Uma manhã em Londres – O amor nunca falha

por Luiz Henrique Matos

Londres, 7 de julho – O Big Ben marca 9h15 na capital britânica.

Nos primeiros números da Woburn Place, dois guarda-chuvas estavam abertos naquela calçada, aguardando pelo ônibus das 9h21. No primeiro deles, um garoto sonolento, com seus onze anos, pequeno e magro, levando nas costas uma mochila encardida e no braço um livro escolar. No outro, protegendo-se da garoa com um guarda-chuvas estranhamente florido, um homem moreno, bigode grosso e com seus trinta e tantos anos também esperava o transporte chegar.

No horário previsto surgiu então na esquina o veículo vermelho de dois andares e parando no ponto, recolheu os passageiros. Os assentos, praticamente ocupados, deixavam apenas dois lugares livres. O garoto se adiantou, ocupou o assento perto da janela e acenou para o homem:

- Sente-se aqui – ofereceu convidativo – guardei o lugar para o senhor.

O homem, com o rosto sério, aceitou o convite mas não disse nada. Ele parecia um bocado inquieto, vestia um casaco grosso apesar do verão e olhava a todo instante para o relógio em seu pulso, ajustado (sabe-se lá como) com os minutos exatos do Big Ben.

O menino o observou por alguns instantes e rompeu novamente o silêncio para ousar:

- Legal essa tatuagem, é um mapa?

- O quê?

- Sua tatuagem, aí no pescoço, é um mapa da onde?

- Não. É uma pinta.

- Uma pinta?! Mas por que alguém tatuaria uma pinta?

- Não tatuei, não é tatuagem, é uma pinta, marca de nascença – disse tentando encerrar a conversa.

- O senhor está cansado?

- Não.

- Hum… está com sono? Eu estou…

- Não, estou com pressa.

- Vai trabalhar?

Ele não respondeu.

- Esse guarda-chuva não é seu né? Florido assim…

- …

O silêncio todo naquela conversa muito sem graça (algo que ele não disse, mas pensou) fez o garoto parar com o dialogo. Ficou cabisbaixo e virou-se para a janela, observando o movimento na rua.

- É da minha mãe.

- O quê?

- O guarda-chuva. É da minha mãe. Perdi o meu e ela me emprestou o dela hoje cedo.

- Nessa idade, você ainda mora com a sua mãe?

- Sim, vivemos sós aqui na Inglaterra. Não tenho pai.

- Ahn, me desculpe… E de onde vocês vieram?

- Egito.

- Puxa, isso é longe. Sou da Inglaterra. Aqui de Londres, para ser mais preciso.

O garoto se distraiu um pouco mais com o movimento de corre-corre que se formava na rua. O homem parecia desconfortável com as perguntas, mas também intrigado com um menino ao seu lado, olhava para o relógio acompanhando os minutos que se passavam, como se realmente algo de imprevisto pudesse ocorrer na pontualidade britânica.

- Qual o seu nome? – o garoto voltou ao interrogatório.

Olhando para frente, na direção do motorista, como se tentasse enxergar algo adiante, o homem fingiu não ouvir a pergunta. E pretendia manter-se assim, não fosse o cutucão insistente daquele jovem.

- Senhor? Eu gostaria de saber seu nome.

- Para quê? Você nem me conhece garoto.

- Não é educado conversar com uma pessoa sem chama-la pelo nome.

- Pois bem – balbuciou – Ismael, meu nome é Ismael.

O garoto boquiaberto empolgou-se (para desespero do desconfortável, agora sabemos, Ismael).

- Não acredito, esse dia deve ser histórico! Esse também é meu nome, eu sou Ismael! E olhe, não achei que houvesse outro em todo o Reino Unido.

- Eu existo.

- Minha mãe… – o pequeno Ismael prosseguiu – minha mãe me deu esse nome quando ainda estava grávida. Eu tive um irmão mais velho que morreu e ele se chamava Isaque. Nossos nomes são uma homenagem a um personagem bíblico chamado Abraão, conhecido como o “pai da fé”. Você conhece?

- Sim, está no Corão.

