A profecia de Dostoiévski

Ricardo Gondim escreve sobre o livro “Os irmãos Karamázov” de Fiodor Dostoiévski. É curioso notar como o escritor russo pôde escrever, em 1879, tão claramente sobre a realidade da igreja brasileira em nossos dias.

“O religioso ainda declara que Cristo cometera um monumental deslize ao recusar a oferta do Diabo de conquistar os reinos do mundo. Bastava que ele o adorasse por um instante e não haveria mais guerras, fomes ou injustiças no planeta. Os reinos pertenceriam a ele e a ordem estaria segura.

Ao ler Dostoiévski percebo tanto a universalidade como contemporaneidade de seu pensamento. A religião anda na contra-mão do ensino de Jesus quando promete um mundo sem percalços e sempre previsível. Quando “Os Irmãos Karamazov” foi escrito, essa teologia utilitária, que promete dourar a pílula da vida, ainda não se difundira tanto, mas foi amplamente denunciada. Jesus não quer ser amado pelo que dá, mas por quem ele é.”

 

Todo o texto no site do Ricardo Gondim.

Votar com fé eu vou

por Henrique Matos

A Copa do Mundo está tão em alta que ninguém lembra do que anda acontecendo cá por essas terras, mais especificamente em Brasília. No que cabe a esse “logradouro” virtual, os comentários sempre pairam – e “pairarão” – sobre a condição da igreja (e não do craque Ronaldo, como alguns gostariam).

É curioso e até assustador (mas nada surpreendente) que nesses dias de internet e massificação da mídia a pauta de nossas conversas esteja condicionada às manchetes de telejornais e websites. E como tal, já não falamos de política, de crimes, desastres da natureza ou qualquer outra coisa que não remeta ao “quarteto mágico”.

Pois bem, vou ser o chato da história então. Eis que, foi divulgado ontem o relatório final da CPI dos Bingos, que segundo a Folha de S. Paulo “investigou durante meses todo tipo de denúncia que surgiu contra o atual governo, como a suposta ligação entre o assassinato do prefeito Celso Daniel (PT) e o esquema de financiamento de campanhas; as possíveis irregularidades na Prefeitura de Ribeirão Preto durante a gestão de Antonio Palocci; a suposta doação de casas de bingo ou a remessa de dólares vindos de Cuba para a campanha de Lula, entre outros temas explosivos”.

E no que nos afeta, dentre os 79 nomes que deverão ser indiciados, pelo menos dois são de deputados que foram eleitos com seu primeiro-nome comum: Bispo. Entre os ditos está o tal Rodrigues (o bonitão aí da foto), que renunciou ao cargo depois de ser provada a sua participação no escândalo do Mensalão e agora também deve ser investigado em detalhes (esteve preso, inclusive) por sua marcante atuação no caso do superfaturamento de ambulâncias. Rodrigues e seus comparsas são membros da chamada “bancada dos evangélicos”.

Sim caros amigos, foram eleitos com o voto da gente simples, confiante de que os “hômi de Deus” os representariam com dignidade no Parlamento. Bem, visto está que não fazem seu trabalho. E ainda atrapalham, mancham a dignidade do povo, do país e da igreja.

Assim, acho que a denúncia tem valor para repensarmos neste ano eleitoral (sim, teremos eleições em 2006) se esses tantos que se dizem cristãos não estão apenas angariando votos entre um segmento de eleitores muito do inocente, esperançoso por ética e cheio de… boa fé.

P.S.: O relatório final da CPI dos Bingos, divulgado essa semana, está disponível no site do Senado: www.senado.gov.br/web/comissoes/ CPI/Bingos/RelFinalBingos.pdf. Antes que alguém se empolgue na leitura, lembro que o documento tem 1.430 páginas.

Pregadores da bola

por Henrique Matos

Foi essa a declaração do jogador Zé Roberto, meio-campo da nossa Seleção ao site GloboEsporte.com e à revista Veja na última semana: “É uma coisa em que penso, sim (virar pastor). Quem sabe depois do fim da carreira?”.

Com jeitão de rapper e aparência sisuda (mas de comportamento discreto), o desejo do rapaz tem seus méritos. Ele faz parte dos Atletas de Cristo, instituição bastante séria e respeitada. E a atitude dele parece muito sincera e apaixonada – e até mesmo coerente, pelo que segue na reportagem dizendo que a decisão não cabe apenas a ele.

Não tenho dúvidas de que serão muitas as portas abertas para um possível pregador com sua fama (e ainda muito mais se ganharmos o hexacampeonato), como também não tenho da quantidade de convites e explorações oportunistas de algumas comunidades sedentas pela audiência que um “convidado” como esse atrai para os cultos.

