João e o pé de…

por Luiz Henrique Matos

Ainda hoje eu me lembro daquelas experiências. Não era preciso prática e nem tão pouco habilidade para se ver algo surpreendente, como num milagre. Na verdade, bastava que se plantasse… e via-se rapidamente o resultado.

A receita, tão simples, envolvia muito pouco: um copo de plástico, um pedaço de algodão, alguns mililitros de água e dois pequenos feijões embalados no algodão. Esperava-se dois ou três dias e finalmente era possível ver aquele pequeno ramo verde, que na minha infância breve parecia crescido tal como uma (promissora) árvore.

E esperando, eu pensava, se passassem mais uma semana ou duas, o copo seria destruído pela grandeza daquele meu pé de feijão, capaz de romper algodões, terras e tal como na história, me levar aos céus. E aí, talvez por isso, minha mãe não me deixava prosseguir na experiência que transformaria o mundo (bem, espero que você seja capaz de considerar essa inventividade infantil).

Há pouco tempo – alguns minutos para ser exato – eu li a história de João, um rapaz que em sua adolescência viveu grandes aventuras. E numa delas, presenciou a melhor das histórias sentado diante daquilo que na tenra mocidade lhe parecia uma árvore, mas não passava, afinal, de um pé de… uva.

“Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês. Nenhum ramo pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Vocês também não podem dar fruto, se não permanecerem em mim. Eu sou a videira; vocês são os ramos. Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; pois sem mim, vocês não podem fazer coisa alguma” (João 15:1, 4 e 5).

João era moço, novinho de tudo, talvez tivesse uma visão dividida do que se passava, não compreendendo a grandeza do que vivia, mas ao mesmo tempo, pela inocência, sendo ele mesmo o integrante mais envolvido naquele espetáculo sobrenatural.

Aqueles dias seriam os últimos em que ele poderia desfrutar a presença do filho de Deus nesta terra. Encantado com aquele Messias amoroso a quem ele mesmo pôde tocar, acompanhar, servir, amar e entregar-se cegamente às suas palavras. E momentos como esse, diante da videira, marcaram sua vida ao ponto de, anos depois, ser o único dentre os quatro autores dos evangelhos a narrar o acontecimento.

Naquele dia, João ouviu sobre o amor que marcou sua vida e pregação. Sentado num chão de terra, observando e crendo, ele viu o Deus vivo o chamar de amigo, ele ouviu seu Mestre lhe dizer que era preciso frutificar.

“Se vocês obedecerem aos meus mandamentos, permanecerão no meu amor, assim como tenho obedecido aos mandamentos de meu Pai e em seu amor permaneço. O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros como eu os amei. Já não os chamo servos, porque o servo não sabe o que o seu senhor faz. Em vez disso, eu os tenho chamado amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai, eu lhes tornei conhecido” (João 15:10, 12 e 15).

Aquele João da videira, era o garoto que vimos reclinado sobre o peito de Jesus na ceia, foi um dos três que faziam parte da intimidade do Mestre, foi o único discípulo a estar aos pés da cruz ouvindo de Cristo a ordem para cuidar daquela que fora sua mãe. O pequeno João do pé de uva, foi o apóstolo na igreja primitiva, foi missionário pela Ásia, foi preso e escravizado pela perseguição do império romano. Foi o que serviu aos seus irmãos, foi o que viveu até que Deus o recolhesse, foi o que contemplou e recebeu a revelação descrita em Apocalipse que ainda hoje nos consola.

João viu o Deus, ouviu o Verbo, seguiu o Caminho, conheceu a Verdade e optou pela Vida. Creu e dedicou-se à mensagem de viver em Cristo e frutificar ao mundo. João em sua inocência espontânea e juvenil, experimentou o melhor, dedicando sua adoração àquele que é digno de tal amor.

A videira. Uma pequena árvore, plantada ali num solo árido daquela Jerusalém antiga, mas que pela presença do Deus vivo à sua frente, ficou eternizada na parábola e levou o jovem João a lembrar e viver grandes experiências, nos mais altos céus.

Agora veja você, com seus olhos de fé. Imagine. Viva a experiência. Diante da videira, frente ao Deus de amor, ouvindo esse desafio…

E que frutos dará?

“Vocês não me escolheram, mas eu os escolhi para irem e darem fruto, fruto que permaneça, a fim de que o Pai lhes conceda o que pedirem em meu nome. Este é o meu mandamento: amem-se uns aos outros” (João 15:16 e 17).

