Sobre paixões e ministérios

por Luiz Henrique Matos (reeditado e com novo final)

“Os teus olhos viram a minha substância ainda informe, e no teu livro foram escritos os dias, sim, todos os dias que foram ordenados para mim, quando ainda não havia nem um deles” (Salmo 139:6).

Davi era bom guerreiro, músico e poeta. Já Daniel era um bom administrador e governante, assim como José. Paulo pregava como poucos e também costurava tendas de couro. Pedro, João e Tiago eram bons empresários, pescadores e pregadores também. Barnabé era bom de conversa. Salomão era bom com estudos e negociações diplomáticas. Moisés tornou-se um grande líder no deserto, enquanto Josué o fora já na terra prometida.

O que seria da história humana sem esses homens? Que recheio teriam as Escrituras sem seus relatos? Pensando de forma minimalista e secular, o que seria então de Pelé se não começasse a bater bola nas várzeas das ruas de Bauru? Que rumo levaria C. S. Lewis se renegasse sua habilidade com os textos? Bach, se não se aventurasse em acordes e arranjos ou Michelangelo se nunca usasse seus traços para desenhar? O que seria da ciência sem Einstein ou da poesia sem Fernando Pessoa?

Acredito em gênios e grandes descobertas, mas acredito muito mais em talentos sendo usados com seus devidos propósitos. E assim, acredito também que cada homem e mulher vêm a este mundo com uma habilidade específica, que o torna uma pessoa mais feliz e completa. Que, vai além de um DNA e o faz ser único e marcar sua geração.

Afinal, não fomos criados à toa, certo? Tampouco somos frutos do acaso. Sabemos que Deus nos fez à sua imagem e semelhança e a cada um formou com características diferentes em sua personalidade, talentos e habilidades. E se fomos criados à semelhança de Deus, não podemos ser pessoas “incompletas”, sem rumo, vivendo apenas pelo sustento do fôlego de oxigênio.

O fato é que temos uma vocação e precisamos exerce-la, como parte dos sonhos divinos para nós. E todos, sem exceção, somos bons em alguma área. Uns cantam, outros cozinham, falam em público, ajudam pessoas, desenham, tocam instrumentos musicais, cortam e penteiam cabelos, aconselham pessoas, vendem, dirigem, medicam, elaboram fórmulas, jogam futebol, fazem cálculos… são inúmeras as áreas existentes, parte delas tornam-se profissões, atividades pessoais e algumas tantas ainda hoje, são transmitidas através das gerações.

E qual é o seu talento?

Se você sabe em que é realmente bom e sente prazer nessa atividade, eis aí o seu “ministério”. Você é bom dirigindo automóveis? Então seja o melhor motorista, dedique-se como piloto, faça o melhor e seja reconhecido por isso. Mas lembre-se em todos os momentos de que, esse melhor você faz como gesto de dedicação e adoração a Deus. É muito gratificante para o Pai poder ver seu filho exercendo a “carreira” para a qual ele o preparou.

Mas caso você ainda não tenha descoberto sua vocação, sugiro que ore a respeito e peça a Deus que o oriente. E não fique parado, comece a praticar, siga seu coração. Existem ao menos uma dúzia de coisas que você gosta de fazer. Certamente você tem sonhos e eles são sinais de sua paixão. Verifique se isso está enquadrado com os princípios cristãos nas Escrituras e caminhe confiante. Tente ver onde isso pode ser usado no Reino e mais ainda, como esse dom pode ser usado para mostrar ao seu próximo a grande e real diferença que é ter Deus habitando em seu interior, capacitando e dirigindo sua vida.

Cumprir com excelência a vontade de Deus para nós também é adoração e louvor à ele. E praticar os nossos dons, gera mais impacto neste mundo do que carregar uma máscara de religiosidade. Máscaras são falsas e isso afasta as pessoas, mas quando os outros podem ver em nós algo realmente novo e bom, sabem que estamos fazendo mais do que o normalmente possível. E essa “novidade”, sabemos, é o reflexo do caráter de Deus em nossas vidas.

E são nessas horas que percebemos que finalmente estamos fazendo valer tudo aquilo que cantamos e oramos em nossas comunidades.