Mas a dúvida que me cerca é: teria ele talento e maturidade para ministrar e pastorear pessoas?

Essa é uma dificuldade na igreja brasileira (e não do jogador, coitado). Somos tão deslumbrados pela conversão de celebridades que qualquer uma delas que se apresente como cristã ganha logo um microfone e um título eclesiástico. Nada contra testemunhos, pelo contrário, são fonte de inspiração. Mas temo pela exposição exagerada sobre essas pessoas, que tal como qualquer outro “recém-nascido” no cristianismo, precisam de acompanhamento pastoral, estudo e discipulado.

Sobre ministérios e vocações, ainda acredito que podemos e devemos ser luz nesse mundo, usando como instrumentos os dons que nos foram confiados por Deus. Ah, seu eu jogasse bola como algum daqueles 23 convocados – o fato é que não jogo nem como o gândula – pregaria com os pés e não com essas mal-escritas frases.

E quanto ao Zé Roberto e seu desejo, espero sinceramente que esse irmão tenha com suas palavras o mesmo talento que tem com a bola.

Tempo de fazer amigos

Por Luiz Henrique Matos

Escrevo em meados de junho de 2006. Para os desavisados, estamos em ano e mês de Copa do Mundo, acontecendo agora na Alemanha. São trinta dias a cada quatro anos em que, confesso, a imensa maioria de meus interesses estão dirigidos ao futebol.

A Copa é a época em que exerço um certo domínio sobre o controle remoto da televisão de casa, o estoque de milhos para pipoca é renovado semanalmente e até as desacreditadas habilidades atléticas da Tunísia me soam encantadoras.

E nessa época, fãs de futebol tornam-se tanto ou mais religiosos do que os 99% de muçulmanos da Tunísia – povo que até onde me consta, não se preocupa tanto com sua seleção –, parando três vezes ao dia (horários dos jogos) e voltando-se para a Alemanha, a fim de reverenciar a bola, o gol, o futebol-arte e mesmo as bolhas nos pés do Ronaldinho.

E tanto tempo diante da televisão faz com que reparemos em peculiaridades que nada somam ao nosso acervo intelectual. Detalhes que vão desde os nomes dos patrocinadores nas placas à beira do campo até as letras e melodias dos hinos de cada um dos 32 países participantes. Dentre essas minúcias, uma me chamou atenção e até, vejam só, ajuda-me nessa mensagem. Li em todos os estádios, faixas com a expressão “Tempo de fazer amigos”, que vim a descobrir depois, foi a frase escolhida pelos organizadores para ser o tema do torneio.

Julguei interessante. E nos intervalos, sob influência nítida do clima futebolístico, pus-me a pensar que a dimensão dessa frase é maior do que pode parecer – bem como a filosofia do futebol e as analogias que lhe são possíveis. O fato que se defende é que apesar da competição, aquele é um ambiente para se “fazer amigos”. Mesmo com as diferenças raciais, culturais, lingüísticas ou geográficas, durante um mês aqueles atletas e torcedores esquecem o que os separa e concentram-se em um tema comum: a alegria do esporte.

E a realidade dessa ilustração acaba, de fato, acontecendo. Note a importância histórica de jogos como, por exemplo, Portugal x Angola, que até recentemente viviam na disputa de um regime de colonização, cuja liberdade custou-lhes violentas guerras e tempos de inimizade. Pois, vimos os jogos e a única disputa entre aqueles homens limitava-se às quatro linhas do campo, não de batalha mas de festa. O mesmo acontece em jogos/batalhas entre Alemanha x Polônia, França x Costa do Marfim e em um nível de maior tensão Croácia e Sérvia.

Um outro caso também por aí se conta, de que a delegação da Costa do Marfim, vivendo uma intensa guerra civil, conseguiu negociar um cessar fogo entre as partes, para que a celebração da classificação de sua seleção prosseguisse em paz. Sobre isso, veja abaixo o trecho de um artigo de Paul Laity, editor do London Review of Books para a revista National Geographic.

“Torcedores chegaram a dizer que só o futebol, não a política, poderia contribuir para o fim da guerra civil. Ao longo dos seis anos anteriores, os donos do poder na Costa do Marfim, originários do sul do país, haviam fomentado o ódio aos imigrantes e aos muçulmanos. No entanto, muitos dos melhores jogadores eram de famílias muçulmanas ou imigrantes e, com isso, a seleção de futebol virou um irresistível símbolo de união nacional. Após o desfile da vitória em Abidjan, o diretor da Federação de Futebol da Costa do Marfim lançou um apelo ao presidente Laurent Gbagbo: “Em nome dos jogadores, venho dizer ao senhor que o maior desejo deles é que nosso país acabe com suas divisões. Eles gostariam que essa vitória fosse um estímulo para a pacificação. Que este êxito sirva para nos unir de novo”. E os festejos nas ruas prosseguiram ainda por mais um dia.”

