Momento de lucidez

por Luiz Henrique Matos

Aquela vontade que não cessa. A vontade de seguir os conselhos dessa doce voz, de responder aos santos impulsos, de realizar o que de fato cremos como verdade e justiça.

Mas, por que não faço? Por que não sou?

É o desejo cru da santidade, de deixar cair a máscara do trabalho pelo dinheiro, de ver ruir o consumo desnecessário em que vivemos. É querer não querer aparecer e ser maior do que deveríamos.

A angústia por não mentir, a incessante expectativa em não pecar, não desviar o olhar, não titubear no julgamento. É o querer pôr freio na língua e ter os passos retos.

O caminho da retidão, da entrega, de viver aos pés das letras da Palavra que nos aconselha o amor verdadeiro ao próximo, tal qual o temos por nós mesmos. E é deixar tudo por esse amor, entregar a vida toda por aquele se entregou totalmente por nós.

Viver para caridade, para as pessoas. Ajudar a curar suas feridas, liberta-los das prisões, vesti-los de sua nudez, guia-los na escuridão, auxilia-los em suas necessidades. Ainda que seja eu mesmo um enfermo, cativo, nu, cego e pobre.

Sou salvo, não por merecimento, sim por misericórdia. E essa graça me basta. Porque sei nesse instante – como nem sempre acontece – que o poder de meu Pai se aperfeiçoa nas tantas fraquezas que tenho. Hoje sou filho, pequeno Cristo.

* * *

Essa busca… na maior parte das vezes se apaga, passa incólume na rotina, nos dias que se vão sem que sequer consigamos parar e pensar. É preciso parar e pensar. A reflexão verdadeira nos leva à essência do que somos, onde habita a verdade, onde fala o Espírito.

E Deus mesmo mora ali, no coração, na mente, no estômago, na região inescrutável de nosso ser. Na intimidade do avesso é que podemos ver sua impressão e as cicatrizes e as costuras e marcas deixadas pela sua intervenção. E só do avesso, esse mesmo, é que mostramos quem realmente somos.

Pela graça de Deus somos o que somos, na paráfrase plural do desabafo de Paulo. Mas estamos mais próximos do que deveríamos ser quando acometidos por esses ímpetos de lucidez e santidade. Pudera eu ser sempre assim.

Caminho seguro

por Luiz Henrique Matos

Josafá! Se o nome não fosse tão feio eu o daria a um futuro filho (é claro que minha esposa não sabe disso). Mas o que me encanta nesse homem não é exatamente a beleza de seu nome (ou nesse caso, a falta dela), mas sua fé tão sincera.

A frase registrada no livro de 2 Crônicas me inspira. Cercado por inimigos que vinham ataca-lo, esse rei orou: “pois não temos força para enfrentar esse exército imenso que vem nos atacar. Não sabemos o que fazer, mas os nossos olhos se voltam para ti”. E seu exército seguiu para o campo cantando músicas de adoração. Naquele dia, o povo de Josafá venceu a guerra sem precisar levantar uma espada.

Ter os olhos em Deus. Não há batalha impossível ao seu lado, não há alegria completa sem a sua presença.

Deus é Pai. Que cria, disciplina e ensina. Pai que estende a mão para levar seus filhos na direção certa. E de mãos dadas com ele, só assim, é que poderemos trilhar os seus caminhos.

Faça-se o dia claro ou a escuridão da noite. Ponha-se o sol num entardecer ou venha no horizonte a tempestade. Andemos no topo da montanha ou num vale de sombras. Não importa, qualquer caminho é possível, todo momento é seguro quando estamos com Deus.

A dor é superável, a alegria é sublime, o amor é intenso. As dificuldades são duras, mas possíveis. É nele que está a resposta, ele é o sabor da vitória, é a força e o poder. É nele que temos novo fôlego.

Porque a fé, ora se não, a fé não é confiar e esperar o espetacular, a fé não elimina a dúvida, a tentação ou a dor. A fé, ora sim, é a crença natural, é o saber pelo simples saber, é crer apesar da dúvida, é fruto da graça divina, é presente de Deus Pai.

O Pai. Que se coloca à mostra para os que enxergam, fala o tempo todo aos ouvidos que lhe são sensíveis e tem sempre a mão estendida para um filho perdido. Atento ao primeiro pedido de colo.

Chame esse filho João, José, Joaquim ou… Josafá.

Reforma Protestante

Na última terça-feira, 31 de outubro, alguns cristãos comemoraram os 489 anos da Reforma Protestante. Um pouco do que penso sobre isso, li no texto de um dos pastores da minha comunidade. O artigo é “Marteladas em Wittemberg”, do Rui Luís Rodrigues.

Marteladas em Wittemberg

Na próxima terça-feira, o mundo protestante comemorará 489 ano do início da Reforma. Segundo a tradição, em 31 de outubro de 1517 Martinho Lutero, monge agostiano e professor de Teologia, afixou na porta da capela universitária de Wittemberg suas 95 testes, nas quais criticava o sistema penitencial católico, especialmente a venda de indulgências. De acordo com pesquisas recentes, é bem provável que esse evento (as “marteladas em Wittemberg”) seja ummito criado posteriormente. Não há provas de que Lutero de fato pregou suas teses na porta da capela; mas temos a certeza de que, pouco depois dessa data, as teses foram impressas e amplamente divulgadas nos principados alemães, provocando a revolução religiosa que dividiu o cristianismo ocidental.

