Ansiedades, probabilidades e estatísticas

por Luiz Henrique Matos

“Suponho que viver a vida a cada dia (…) é precisamente o que nós temos que aprender – mesmo quando o velho Adão em mim às vezes alega que, se Deus quisesse me fazer viver como os lírios do campo, por que não me deu a mesma dose de nervos e imaginação que ele! Ou será esse precisamente o ponto, o propósito exato deste paradoxo divino e audacioso chamado ser humano – fazer, dotado de razão, tudo aquilo que outros seres fazem sem ela?” (C. S. Lewis).

Às vezes gostaria de saber qual seria a probabilidade estatística – dessas de um número tanto para tantos milhões – de realmente acontecer o que se fez em certas ocasiões. Sei que o assunto não é novo, hoje em dia parece até que andam em evidência os filmes que mostram o passado de um Fulano e o quão diferente a vida dele seria se uma simples alteração, atitude ou gesto fossem mudados.

Se eu não tivesse – à revelia, diga-se aqui – sido transferido de departamento em meu primeiro emprego, jamais conheceria aquela linda, encantadora, amável, irresistível, perfeita, graciosa… garota que hoje é minha esposa. E foi através de uma amizade sua que consegui o emprego seguinte, que posteriormente me possibilitou o atual. Também em sua companhia, comecei a freqüentar igrejas e numa delas tornei-me cristão. O cristianismo, afinal, foi a válvula para que eu iniciasse um novo projeto com textos, que me fez então estabelecer esse contato com você. Ora, se não fosse então uma frustrante mudança em meu antigo trabalho, hoje provavelmente eu seria solteiro, com outra carreira, longe da igreja e sem a mensagem que você lê nesse exato instante (não que isso lhe represente muita coisa).

Acho que é por isso que não acredito em “acaso”. Falo sem qualquer reflexão filosófica sobre o tema, tão agradável para os pensadores mais engajados, mas apenas pura e pobremente como uma reflexão vã sobre o assunto, jogando conversa fora para tentar entender os caminhos, percalços e alegrias dessa vida.

E sei sim que é por isso, em quantia maior e mais convicta, que acredito na providência e soberania divinas. Não de forma simplista, como se fossemos todos marionetes nas mãos de um tirano manipulador, mas de forma estratégica, sonhada, com o bom Pai traçando caminhos para os filhos, desejando que sejamos suficientemente sábios e de alguma forma sensíveis para compreender os seus planos de amor.

Por isso também, em momentos de ócio imaginativo (como esse), procuro relembrar os fatos, dos mais sutis, que foram fundamentais na construção dos caminhos que trilhei. Olhando para trás e vendo o rastro das pegadas, posso perceber que muitas das lutas e tempestades que eu julgava quase mortais para meu espírito – e sobre as quais muitas vezes lancei condenações às minhas decisões – foram, na verdade, providenciais para meu crescimento e amadurecimento.

O caminho que você e eu podemos escolher é um só, dentre tantos que tentadoramente aparecem à frente. Mas a decisão é única e definitiva num certo momento: seguir a Jesus Cristo como nosso salvador, a Deus como Pai, é uma escolha por ele mesmo revelada “estreita” (Mateus 7:14), mas que conduz ao descanso da eternidade. E essa conversão de trajetórias, nada sutil, altera muita coisa daí por diante. Uma mudança, até mesmo os números frios das estatísticas podem provar.

Probabilidades? Bem, imagine então quais seriam as de que se cumprissem em um único homem, todas as 332 profecias ditas a respeito do Messias que os judeus esperavam. No que me lembro, era de uma chance em 8 seguido de oitenta zeros (não, não fiz a conta e também não sei pronunciar o tal número. Eu o li nalgum lugar que agora não encontro). Pois, desafiando a razão, todas elas foram consumadas na vida de Jesus Cristo.

