A explosão da vida

por Henrique Matos

Vou ser pai. Minha esposa me fez ontem essa boa surpresa. Isso quer dizer que estamos afinal sendo presenteados com uma alegria que, admito, ainda não tem medida nesse meu coração mole.

É incrível pensar que dentro daquela barriga já existe uma pessoazinha, com menos de um centímetro, é verdade, mas com um coraçãozinho batendo. Existe uma vida ali e nada me faz duvidar de que essa explosão milagrosa não seja ação de um Deus perfeito e amoroso.

É igualmente maravilhoso – e até meio assustador – pensar que Deus confiará em nossas mãos a responsabilidade de criar um filho seu. Coisas assim que me fazem ter certeza de que a vida não é fruto do acaso, que cada ser humano é especialmente moldado em todas as suas características, que todos temos uma identidade única que nos diferencia e torna tão especiais.

Nesse instante existe um ser humano, ainda que uma coisinha sem forma, sendo moldado pelas mãos de Deus. E ele nascerá de minha esposa todo enrugado e mesmo assim vou acha-lo a coisa mais linda do mundo e já procurar algo em que tenha puxado o pai. E dormirá em um berço sob meu teto e me acordará de madrugada com um choro muito mais alto do que sua estatura mínima pode fazer acreditar. Quebrará boa parte dos cristais que preservamos por anos num móvel da sala e nos fará manter um estoque de copos de plástico mesmo para as refeições mais nobres. Me pedirá um vídeo-game de presente quando eu sonho em deixar uma coleção de livros. Me obrigará a trocar o canal da TV no meio de um decisivo jogo do tricolor para assistir algum desenho animado ultra-moderno que eu vou criticar e lamentar dizendo que na minha infância tudo era diferente. E ele consumirá mais fraldas do que jamais pensei existir numa prateleira de supermercado, terá mais brinquedos do que julgo necessário, perderá mais roupas do que o tempo que levam para gastar, trará uma bagunça desmedida para essa minha vida tão metódica… e, meu Deus, como estou grato por isso!

Bem, talvez essa seja mais uma experiência dessas que todos precisamos passar na vida. É possível – eu creio nisso de fato – que a paternidade seja a melhor das lições de Deus para que entendamos um pouco do sentimento que ele tem, como Pai, por seus filhos. Toda expectativa, os sonhos, a imaginação que voa longe tentando saber como e quem será esse indivíduo que é parte de nós. Gosto de imaginar – e acho que ele também – que essa nova vida terá seus próprios dons, personalidade, talentos, decisões e um propósito especial a cumprir.

Não, não acho que será fácil (e ninguém disse que seria), mas sei, de todo coração, que é o que mais desejamos nessa vida e que nossa esperança está nessa fé. E é nesse momento, tentando entender quais são as expectativas de Deus para essa criança, que voltamos a ser só um par de filhos necessitados, buscamos o colo do nosso Pai e pedimos um conselho diário para que nos ajude a ser o exemplo de caráter e vida que ele espera que sejamos.

Viver essa verdade com alegria, obedecer, ser e partilhar esse amor… com certeza, a única forma de podermos ensinar isso tudo da maneira certa.

“Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe. Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Digo isso com convicção. Meus ossos não estavam escondidos de ti quando em secreto fui formado e entretecido com nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu embrião; todos os dias determinados para mim foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir.” (Salmo 139: 13-16).

Cenas natalinas: O filho

por Luiz Henrique Matos

Olhando para aquele berço improvisado a mulher e seu marido observavam o fruto daqueles nove meses que se passaram. Deitada, ainda fraca e cansada pelo esforço do parto, a jovem tinha sono e tentava cobrir-se para proteger o corpo daquela madrugada fria. Tudo parecia um tanto confuso, mas agora ela era mãe e nada lhe parecia mais glorioso do que esse fato.