Por trinta dias, aquelas pessoas voltariam a falar a mesma língua, seriam a mesma raça, unida em sua torcida multicolorida nos estádios e nas ruas, na expectativa pura e simples de jogar.

“As diferenças que nos separam limitam-se a um ou dois pontos. Agora, se olharmos bem, nós concordamos em todos os outros aspectos. Então, se somos diferentes em tão pouco e iguais em tantas outras coisas, porque não deixamos de lado essas diferenças e não vivemos em comunhão?”.

Essa é uma frase que admiro e da qual sempre me lembro em certas ocasiões. E como são devidos os créditos, registro que foram ditas por Rui Luís Rodrigues. Rui é um especialista, mas não necessariamente da bola, e sim da Igreja, como pastor, pregador e estudioso.

E é sobre a igreja que essa frase nos fala. A igreja de Jesus Cristo com todas e muitas das suas diferenças, separações e denominações. A igreja que já não é uma rocha mas quase um plural de pedregulhos gastos, tantos são os estilos e características que teimam em defender e rotineiramente se multiplicar.

Costumo pensar: em troca de quê exatamente alimentamos essas rusgas? O que ganhamos com essas divergências tolas? Mas confesso que as questões apenas ecoam, não acham respostas. Acredito que se vivesse o sábio rei Salomão em nossos dias nós o veríamos exclamar seu jargão: “Ah, isso é vaidade! É correr atrás do vento”.

Penso também – e sou de pensar à toa – naquela oração de Jesus. Aquela, a única que ainda hoje não foi respondida e que me fazem desejar saber a razão: “A natureza divina que tu me deste eu reparti com eles a fim de que possam ser um, assim como tu e eu somos um. Eu estou unido com eles, e tu estás unido comigo, para que eles sejam completamente unidos, a fim de que o mundo saiba que me enviaste e que amas os meus seguidores como também me amas.” (João 17: 22-23 NTLH).

É evidente, portanto, que se como igreja desejamos levar o amor para esse mundo, precisamos ter uma única direção para levar as pessoas a Ele! Não, eu não falo de um só modelo ou estilo, nós precisamos respeitar as diferenças. Eu falo sim de uma única forma e visão, um reconhecimento de semelhança e proximidade familiar porque, afinal, nos dizemos todos discípulos de Jesus Cristo.

Se o futebol – como no caso da Costa do Marfim – tem o poder de amenizar guerras, porque não a igreja seria capaz de acabar com diferenças tão pequenas que a divide? Tudo não parece tão simples?

Mas eu reconheço, sou um sonhador… desses que acham possíveis coisas estranhas. E nesses “achismos”, já começo a me entusiasmar em pensar que estamos mesmo começando um novo tempo. Tempo de despertar para a realidade de que podemos ser amigos. Tempo em que poderemos ver a família de Cristo reunida numa mesa posta, sentada a partilhar do mesmo pão, ainda que seus costumes e hábitos sejam diferentes.

Sim, eu sinto e sonho com esses ares. Um novo tempo em que seremos amigos, ou melhor, viveremos essa verdade de que somos, de fato, todos irmãos. Olharemos para as diferenças que nos separam e veremos que elas são por demais pequenas, indignas dessa rivalidade que temos alimentado.

Mas mais do que boa vontade, para se fazer amigos é preciso compreensão. Para se viver como irmãos é condicional que todos entendam a mesma língua, ainda que não se fale nada, porque entre irmãos é assim, não é preciso falar muito, basta que se goste, respeite as opiniões e queira fazer bem ao outro. E preciso dizer: eu acredito nesse tempo, eu oro por ele com fé e esperança de vê-lo edificado.

E ainda que eu esteja errado e esse sonho não tenha começado a se construir, acabo achando que podemos ao menos concordar, aqui entre nós, você e eu, e fazer o esforço para que um novo tempo comece. Um tempo em que a Igreja poderá tirar os olhos de sua religiosidade e os dirija, em amor, para as pessoas. Um tempo de trazer novos irmãos e por que não, espelhados no tema esportivo, fazer bons amigos.

Antes que precisemos clamar ao futebol para salvar também a igreja.

“A religião que Deus nosso Pai aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e manter-se incontaminado pelo mundo.” (Tiago 1:27 NVI).