Agora olho ansioso para o que sou, tentando avaliar esse presente em que vivo, minhas possibilidades de acerto e meus riscos de erro, sei que muitas de minhas dúvidas serão respondidas amanhã, quando então saberei seus propósitos. Mas, me pergunto outras horas: e as dúvidas sobre o depois? E o dia de amanhã como será, o que virá, o que se dirá? Olho então novamente para trás, um tanto só para aprender, e vejo nas páginas que li e nos passos que trilhei a verdade reluzente dos sábios (e eternos) conselhos de meu Pai…

“Dêem pois prioridade ao seu reino e à sua justiça e Deus cuidará do vosso futuro. Não se preocupem com o dia de amanhã. O dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta cada dia o seu mal.” (Mateus 6:33-34, na tradução “O Livro”).

Adeus às armas

por Luiz Henrique Matos

Nos próximos dias você e eu, cidadãos brasileiros, eleitores, seremos convocados a enfrentar uma grande fila em uma escola de nossa cidade para prestar o voto sobre a pergunta que os parlamentares decidiram julgar como responsabilidade nossa: “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?”.

Contrariando a vontade própria mas obedecendo ao impulso inevitável, senti-me no dever de expor o assunto sob uma ótica bíblica, visão essa que também busco, como resultado da frustrada tentativa de chegar em uma resposta sobre meu voto. Confesso que pensando de forma racional, me divido entre os argumentos das duas partes. Mas, ao menos agora, que fiquem os dados como base de ponderação e limitados aos comerciais televisivos recheados de celebridades. Não pretendo aqui citar as muitas estatísticas que tentam nos convencer, mas no que me cabe, gostaria de refletir sobre as Escrituras e o que nela se diz a respeito.

Um estudo breve é suficiente para saber que não há no Novo Testamento qualquer expressão ou citação que justifique o porte de armas ou uso de violência (seja como ataque ou defesa). Pelo contrário, aliás, muito pelo contrário, a exortação é outra. Apenas para citar alguns exemplos: João Batista, Estevão, Tiago, Paulo e, obviamente, Jesus, são alguns dos que se submeteram sem reagir às acusações e ataques injustos contra si, alguns deles pagando com a própria vida. Jesus dizia ainda que devemos perdoar e amar os nossos agressores.

Alguém pode dizer que isso refere-se a particularidades da vida religiosa e que de fato, não tem adequação com o que se discute hoje. Digo porém, que existe ainda um outro momento muito apropriado, que acontece na noite em que Jesus é preso. Ele orava no Monte das Oliveiras quando Judas chegou acompanhado do grupo armado que iria prendê-lo. Jesus não foi resistente e diante da investida opressora, entregou-se. Mas na hora, eis que Pedro (sempre ele) sacou uma espada e no ímpeto de defender seu Mestre decepou a orelha de Malco, um dos servos do sumo sacerdote que participava daquela investida judaica. Jesus repreendeu o gesto, ordenou a Pedro que guardasse a espada e curou a ferida do homem.

Pessoalmente, admito que o argumento de ter uma arma em casa como medida de “defesa”, me soa algo tão coerente quanto: “Olha, eu não bebo e não pretendo beber, mas deixo uma garrafa de uísque em casa para caso um dia eu precise”.

Espere aí, pensando bem, há sim uma outra passagem bíblica falando sobre armas. E é Paulo quem escreve aos efésios dizendo que sim, é necessário que tenhamos uma espada. Bem, ele fala em espada, mas sejamos mais modernos e vamos contextualizar o nome desse “instrumento” para… vejamos, uma metralhadora! Nesse aspecto e com a devida substituição, o versículo seria assim: “Usem o capacete da salvação e a metralhadora do Espírito, que é a palavra de Deus” (Efésios 6:17).

Para todos nós, é muito confortável cobrar esse cristianismo exemplar e santo de nossos irmãos e líderes, mas não podemos ignorar o fato de que é de nós mesmos que deveríamos exigir uma conduta o quanto mais próxima da que nosso Senhor viveria. E mais do que pregar, estudar ou concordar, sei que preciso eu mesmo viver a verdade sendo um espelho dessa fé, agindo como Jesus agiria.

“As armas com as quais lutamos não são humanas; ao contrário, são poderosas em Deus para destruir fortalezas” (Paulo em 2 Coríntios 10:4).