O homem trouxe-lhe a criança, um menino, que tomou sem jeito nos braços na tentativa de amamentar pela primeira vez. Um bebê tão frágil, os gestos curtos, o choro sufocado, os pequenos olhos que mal se abriam, tinha fome.

Ela olhava a criança de forma contemplativa. Sem desviar o olhar, sondou o marido que, de pé à frente, a observava cuidadoso. Seus olhares se cruzaram na cumplicidade do momento, em união por aquela nova vida. O que dizer? Era difícil acreditar, os dois sabiam. E foi sem querer que lhe escapou pelos lábios um pensamento. Num misto de dúvida e adoração a jovem Maria disse: “Esse é Deus…”.

A poucos quilômetros, não longe dali, em um campo de ovelhas próximo a Belém, os anjos se reuniam para cantar seu coro de louvor: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade!”.

Para os pastores que ouviam a anunciação e a festa celestial, o Messias era nascido. Para aquele casal, milagrosamente seu filho viera ao mundo. Uma criança! “O que fazer?”, pensavam Maria e José. O que ensinaria uma camponesa pobre para o próprio Deus que saíra de seu ventre? Um menino…

“Maria, porém, guardava todas essas coisas e sobre elas refletia em seu coração” (Lucas 2:20).

* * *

E cresceu o nazareno nas terras da Galiléia, discreto, sem nada de especial em sua vida que merecesse algum relato. Ajudava o pai nos serviços da carpintaria. E por trinta anos foi assim. Tão homem, tão simples, pobre e até comum. Ele não era diferente dos outros jovens senão por sua bondade, simpatia e graça naturais. Tinha autoridade e era aplicado no estudo das Escrituras, gostava de todos, mas não havia nada do que um judeu esperaria do Messias naquele galileu.

Sim, é verdade, ele veio a operar milagres pouco tempo depois, curando enfermos, expulsando demônios, caminhando por sobre as águas e até multiplicando alimentos. Mas também ele mesmo disse que qualquer um daqueles que nele criam também seriam capazes de realiza-los.

Jesus, o Cristo. Sim, era totalmente Deus. Mas não viveu como tal. E era ele homem também, plenamente. E assim decidiu viver, pleno homem em seus sentimentos e dúvidas. Nas amizades, sentado à mesa, deitado em seu sono, prostrado em suas preces. Caminhava, trabalhava, vivia a vida como viveria qualquer outro judeu pobre daqueles dias. Anunciou seu propósito com a voz de sua própria garganta, tocou as pessoas com a palma das próprias mãos, sentiu o afago de seus amigos reclinado à mesa na noite da ceia.

E depois, no fim daquela jornada breve e marcante, na cruz, ele também foi homem. Sofreu mais do que poderíamos sofrer. Teve medo. Ali sentiu tudo quanto poderíamos passar. Teve sede. Teve forças para pedir ao fiel amigo que cuidasse de sua mãe, aquela que via seu filho padecer e talvez tenha se lembrado do pequeno bebê que concebera em Belém. Ele pagou um preço que jamais, jamais seremos capazes de honrar. Foi tentado, em tudo. Teve misericórdia de seus algozes. Foi condenado. Morreu Jesus, o homem e Deus, crucificado numa tarde de Páscoa em Jerusalém.

Mas venceu a morte, ressuscitou. Pagou nossa dívida, tomou-nos como propriedade sua e nos fez livres da vergonha, do erro, da dor. E agora livres, podemos servir, podemos adorar, amar e viver a vida plena, completa, eterna ao lado de nosso Deus, bom Pai, puro Mestre, Jesus.

Sobre isso, diria a verdade religiosa num cântico de nossos dias: “Morreu a nossa morte para vivermos a sua vida”. E disse também um grande homem de Deus de tempos mais antigos: “Ser cristão é olhar para Jesus e dizer: ‘Esse homem para mim é Deus!’”(Martinho Lutero).

“Porque Deus tanto amou o mundo que deu seu Filho Único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele.” (João 3:16-17).