Um outro conselho, não meu, mas de Paulo, o apóstolo: “E tudo quanto fizerdes, fazei-o de coração, como ao Senhor, e não aos homens, sabendo que do Senhor recebereis como recompensa a herança; servi a Cristo, o Senhor” (Colossenses 3:23-24).

Mas, você se sente velho demais? Abraão tinha 75 quando Deus lhe prometeu um filho e sua ascendência sobre todo o povo de Israel. João, o discípulo tinha cerca de 80 quando escreveu o livro de Apocalipse.

Ou, diria você que ainda é muito novo? Pois Mozart compôs seu primeiro minueto aos 6 anos de idade, quando já era considerado um prodígio pelas platéias europeias. E Jeremias, o profeta, sentia-se novo e despreparado para seu chamado, que viria a marcar todo a nação de Judá.

E foi justamente Jeremias que deixou registrado o que ouviu de Deus no momento em que duvidou de sua vocação. Permita-me compartilhar isto: “Antes que eu te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre te santifiquei; às nações te dei por profeta” (Jeremias 1:5). “Não digas: Eu sou um menino; porque a todos a quem eu te enviar, irás; e tudo quanto te mandar dirás. Não temas diante deles; pois eu sou contigo para te livrar, diz o Senhor. Então estendeu o Senhor a mão, e tocou-me na boca; e disse-me o Senhor: Eis que ponho as minhas palavras na tua boca” (Jeremias 1:7-9).

“O que me preocupa não é o grito dos violentos. É o silêncio dos bons” (Martin Luther King).

Aos pés da cruz

por Luiz Henrique Matos

Aos pés de tua cruz eu me encontro. Vejo três delas e na do meio te observo, és Jesus Cristo, agonizando diante de meus olhos. Aí está teu corpo ferido e nu, a coroa de espinhos, a espera pré-morte e o peso de ver uma realidade que eu só ouvira em histórias.

Mal sinto a presença da multidão ao meu redor, homens e mulheres que há pouco bradavam por sua morte e agora silenciam. Centenas de olhos estáticos te contemplam, calados e temerosos pelo que há de vir. O que há de vir? Mais ao lado, tua mãe chora acompanhada de Maria Madalena e João, o discípulo que tanto amava.

Vejo tua face deformada, ouço seus murmúrios e suas preces derradeiras. Vejo o vinagre subir em uma esponja para matar tua sede. Na altura de minha vista estão os teus pés, sujos pela terra seca grudada no sangue que escorre de teu corpo. Penso por um instante que gostaria de poder lava-los.

O Senhor está cansado, as últimas horas foram difíceis.

Em teu tronco posso ver a marca dos chicotes que o açoitaram. Nos teus ombros vejo a carne viva e desgastada pela madeira da cruz que carregou. Quase vejo o dedo sarcástico de Satanás apontado em sua direção, rindo ao lado de sua corja de demônios. Mas confesso que não posso ver ou imaginar o peso maior desse sacrifício: ter em seu coração a culpa pelo meus pecados, os pecados de cada homem nessa multidão e também os de toda humanidade.

Como deve doer!

Mas eu não posso saber, eu não os senti. Nenhuma dor, nenhum castigo, nenhum peso pelo meu pecado, sequer uma pena de condenação. Jesus, só posso pensar, o quanto isso deve lhe consumir agora. Estão sobre ti os meus erros e isso já me parece imperdoável. Quanto mais não são todas, todas as culpas sobre si.

Como pode, o Senhor aí na cruz em meu lugar?

E além de tanto, além de tudo, por que ainda isso? Meu Mestre, incompreensível é olhar para ti e contemplar teus olhos entreabertos em minha direção. E te pergunto Jesus: por que me olha assim? Depois de tudo que fiz, por que me olha com amor!?

Eu jamais saberei, o quão pesada foi esta cruz que carregou. Minha cruz. E o que posso fazer agora?

Me resta, percebo, continuar olhando, gravando este momento para a eternidade e sim, eu sei que espera minha voz de arrependimento. Me deposito aos pés dessa cruz, me consagro e entrego a ti minha confissão: Jesus Cristo, eu te amo. Tu és meu Deus.

E morro contigo Jesus, para ao teu lado poder ressuscitar. E já não tenho vida Senhor, pois ela agora é tua. Aqui estou, toma-me para tua glória e faz-me um homem novo, à tua semelhança e essência.