Também é fácil (e muito justo) exigir que nossos governantes façam sua parte, inibindo a violência e sendo eficientes no combate ao crime. Mas também não somos nós, os cristãos, que dizemos ser herdeiros e parte de um Reino que prega a paz, o amor e a misericórdia como princípios incondicionais? Na vida prática, se quero ver luz, começo então acendendo a lâmpada. E assim igualmente creio que se desejo viver em uma sociedade de paz, preciso fazer a minha parte, declarando que prefiro os meus princípios de vida e de fé aos “remédios” sugeridos por uma indústria bélica.

Como disse, não se trata de razão, mas de fé. Não são os direitos que temos ou os que perderemos, mas uma postura coerente com o que acreditamos. Postura essa que, se me permite encerrar com a citação abaixo, foi pregada e vivida por um homem que nunca professou a Jesus Cristo como seu Deus, mas que buscou nele o exemplo para promover parte das maiores mudanças que a sociedade moderna experimentou. Por seu gesto e liderança, seu país, a Índia, tornou-se livre de uma nação opressora. E enquanto esteve vivo, combateu com medidas pacifistas e desarmadas a violência intolerante entre os povos, o racismo e a injustiça social. Esse homem morreu em 1948, assassinado com três tiros.

“Precisamos ser a mudança que queremos ver” (Mahatma Gandhi).

Sessão nostalgia

por Luiz Henrique Matos

Tarde chuvosa, tempo cinzento, dia sonolento… um momento ideal para relembrar os dias da infância distante, das horas de sessão da tarde deitado no sofá, da nostalgia latente de uma meninice que a vida adulta já encobriu. Ai que vontade! Um chá quente com biscoito água e sal em casa… Mas não posso, é dia de compromisso, hora da responsabilidade. E assim sendo, como é, aproveito a circunstância para ser só um tiquinho mais nostálgico, aqui nesse tempo, numa conversa de compadres sobre fatos distantes do noticiário que reluz em minha tela e borra os meus dedões.

E sobre o passado, nele mesmo é que estive pensando e queria saber se você, por acaso assim, se “alembra” de um desastre natural que aconteceu já há muito tempo. Acho que há tanto que nem sei se ainda tem espaço em nossas remotas lembranças. A mídia eu sei que já esqueceu, mas com um tanto de paciência, posso ao menos lembrar o nome… tsunami. É isso aí, uma onda gigante que assolou alguns países no sul da Ásia. Você lembra disso? Fatos do passado, coisa de longa data. Quem nessa loucura de vida ainda tem tempo para falar em fatos já resolvidos? Mas só por dizer, coisa boba, foram duzentos e cinqüenta mil pessoas mortas naquela tragédia.

Tem também uma outra, um tempão depois, mas que já quase se perdeu. Um dos tais furacões Katrina. No norte dos Estados Unidos ele inundou uma cidade inteira e o povo fugiu para outro estado que depois também quase foi inundado, uma insanidade. Bem, mas e desse, você tem alguma recordação? Soube pelas notícias da época que foram mais de dez mil pessoas que morreram nas tempestades.

E ali juntinho, na mesma semana do furacão, se a memória não me escapa (desculpe, coisas da idade), aconteceu também aquele desastre no Iraque. Não, não estou falando daquela guerra antiiiiga que os norte-americanos travaram contra o ditador, o dito cujo chamado Saddam Hussein. Falo aqui do incidente sobre uma ponte no Rio Tigre em que morreram mais de mil pessoas, pisoteadas, asfixiadas ou afogadas depois de uma suspeita, veja bem, só uma suspeita de ataque suicida.

Pois é. E sabe que agora já tem um outro sendo esquecido, no fim das suas contas, nem rende mais audiência para os telejornais. Foi esse um terremoto, de novo na Ásia. Você lembra? Não? É compreensível, também pudera, já se passou uma semana e isso é tempo por demais. Com certa dificuldade, achei uma matéria e li que até hoje não terminaram de contar as vítimas, mas que os governos do Paquistão, Índia e Afeganistão contabilizam mais de 39 mil mortos, entre corpos encontrados e outros ainda soterrados. E depois de tanto tempo, os jornais já não relatam mais o ocorrido em suas páginas.