Ainda entusiasmado, o garoto abriu sua bolsa e mexia lá dentro procurando algo. Pegou um embrulho de papel, que desenrolou com dificuldade e tirou um pão caseiro. Partiu seu lanche ao meio e estendeu o pedaço para seu vizinho de banco.

- Tome Ismael, coma.

- Eu não quero – disse impaciente, agora não tanto com o garoto, mas com o tempo e a localidade do ônibus em que viajava – por que estamos demorando tanto?

- Ah, deixe disso! – o menino já não parecia preocupado com o itinerário do ônibus e tão pouco com a atitude de seu colega – acho que somos as duas únicas pessoas no Reino Unido com esse nome, esse é um momento de celebração.

“Eu não diria isso”, pensou o homem. Mas ele aceitou o pão, partiu, agradeceu e comia seu pedaço quando o garoto, ainda mastigando, mexia na novamente na bolsa e falava sem parar:

- Tenho algo aqui, quero lhe mostrar – e remexia – aqui está. Sabe, certa vez minha mãe escreveu esse caderno para mim e eu o carrego comigo. Aqui ela anotou o significado de meu nome, ops! nosso nome, com a passagem da Bíblia de onde ela o escolheu e me disse que essa era a promessa que Deus tinha para Ismael e que eu deveria crer nisso para mim também.

- Escute, eu não posso… – ele tentava falar e mal percebia algumas migalhas do pão que ficaram presas em seu bigode. Colocou a mão por dentro do casaco e observava a rua, esperando chegar em algum lugar específico.

- Aqui está, toda a história, mas vou selecionar apenas o que Deus diz enquanto sua mãe, Hagar, ainda estava grávida: “Você está grávida e terá um filho, e lhe dará o nome de Ismael, porque o Senhor a ouviu em seu sofrimento”. Depois – ele continuou – já com treze anos de idade, Ismael e a mãe são expulsos da terra onde vivem com Abraão, a pedido de sua esposa Sara. Aí eles andam pelo deserto sem destino e a mãe chega ao ponto de abandonar seu filho por não suportar a possibilidade de vê-lo morrer de sede e fome. Aí então, as Escrituras dizem que Deus ouviu choro do garoto e através de Seu anjo Ele chama Hagar e diz: “O que a aflige, Hagar? Não tenha medo; Deus ouviu o menino chorar, lá onde você o deixou. Levante o menino e tome-o pela mão, porque dele farei um grande povo. Então Deus lhe abriu os olhos, e ela viu uma fonte. Foi até lá, encheu de água a vasilha e deu de beber ao menino”.

Ismael, o homem, ficou quieto novamente. Mas dessa vez, pareceu por um momento esquecer seu atraso e com o olhar fixo no encosto da frente, refletia nas palavras que acabara de ouvir. Mais uma vez, Ismael, o menino, rompe o silêncio, agora falando sozinho, em sua convicção:

- Meu Deus, como gosto disso! “Tome-o pela mão, dele farei um grande povo”…

- Ele viu a mulher, Ele saciou o que tinha sede… ouviu seu choro no deserto… – completou o homem.

O garoto olhou para seu companheiro e desafiou:

- Você tem idéia do que é isso Ismael? – continuou visivelmente deslumbrado (e tanto mais ingênuo) – seremos os primeiros de muitos! Deus falou que Ismael é a origem de um grande e abençoado povo. Quero viver muito, muitos anos, para ver a grandeza de minha própria descendência! E sei que farei minha mãe orgulhosa.

- Sinto muito, eu gostaria de…

- Ismael, veja essas palavras, acho que só você pode entendê-las como eu. Para cada homem existe uma grande promessa de Deus, essa pode ser a nossa. Mas, como vamos descobri-la se não vivermos a realização desse sonho? Precisamos viver, “sonhar e viver”… é o que diz meu pai.

Como quem esperava uma vida inteira para falar tudo isso, os olhos daquele miúdo garoto brilhavam esfuziantes. Os do homem pareciam confusos. Mas, por um instante cruzaram-se em uma cumplicidade incomum, de sonhos que se emaranhavam e intenções controversas, ligadas naquela fagulha de tempo por um simples nome (ou, como deduzia a ingenuidade da meninice, muito mais do que isso, talvez estivessem ali Ismael e Ismael, os dois únicos em todo o Reino Unido).