Comemorar a Reforma, só de olhos e ouvidos abertos. Como estudioso da primeira metade do século XVI, cada vez fico mais convencidode que divisão radical da cristandade poderia ter sido evitada; e que, se não foi, isso se deveu em parte a razões de natureza política. Deixando de lado essa discussão, o que há para comemorar hoje? Acima de tudo, o fato de que mais do que nunca nos últimos quinhentos anos, hoje as posições católicas e portestantes encontram-se muito próximas. Na década de 1950, o teólogo católico Hans Küng defendeu sua brilhante tese de doutoramento, na qual mostrou não haver divergência entre o ensino sobre a justificação pela fé, conforme defendido pelo maior deólogo reformado do século XX (o suíço Karl Barth) e o ensino católico sobre o mesmo tema. Há poucos anos, uma comissão mista, formada por teólogo católicos e luteranos, produziu um documento no qual afrimava que as perspectivas católicas e luteranas coincidem essencialmente acerca desse mesmo assunto.

Para ver, é preciso abrir os olhos. Enquanto continuarmos a celebrar ideologiamente a “Reforma” como justificativa da divisão da cristandade, perderemos de vista que o objetivo principal dos primeiros reformadores não era a divisão. Melhor celebrar a Reforma pensando que, num futuro muito próximo, católicos e protestantes poderão dar passos cada vez mais significativos na direção da unidade. Trata-se de um dever que, como cristãos, temos diante do mundo numa era de divisões.

Cura interior

por Luiz Henrique Matos

Cura interior. No meu caso, teve nome, Colicesctomia com Colecistite por Videolaparoscopia. Um nome muito peculiar é verdade. Mas na linguagem quase popular, chamam de cirurgia de extração da vesícula biliar por vídeo. Já no palavrório totalmente popular, “retirada da visícra” transmitida pela TV. Em resumo, entrei na faca.

Cura interior. Hoje eu acredito e defendo esse processo. Passei pela minha há algumas semanas e agora gozo o alivio da restauração.

Mas, nem tudo foi tão simples (se é que parece ter sido). Antes, lamentei por algum tempo a minha falta de fé. Pensava que sendo eu um cristão tão convicto, bem que poderia experimentar um milagre, desses espetaculares, e passar incólume por essa luta.

“Ué”, qualquer um de nós poderia perguntar, “mas Deus ainda não cura os doentes tal como fez tantas vezes na Bíblia?”. É verdade, mas para entender o motivo, minha pequena fé me faz apelar à dose de razão que tenho. E é por ela que percebi e passei a crer em mais duas coisas.

A primeira foi ao descobrir que o verdadeiro processo de cura de Deus para mim passava por essa cirurgia. E vai muito além da “visícra” – que até doer eu nem sabia que existia. O que ele tinha a mudar dizia respeito a meu relacionamento com ele, ao meu caráter e, principalmente, ao estilo de vida que eu vinha levando. E agora, só eu, meus lençóis e o surrado travesseiro em que recosto a nuca sabemos o quanto tenho sido realmente curado.

A segunda aconteceu quando, refletindo sobre os motivos pelos quais eu não era milagrosamente atingido por um raio celestial que curasse meu estômago, fui levado – para minha decepção – a reconhecer que Jesus não realiza seus milagres por espetáculo puro e simples. Sua intenção, ao contrário, é atender à grande carência de seu povo. Sofresse um indivíduo do primeiro século de lepra, asma ou colecistite calculosa, certamente não haveria na Judéia uma medicina avançada como a que temos hoje. O Deus Pai providencia o que seus filhos precisam, até que esses evoluam e se tornem capazes de aprender os meios naturais sobre como isso acontece.

E agora, do que precisam as pessoas de nossos dias em sua dependência da intercessão divina? Quais são os males que carecem da ação de Jesus Cristo hoje?

Cura, eu ainda diria. Estamos doentes. Não mais leprosos, tuberculosos ou febris, mas quantos não somos os dependentes de enfermidades “emocionais”? Quantas não são as famílias contaminadas pelo câncer da separação, dos relacionamentos desajustados, dos filhos que se perdem pela falta de atitude dos pais? Quantos não sofremos de estresse, depressão ou fraquejamos pela asfixia de sentirmo-nos incapazes para ações aparentemente tão banais?

Estamos contaminados. E para conter essas epidemias das “feridas da alma”, precisamos sim do toque curador de Jesus Cristo. Instantâneo, puro, renovador, eterno. O toque que afaga, transforma, refaz. Precisamos. E muito, porque filhos que somos, ainda não descobrimos os meios que o Pai usa para curar esses males.

Mas, – não é preciso ser muito inteligente para saber – Jesus já não caminha entre nós, como homem, desde que começou a conta do nosso calendário. Ele fez melhor, resolveu viver dentro dos que crêem nele e a esses incumbiu a tarefa de realizar tantos milagres e feitos quantos ele mesmo realizou.

Faz através de nós. Pode e quer fazer. Tudo o que conhecemos e lemos a seu respeito, os seus feitos… esse agora é um papel nosso, trazer cura para as pessoas em nome de Cristo Jesus. Cabe a nós, filhos e herdeiros, entender, ministrar, tocar e cumprir tudo o que recebemos como fruto da promessa.

E, quer saber? Cura interior, cirurgia na alma ou seja lá qual nome você quiser dar a isso, agora livre de meu preconceito tolo, a isso chamo, sem ironias, de cristianismo. E isso cabe a nós.

“Estes sinais acompanharam os que crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e, se beberem algum veneno mortal não lhes fará mal nenhum; imporão as mãos sobre os doentes, e estes ficarão curados”. (Marcos 16:17-18).