É, o tempo passa rápido demais. Para mim, para você, o volume de informações na mídia é tamanho e vindo de tantos meios diferentes que nem percebemos que as elas chegam, ocupam o topo das manchetes e vão diminuindo de tamanho e importância até que alguns dias se passam e ninguém mais se recorda.

Agora, penso aqui outra vez junto com esses meus botões (sorte eu estar de camisa), não é porque os jornais deixam de noticiar que o fato se resolveu. A imprensa e o pensamento imediatistas da nossa cultura ocidental são tão frenéticos que não só nos esquecemos de fatos recentes com tamanha facilidade, como deixamos de nos comover com as situações que acontecem debaixo de nosso próprio nariz.

Ainda hoje, os governos sul-asiáticos trabalham para reerguer as cidades atingidas pelo tsunami e a estimativa inicial da ONU previa ao menos dez anos para a recuperar as áreas devastadas. O furacão Katrina ainda deve consumir cinco anos de investimentos e obras em Nova Orleans. O Iraque, bem o Iraque, não bastasse o desastre sobre a ponte, o povo daquele país ainda sofre com a opressão norte-americana presente em seu país e com os insurgentes rebeldes que explodem a tudo e a si próprios pelas ruas das cidades. E afinal, sobre o terremoto no Paquistão, procuro pelas notícias e pouco ainda se fala a respeito da situação no oriente.

Mas o triste saldo que fica nessa conta não é o das estatísticas sociais, são sim, de fato, as pessoas desabrigadas, as famílias separadas, os enfermos, as crianças sem remédio ou comida. E não é bem assim no plural e no termo coletivo. Está ali um bom punhado de gente, com sentimento, dor, vida, esperança… assim como eu, tal como você, passando por necessidades primárias e a mercê de nossa comoção e, quem sabe, uma caridade.

Em horas dessas, uma condição me incomoda o espírito e não consigo deixar de sentir um tanto de culpa pela minha negligência e mais um outro bocado de dúvidas, que se resumem em uma única que agora me faço: e eu, o que posso fazer?

Ser como Jesus? Amar ao próximo como amo a mim? Orar e interceder? Estender a mão e ajudar? Me conscientizar e prevenir os danos que causo à criação divina? Sim, tudo isso e tanto mais. Mas ainda busco a verdade por detrás dos conceitos e ministrações. Tento desbravar a vida, procurando o exemplo deixado pelo único que foi capaz de trilhar sozinho esse caminho e vencer, sem as muitas indagações de que me cobro.

Me questiono na condição de quem se declara cristão, renascido em Jesus Cristo, preenchido e marcado por sua verdade, amor e misericórdia e desejoso em espelhar o seu caráter. Procuro nas Escrituras a resposta e não preciso ir muito longe, várias me saltam aos olhos e à mente, mas uma delas, só uma breve e simples passagem, me faz parar e entender sobre o caminho, sobre a atitude, sobre a postura que preciso viver:

“Certa ocasião, um perito na lei levantou-se para pôr Jesus à prova e lhe perguntou: ‘Mestre, o que preciso fazer para herdar a vida eterna?’. ‘O que está escrito na Lei?’, respondeu Jesus. ‘Como você a lê?’. Ele respondeu: ‘Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento’ e ‘Amarás a teu próximo como a ti mesmo’. Disse Jesus: ‘Você respondeu corretamente. Faça isso, e viverá’. Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: ‘E quem é o meu próximo?’. Em resposta, disse Jesus: ‘Um homem descia de Jerusalém para Jericó, quando caiu nas mãos de assaltantes. Estes lhe tiraram as roupas, espancaram-no e se foram, deixando-o quase morto. Aconteceu estar descendo pela mesma estrada um sacerdote. Quando viu o homem, passou pelo outro lado. E assim também um levita; quando chegou ao lugar e o viu, passou pelo outro lado. Mas um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele. Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Então colocou o homem sobre seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele. No dia seguinte, tirou dois denários e os deu ao hospedeiro. ‘Cuide dele, e, se alguma coisa gastares a mais, eu te indenizarei quando voltar’. Qual destes três você acha que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?’” (Lucas 10:25-35).