Daqueles dias

por Luiz Henrique Matos

Às vezes chego em casa cansado. Um dia duro de trabalho, trânsito na cidade, contas para pagar, preocupações que vêm à mente. E então, ao seu lado, não preciso dizer nada. Sei que ali eu descanso, esqueço e encontro a paz. Com você eu não preciso saber as respostas, não preciso ser herói, não preciso ser um adulto bem resolvido ou dessa gente que inventa qualquer assunto para o clima não ficar sem graça.

Lembro, em alguns desses momentos, de palavras que ouvi em outras horas: “Às vezes, entre dois amigos, o silêncio já diz muita coisa”. É verdade. Eu só preciso dizer que não suporto o silêncio sem a sua presença.

Tem momentos em que minha ansiedade me afoga, minha concentração passa longe e até parece que eu sou incapaz de terminar algo. A mente voa. Tenho dúvidas. Os sonhos ficam distorcidos, as certezas… bem, acho não tão certas assim. Cada passo em frente parece que pesa um pouco mais. E eu me encho das perguntas cujas respostas nunca soube. Mas, o que de mim você já não conhece?

Gosto das horas em que te digo: “Somos só nós dois”. Ali, restabeleço minha aliança de amor, honra e fidelidade. Sou leal a você (apesar de minhas inúmeras falhas). Nunca quis um relacionamento em que não pudéssemos ser totalmente francos um com o outro. E é muito bom ouvir suas verdades.

Sua presença me revela respostas. Seu toque, cura-me as dores e permite que eu deite em minha cama depois de um banho e minha oração, para repousar em tranqüilidade. Tenho sonhos. Tenho planos. Tenho muito a agradecer. E o que tenho, e o que sou, sei que brotaram antes como vontade de seu coração bom e fiel.

Esse amor tem me inspirado canções e poesias. Às vezes faz a mim, um homem grande, chorar como a criança amparada após o tombo. “Calma, foi só um susto” eu ouço o sussurro, abrigado na segurança de seus braços.

Algumas vezes, sozinho, eu me pergunto: por que? Um universo tão extenso, um mundo tão grande, uma criação tão bela e esplendorosa, os mares, as nações… por que isso tudo e tanto, para ser explorado, governado e devastado por corações ingratos? Como o meu.

Não temos segredos, não há mistérios. Existe sim essa sua sabedoria infinita que eu não compreendo, mas me acolhe. Assim, são inescrutáveis esses seus caminhos.

Alguns homens não acreditam nessa verdade. Outros crêem mas te vêem distante e avaliam a sua personalidade como temperamental e rígida, confundem justiça com frieza. Entenda, eu sinto se não me limito a tais leis e regras, mas confesso que gosto dessa intimidade (ainda que eu fuja tantas vezes) e prefiro conhece-lo pessoalmente. Afinal, não é você o próprio Deus? Não é o Senhor? Acaso não é o Rei, Eterno, Santo, digno de glória? Sim, é tudo isso e é único. Mas como tratá-lo com distância, enquanto dia-a-dia me ergue em seu colo como filho e me pede para chama-lo de Pai?

Meu Pai do céu. E quantas não foram as vezes em que eu quase me esqueci do seu amor? Tantas as horas em que me buscou pelas manhãs, perdido, dormindo ao relento, chafurdando na lama, embriagado da droga mundana. Você nunca desistiu de mim. E constrangido, abri meus olhos e os voltei em sua direção… E não vi sombras, e não vi mágoa. Eu vi sua mão estendida, seu sorriso terno, ouvi sua suave voz proclamando festa: “…este meu filho estava morto e voltou à vida; estava perdido e foi achado”.

Eu jamais poderia retribuir tanto amor.

E me fez muito mais, motivado por aquilo que é em essência: amor. Amor fiel, paciente, bondoso. Amor alegre. O amor eterno que esperou a hora, que tudo sofreu, tudo suportou. E resistiu. Se entregou. Perfurado, maltratado, cuspido, espancado. Os que o conduziram ao Reino lhe deram uma coroa, de espinhos. Vestiram uma capa, estando nu. Ergueram ao alto da montanha, crucificado.

E ali morreu no meu lugar. E adiante, depois, ressuscitou para o triunfo da eternidade.

Quando volto a olhar em sua direção, lembro-me daquele dia. O dia em que senti minhas culpas partirem e meu fardo ser removido. Dia em que meus pecados foram perdoados e cada uma de minhas feridas curadas. Dia em que minha mente repousa, minha fé se baseia e minha vida se entrega.

Apesar de mim, você é Deus. E é aquele o seu gesto que nos liga para sempre, na eternidade que viveremos juntos. Nessa cruz que observo, seu Filho morreu eu meu lugar, para que hoje eu pudesse chama-lo Pai, meu Pai.

Que eu nunca me esqueça.