Ora, mas essa fugaz e pequena brasa foi subitamente apagada pela freada brusca do veículo. Lá fora, perceberam juntos, havia um inesperado engarrafamento. O congestionamento impedia o avanço dos carros e pouco se sabia sobre o motivo do trânsito.

* * *

Eram 9h57 e o ônibus deveria dobrar a esquina seguinte, na Tavistock Square. Havia um movimento estranho na rua, pessoas correndo, sirenes ensurdecedoras, a polícia controlando o tráfego. Definitivamente fora do previsto, haveria atraso em Londres naquela manhã. O motorista e os demais passageiros desceram para ver o que estava acontecendo e souberam em algum comentário que um ônibus explodira há exatos dez minutos, vitima de uma seqüência de atentados, provavelmente terroristas, que também atingiu pouco antes outras três linhas de trem.

No alvoroço, o garoto parecia não perceber a medida daquela barbárie e entretia-se em algum ambiente mais tranqüilo (ou menos confuso) enquanto procurava a companhia de seu novo amigo. Mas, em meio à multidão, já não via sinais de Ismael.

Alguns metros distante dali, no contra-fluxo de todo movimento, quem via do alto podia notar um estranho guarda-chuva florido seguindo intranqüilo pelas ruas cinzentas. Embaixo dele, caminhava ofegante aquele homem, seu bigode e o relógio pontualmente ajustado, dobrando as vielas e olhando a todo momento para os lados. Como quem desejava esconder-se, seguia rapidamente rumo a algum ponto afastado.

Depois de alguns minutos ele avistou a primeira margem do Tamisa. Sozinho à beira do rio ele parou, tirou seu casaco, levantou o suéter que vestia e com certa dificuldade soltou a corrente de dinamites que carregava presa à barriga. Desfez o artefato, garantindo que não apresentasse riscos e o arremessou no rio, abandonando em águas profundas uma bomba, seu ideal de falsidade, a obstinação da guerra e o ódio cego que cobrira todo seu afeto até aquela manhã.

* * *

Ele sentou-se à beira do rio, observava o movimento suave das águas e o mover vagaroso do tempo como se fosse aquele um momento que ele já não veria. E se tivesse feito o que planejara? Aqueles minutos que vivia furtavam a morte para a qual se preparou e esperou. “Que mundo é esse? Mais uma esquina, mais um ponto e eu não o conheceria”. O menino Ismael frustrou os planos do homem com sua atitude, seu pão e seu Deus. “Que deus é esse?”.

Ele levantou sem bater a poeira da roupa, largou sobre o banco o casaco grosso e carregava na mão esquerda apenas o guarda-chuva com seu nylon colorido. Caminhou por mais três quadras, devagar, meio cambaleante e sentindo-se num certo transe.

Dobrou a esquina e viu diante de si, imponente, um dos templos daquele inimigo ocidental que ainda há pouco atacaria.

A BBC informara, as igrejas cristãs abriram as portas para a oração dos crentes e auxílio à população.

“A igreja de Ismael” ele pensou. Entrou, sentou-se em um dos últimos bancos e observou por uns momentos. Depois tomou coragem, ajoelhou-se, ainda reticente, prostrou-se e da única forma que aprendeu até aquele dia, clamou na língua de seu povo e dirigiu sua oração ao Deus desconhecido. Como um garoto faminto, Ismael chorou e chorou, até que abrigou-se finalmente nos braços do Pai que nunca conhecera.

* * *

Soube-se depois pela TV, rádios e internet que houve ao todo quatro explosões em Londres, que deixaram algumas dezenas de mortes e centenas de feridos. O mundo comovia-se em solidariedade.

Mas, talvez nenhuma pessoa, jornal ou noticiário saibam que naqueles minutos devastadores, numa guerra legitimamente “santa” o Amor venceu uma das batalhas porque se fez presente da forma mais singela. E que naquela manhã, ao menos uma bomba não explodiu na capital da Inglaterra. Bombas, planos e ideais podem falhar, o amor não.

