adultos brincando na terra, uma boa rede estendida, a mesa posta com toalha branca embaixo da árvore cujo galho serve de sustento para o balanço de pneu de caminhão, o suco fresco servido gelado, a moça grávida sonhando com os dias da nova vida que carrega no ventre ao lado do marido que lhe acaricia os cabelos, o cheiro de café coado e recém fervido no bule invadindo o ar… e a certeza de que isso não nos custa mais do que um bom sonho.

Salomão sabia das coisas. Já idoso, no fim da vida, tratou de registrar o que observou para que pudéssemos aprender alguma coisa.

“Portanto, vá, como com prazer a sua comida e beba o seu vinho de coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz. Esteja sempre vestido com roupas de festa, e unja sempre a sua cabeça com óleo. Desfrute a vida com a mulher a quem você ama, todos os dias desta vida sem sentido que Deus dá a você debaixo do sol; todos os seus dias sem sentido! Pois essa é a sua recompensa na vida pelo seu árduo trabalho debaixo do sol. O que as suas mãos tiverem que fazer, que o façam com toda a sua força, pois na sepultura, para onde você vai, não há atividade nem planejamento, não há conhecimento nem sabedoria.” (Eclesiastes 9:7-10).

E penso, decido agora, que não vou eu esperar o fim da vida para chegar às mesmas conclusões que o sábio rei. Posso e vou fazer agora, aquilo que de fato tem valor. Quero ser o homem rico, cheio do tesouro que realmente interessa e vale a pena acumular.

Meu coração está no meu tesouro.

E confesso que às vezes eu queria mesmo é que o tempo não passasse assim de forma tão brusca. Que minha menina pudesse caber em meus braços para sempre. Que eu conseguisse me manter o humor do garoto que conquistou o coração da moça mais bonita, que um dia me disse o “sim” definitivo num altar. Tanta coisa. É bobagem minha, tempo gasto à toa. Importante é o que posso fazer desde agora.

Deus não faz um só dia igual ao anterior. Não tem amanhã que possa ser previsto e também não existe ontem que possa ser vivido outra vez. E acho mesmo que para o amor, hoje é nosso melhor momento. O que faço agora é o semear do fruto que colherei daqui a pouco e também lá na frente. E minhas prioridades revelam meus valores, me revelam.

O resto, Salomão me ensinou, é correr atrás do vento.

“Agora que já se ouviu tudo, aqui está a conclusão: tema a Deus e obedeça aos seus mandamentos, porque isso é o essencial par ao homem.” (Eclesiastes 12:13).

A frase de Santo Agostinho

Em casa tenho uma estante de livros. Às vezes fico de bobeira, olhando e arrumando meus exemplares. Folheio os novos que comprei e ainda não li. Evito os mais antigos cuja leitura abandonei na metade com o compromisso de terminar em breve e que até agora não fiz. Hoje cedo, num desses momentos, folheei um clássico que surrupiei na biblioteca dos meus pais. E me deparei com isso.

“Criaste-nos para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós.”
- Santo Agostinho em “Confissões”