Analogias não bastam

por Luiz Henrique Matos

“Alegrem-se na esperança, sejam pacientes na tribulação, perseverem na oração” (Romanos 12:12).

Existem situações em que as ilustrações não resolvem. E também tampouco ajudam. São momentos que exemplos e gracejos são incapazes de retratar. Luzes no fim de túneis, Davis vencendo Golias, vales escuros sendo cruzados por valentes guerreiros, faróis reluzentes nos portos frente a penumbra solitária da noite. Não, nessas horas as parábolas nada refletem. Os versículos ecoam e soam apenas como afirmações frágeis de homens que não viviam, ah não, eles não poderiam estar passando por isso!

Tampouco dizem algo qualquer uma das palavras escritas. As poesias e registros que florescem desses tais são tão somente exercícios e desabafos atrasados não ditos quando deviam. Momentos em que o mundo parece quieto e sentimos que mesmo os anjos apenas observam. Num suspiro, olhando à volta, notamos um tanto do gesto dos solidários que dedicam-se a consolar a dor, mas mesmo eles não podem entender, ninguém poderia.

E brotam as dúvidas, florescem os cravos, desatina a dor, gira confusão, sonhos, transes e um questionamento que perdura: por quê?

Por isso, me calo quanto aos modelos de uns ou outros e até aos meus próprios instintos e aqui procuro ater-me à franqueza dos atos e fatos.

Na busca da resposta, acreditamos e sabemos, assim por simples saber e crer, que tantas e outras vezes ela se esconde não em outro lugar, senão em nós, ali dentro, debaixo, atrás, num canto talvez que, retorcendo e sondando quem sabe? Não, nem mesmo nós podemos enxergar.

E quem pode?

Sim, você já sabe, aqui, isso tudo é cristão, busca sê-lo. E não falaria de outra senão da Verdade. E ao contrário da outra, falsa, a verdade não se envergonha, nunca se cala, nem cansa de se repetir. E a verdade de Deus, tal como o próprio, é eterna e inabalável.

A verdade que sim, ora pois, sim! Sabemos, mas carecemos de confiar. Principalmente nesses tempos em que as muitas dúvidas questionam até o verbo que é, ser.

“Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jesus).

É Ele, somente Ele, que nos ouve quando já não temos fôlego para chamar. Nos atende, quando na fraqueza somos dobrados ao chão. E no pó vemos a matéria do que fomos, somos e seremos. Mas ainda assim, poeira deste mundo, temos um Deus, tão grande mas tão próximo, tão Senhor e tão Pai, tão justo mas que assim, perfeito, nos ama sem condições. E Ele mesmo se entrega, por amor às criaturas que insiste em chamar de Filhos, perdoa e cura, restaura.

Pena, eu lamento, que talvez não compreendamos tal grandeza em meio à turbulência nesse instante avassalador. Mas não é a compreensão que se faz necessária, sim a fé. Ora, a certeza das coisas que não se podem ver…

“Pois nessa esperança fomos salvos. Mas, esperança que se vê não é esperança. Quem espera por aquilo que está vendo?” (Romanos 8:24).

Se ainda vai doer? Sim, certamente vai. Mas uma hora passa. Se acredito que minhas palavras curam? Honestamente, não. Creio e sei, que nosso Deus nos vê e conhece. E ele sabe, com seus caminhos e seus pensamentos tão mais altos do que os nossos, que ali adiante há algo melhor.

É bom dizer que, o que digo apenas me parece, assim por acreditar, não sei muito bem. Quanto a isso sou também mais um dos que ainda esperam. Me entrego, peço, agradeço e permaneço. Deixo a janela do quarto aberta, aguardando pelo momento em que o sufoco passe e a brisa… ah, a brisa há de soprar, há de tocar, ah ela virá!

Mas sigamos na fé, na oração e no esperar em Deus. Esperar de esperança. Esperar que passem as parábolas, que cessem as lágrimas e que fuja o desespero de tantos porquês. Aguardar pelo novo dia que chega daqui a pouco, onde palavras poderão contar o passado, o passado pretérito perfeito que já se foi e agora é só história, mas que ainda assim esperamos… esperamos que ajude alguém. É, esperança.

“Por que você está assim tão triste, ó minha alma? Por que está assim tão perturbada dentro de mim? Ponha a sua esperança em Deus! Pois ainda o louvarei; ele é o meu Salvador e o meu Deus” (Salmo 42:11).

“Não só isso, mas também nos gloriamos nas tribulações, porque sabemos que a tribulação produz perseverança; a perseverança, um caráter aprovado; e o caráter aprovado, esperança. E a esperança não nos decepciona, porque Deus derramou seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo que ele nos concedeu” (Romanos 5:3-5).