Pensando dessa forma, de fato, podemos lamentar e sim, chorar com aqueles que ainda choram. Mas é preciso também continuar cumprindo o papel, sendo e vivendo o mandamento do amor incondicional de Cristo e… enquanto assim acreditarmos, haverão esperanças e seremos sempre um grande povo.

Ah, claro, já me ia esquecendo: “Deus estava com o menino. Ele cresceu, viveu no deserto e tornou-se flecheiro. Viva no deserto de Parã, e sua mãe conseguiu-lhe uma mulher da terra do Egito” (Gênesis 21:20-21).

* * *

E mesmo nós, até cansamos de ler, que na Bíblia de Ismael, o menino, outros tantos relatos se fazem registrados, dentre os quais, alguns conservados para momentos assim como esse.

“Deixem vir a mim as crianças, não as impeçam; pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas. Digo-lhes a verdade: Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, nunca entrará nele” (Marcos 10:14-15).

“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa vocês receberão? Até os publicanos fazem isso! E se saudarem apenas os seus irmãos, o que estarão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso! Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês” (por Jesus, no evangelho de Mateus

O Evangelho do Desencapetamento e uma dúvida cruel

por Luiz Henrique Matos

Uma dúvida me tomou nas últimas semanas e sem ter com quem partilhar – além dos já cansados ouvidos de minha amada e paciente esposa – “arresolvi” trazê-los para esse espaço.

Pois é que, diante dos atentados que aterrorizam o mundo nos últimos anos, leio que alguns estudiosos alertam para o perigo do preconceito por parte do ocidente contra as comunidades árabes ao redor do planeta e principalmente, uma generalização de sentimentos discriminatórios para com os muçulmanos.

Sabe-se que os aderentes dessas seitas e grupos terroristas são uma parte menor no total de 1,5 bilhões de muçulmanos no mundo todo, mas que de toda forma, essa reação global defensiva atinge e dificulta a vida de outros milhares de inocentes que acabam por carregar a culpa sobre as atrocidades de outros. E nesse cenário, o que se recomenda aos líderes religiosos é que se defendam, expondo seu sentimento de repúdio aos ataques, mobilizando suas comunidades e combatendo a pregação criminosa da “jihad” (guerra santa) que motiva os atentados e tornando claro que esses criminosos não representam o verdadeiro sentimento islâmico.

Só a título de curiosidade (e ironia), Alá, a referência dos muçulmanos para Deus (inclusive os terroristas), é traduzida como “O Misericordioso”.

Outro ponto, aqui mais próximo de nosso nariz: na última semana, vivi uma alegria infantil ao ver meu time ser campeão (pela terceira vez, é importante dizer) do principal campeonato de futebol do nosso continente. Mas também tive o desgosto de saber que alguns torcedores, uns poucos diante dos milhares que vestem a camisa tricolor paulistana, agiram como vândalos e destruíram parte do patrimônio público e privado na capital paulista, saqueando lojas e entrando em confronto com a polícia. Mas, como dizer que aqueles irresponsáveis, não representam a totalidade dos entusiasmados torcedores do São Paulo Futebol Clube que sequer pensariam em “comemorar” um título com tal atitude?

Igualmente, no raciocínio (?) de que muçulmanos são terroristas e de que são-paulinos são vândalos, notamos que essa repetitiva veiculação de fatos na mídia, nos leva a outras tantas conclusões generalistas e preconceituosas, como acreditar que políticos são todos corruptos ou que moradores de favela são criminosos. Na mesma visão comum, achamos que os judeus são avarentos, negros são pobres, policiais são excessivamente violentos e os padres estão entre homossexuais e pedófilos.

Há também, já não ia me esquecendo, um sentimento comum e cada dia mais intenso, de que pastores são corruptos, manipuladores e que os cristãos são desonestos, falsários e coniventes com esse “escândalo” que se tornou a igreja protestante no Brasil.

E justamente no cenário que cabe à minha dúvida e a reflexão de meus botões, me assola e incomoda a questão de como são vistos hoje os cristãos em nosso país. Perguntando a uma meia dúzia de colegas, todos estão de acordo senão com todos, ao menos com um dos adjetivos que descrevi no parágrafo acima.