No olho do furacão

por Luiz Henrique Matos

Furacão Katrina. Está em todos os jornais do planeta. Até o momento em que escrevo, foram contados ao menos 200 mortos, milhares de vítimas e prejuízos estimados entre 25 e 100 bilhões de dólares. Segundo fontes, 80% de Nova Orleans pode estar destruída depois de a cidade ter ficado submersa. A maior parte das áreas afetadas está sem acesso a energia elétrica, telefonia, alimentos e água potável. A população pede socorro. Balneários foram cobertos por ondas de até oito metros de altura e em alguns pontos alagados o nível da água chegou a seis metros de profundidade. Todos tentam se proteger da ameaça iminente ao entrar na rota de devastação provocada pelo furacão mais caro da história.

Furacões, por definição, são “tempestades ciclônicas com ventos muito fortes que se formam sobre os oceanos nas regiões tropicais” e podem ser classificados em graus de devastação que vão de 1 (para os mais brandos) a 5 (os mais cruéis e catastróficos). Eles são também nomeados, cada novo furacão recebe um nome que começa seqüencialmente com uma letra do alfabeto (Andrew, Bonnie, Camile, Danielle, Emily, etc.). O Katrina atingiu 5 pontos e segundo calculos, é 141º na ordem do alfabeto.

Análises meteorológicas podem prevê-los e transmitir alertas de precaução, mas não existem recursos que possam impedi-los de varrer o que estiver em seu caminho. Invariavelmente, a única solução é fugir.

Você já esteve na rota de um furacão?

É fato, não podemos negar que daqui, gozando a paz destas terras tropicais, aos vinte graus em pleno inverno, é muito provável que você e eu não tenhamos idéia do real impacto causado por uma destruição dessas. Não me refiro apenas ao prejuízo capital, causado pela perda de tantos bens, falo das necessidades humanas, das perdas pessoais, da gravidade emocional.

Afinal, sabemos, só quem está no centro de uma devastação como essa, sabe a dor e a aflição que se sente. Pelos noticiários, podemos avaliar, ponderar e nos comover com os números, índices, notícias e imagens reproduzidas pela mídia. Mas não estamos, de forma alguma, na pele daqueles que deixaram tudo o que tinham para preservar suas vidas.

Você já viu tudo o que construiu ser levado pela força de uma tempestade?

E quantos outros não foram e não são, os furacões e tempestades que assolam os homens e os povos ao longo de sua existência e caminhada? Alguns, tolos, tentam enfrenta-los, julgando-se capazes e fortes o suficiente para sair ilesos de uma força como essa.

Entenda, não importam os nomes, para cada circunstância e coração eles tem seus efeitos particulares. São os Andrew ou Avareza, Bornie ou Blasfêmia, Camile ou Ciúmes, Danielle ou Discórdia, Emily ou Egoísmo. Isso, além de todo um alfabeto de Tentações, Pecados, Opressões e Injustiças… tantos ventos fortes são capazes de nos consumir e derrubar. E não nos adianta, a qualquer um dizer que não puderam ser previstos, pois eles nascem dentro de nossos próprios instintos, como frutos de nossas decisões e atitudes (ou a falta delas). E também, aliás, não resolve pensar que entramos como presas desprevenidas em suas rotas.

“Seu trovão anuncia a tempestade que está a caminho; até o gado a pressente” (Jó 36:33).

Aconteceu, porém, afinal. E agora? Às vezes a vida entra em um desses ciclones, os sonhos pareceram frustrados, a esperança foi devastada e o coração amargo, vazio, deixado à margem da destruição. E o pior – ah como isso dói! – é saber que o primeiro sopro desse caos partiu de nossos pulmões.

Pecadores. Nessas horas, talvez só nelas, temos a oportunidade de reconstruir. Recebemos o poder de observar os vestígios desse pó e partir dele para recomeçar. Pecadores. Entendemos enfim o sentimento do arrependimento, nos quebrantamos e oramos ao único capaz de acalmar essa tempestade.

“Na sua aflição, clamaram ao Senhor, e ele os tirou da tribulação em que se encontravam. Reduziu a tempestade a uma brisa e serenou as ondas. As ondas sossegaram, eles se alegraram, e Deus os guiou ao porto almejado” (Salmo 107:28-30).

“Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça!” (Mateus 13:9).

(Fontes: Folha de S. Paulo, Wikipedia.org, Associated Press, Bíblia NVI, Wahington Post, Yahoo! Brasil e Reuters).

PS.: É óbvio que, eu não poderia fazer tal analogia e descartar de forma indiferente a situação de necessidade e emergência daquelas pessoas nos Estados Unidos. São milhares de vítimas precisando de nossa ajuda e oração. E de coração, resolve muito.