Não sem certa razão, admito, pois assisti há poucos dias um bispo-deputado declarar (com um sorriso nos lábios, também é importante dizer): “Não, a igreja não gosta de doar nada viu. A igreja gosta mais é de receber (o dinheiro)”.

E outra cena ridícula, me permita, foi a faixa pendurada diante de uma igreja em algum lugar desse país, com as seguintes e exatas palavras: “DESENCAPETAMENTO TOTAL. Se você é vítima de: olho gordo, inveja, doenças incuráveis, vícios, dívidas, miséria, solidão, é infeliz no amor, cisma que foi vítima de trabalhos feito na macumba, bruxaria, feitiçaria e nada dá certo. VENHA RECEBER A PRECE VIOLENTA e seja liberto de toda opressão”.

Me escandalizo ao pensar que toda a transformação de vida pela qual passei desde que Cristo faz parte de mim, todo aprendizado deixando por Jesus aos homens, toda construção e fundamento de nossos irmãos na Igreja Primitiva, toda santidade de caráter pregada e desejada na essência do cristianismo, ou seja, tudo o que realmente traduz a nossa fé, está escondido sob uma casca de imoralidade e perversão, que impede as pessoas de verem o verdadeiro plano de Deus por trás do título “Igreja”, que Ele mesmo chamou por “corpo de Cristo”.

Me entristeço ainda mais, por saber que essa “casca” não foi construída por outros, senão por parte da própria instituição que se denomina “Igreja de Cristo” nesses nossos dias. E atrás da instituição estão homens, como eu e você, mascarados, engravatados e devidamente intitulados “crentes”.

Me decepciono ao descobrir que há tempos minha inocência foi perdida. Lembro dos meus primeiros tempos de conversão, quando cheguei a acreditar que todo o que se dizia “cristão” partilhava e vivia as maravilhas que me surpreenderam nas Escrituras. E pensar que estranhei a expressão “primeiro amor” porque julgava que aquele sentimento aquecedor de êxtase não poderia esfriar jamais.

E volto afinal à pergunta que motivou esse pensamento: devemos nos calar? Ficaremos parados ao ver a fé pura e imaculada de Jesus Cristo sendo transvertida em sujo interesse pecaminoso?

Ouvimos muitos desses homens justificar seus atos, martelando versículos e expressões como “submissão à autoridade” e “obediência à liderança”, usando isso como forma de calar seus fiéis-financiadores (ou seriam clientes?).

Mas eles estão errados! Eles não estão pregando o evangelho de Jesus Cristo! Não estão vivendo o mandamento do amor.

Sei e confesso que o que me permeiam são dúvidas, mas sinto-me impelido a pensar que não podemos permitir que criminosos carreguem uma bandeira cristã e com isso, manchem a imagem inocente de milhares e verdadeiros fiéis.

Chego até a alimentar a dúvida de que, veja só, alguns de nós se calam diante da expansão dessas empresas pela satisfação incoerente de “ver o reino crescer” ou pelo orgulho estúpido de sonhar com “uma nação evangélica”. E pergunto ainda: Que reino? Que evangelho? O que de fato cresce nessa ocasião além do saldo bancário desses bandidos? Eles vestem a máscara do cristianismo para justificar seus atos e consequentemente, uma nação de desinformados, manipulados pelo seu discurso de “prosperidade”. Como li há alguns dias em uma charge: “Templo é dinheiro”.

Volto à minha questão: temos que denunciar ou devemos que nos calar e esperar uma “justiça cair do céu”? Vamos virar a banca dos que comercializam ofertas no templo sagrado do nosso Pai? Vamos ser sal e luz nesta terra? Vamos reclamar, como Paulo, contra os que tentam subverter a verdade cristã do amor e da graça? Ou, vamos deixar que a igreja mais uma vez seja esfriada pela mentira, pelas indulgências, pelo interesse vaidoso do homem, pela opressão diabólica?

Pessoalmente, sei que é utopia, ainda prefiro sonhar com o reino do amor e Evangelho que o Senhor Jesus pregou há dois mil anos. Esse sim, arrebanhava multidões, curava os doentes, crescia em paz e preenchia os corações dos homens com aquilo que mais lhe carecem: Deus.

O que acho – mas perdoe-me, posso estar equivocado e sendo levado pelo impulso passional de um filho comovido – é que se continuarmos nesse silêncio, anularemos o futuro do cristianismo e não só perderemos a verdadeira dignidade da Igreja, como também vestiremos a máscara e nos tornaremos coniventes com o… Evangelho do Desencapetamento e sua “prece violenta”.

Em tempo, ainda hoje, dia 18 de julho de 2005, na Inglaterra, 500 líderes religiosos muçulmanos reuniram-se para redigir um “fatwa” (ditame religioso sobre um assunto específico) condenando o suicídio, além de todo ato de violência e terrorismo. Ao que parece, mesmo eles estão mais avançados do que nós.

Ensaio sobre intercessão

por Luiz Henrique Matos

- Nunca pensei em criar minha filha assim, mas se Deus quiser, eu vou vencer.

Depois de alguns minutos, foi essa a frase que me derreteu por dentro e fez com que eu perdesse a concentração na leitura e prestasse atenção àquelas palavras tímidas e rápidas do desconhecido sentado à minha frente. Seu olhar parecia perdido em todo o movimento das pessoas e no pequeno espaço do vagão de trem, mas parecia encontrar um refúgio quando olhava para a menina de 7 ou 8 anos brincando do seu lado, alheia a tudo o que lhe acontecia e à sua preocupação desabafada. E era nessas horas que ele soltava sem querer um sorriso feliz, que parecia meio engasgado no meio de tanta preocupação.

Dos poucos e confusos instantes em que estive com Evaldo (seu nome foi a última coisa que descobri), saí pensando na lição de vida que tinha acabado de receber e no que eu poderia escrever sobre sua história. Mas aí percebi que não valia a pena lição ou texto algum, eu precisava mesmo era cumprir a promessa envergonhada que fiz àquele homem assim que ouvi as palavras que você leu no travessão do primeiro parágrafo:

- Vou orar por vocês – entenda, é uma tremenda ousadia falar um negócio desses para um estranho.

“Da mesma forma o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações conhece a intenção do Espírito, porque o Espírito intercede pelos santos, de acordo com a vontade de Deus” (Romanos 8:26-27).

Mas existe algo um pouco inquietante nesse compromisso: será que isso realmente poderá mudar alguma coisa? O fato de eu pedir algo à Deus em favor daquele homem e sua filha poderá mudar sua preocupação e fazer com que consiga educa-la da forma “vitoriosa” como sonha? Que valor afinal pode ter a dedicação, por alguns minutos, da minha intercessão?

Honestamente, eu não sei. E imagino que ninguém realmente compreenda o quanto isso representa na esfera espiritual em seus efeitos. Mas, podemos ver os bons frutos colhidos quando oramos por um propósito, conseguimos experimentar o melhor da vida através de uma prática regular de oração. E muito, acredito, porque vemos o próprio Deus agindo dessa forma, preocupando-se com as pessoas e agindo em favor delas muito mais do que com sua satisfação pessoal.

Além disso, há um outro fato. Quando intercedemos nos tornamos também um pouco mais parecidos com o Senhor, refletindo uma porção daquilo que Ele fez por nós na cruz, no pedido pela vinda do Espírito Santo e pelo que ainda faz na eternidade quando sabemos que: “Foi Cristo Jesus que morreu; e mais, que ressuscitou e está à direita de Deus, e também intercede por nós” (Romanos 8:34).

E o que é afinal o cristianismo senão o amor, sincero e simples, dedicado a Deus e ao próximo?

Me pergunto então como vou resistir à necessidade de um irmão, privilegiando meu egoísmo, quando depois da minha afirmação envergonhada, vejo Evaldo com seu sorriso preso, o carinho pela filha, seus olhos em minha direção e ouço sua resposta, ainda tímida e rápida:

- Amém… por favor, ore por nós sim.