Cartas do Theo – Faça seu pedido

por Luiz Henrique Matos e Emmanuelle Burci

Oi vô, tudo bem aí?

A mãe mandou eu enviar esse e-mail para mostrar que eu já estou escrevendo direitinho. Não é muito verdade porque depois que eu termino ela vem e corrige tudo, mas aí ela falou que era bonitinho e você vai gostar. Eu falei que não sabia o que escrever e ela falou para pôr qualquer coisa aí porque você ia achar uma graça de qualquer jeito. Eu não consegui pensar em nada e comecei a chorar, daí ela falou que tudo bem e pediu para contar como foi a viagem no feriado com a tia e o tio.

O feriado foi muito legal, viajamos para a cidade da tia que é longe pra caramba e fez um sol de rachar. Lá é diferente aqui da nossa cidade, as pessoas andam mais devagar e não ficam correndo e coçando a cabeça de nervoso que nem o pai. Não tem muito prédio, nem muito ônibus e nem fumaça. Tudo é pertinho, dá para ir de carro sem dormir no caminho e a gente pode brincar na rua sem ter um monte de adultos por perto.

A gente saiu e brincou e jogou bola e foi no sítio e tomou sorvete e tomou sorvete e tomou sorvete (é vô, três vezes) e brincamos de escolinha, onde eu aprendi para o que servem as vírgulas. Eu até queria ir nadar no clube com os primos da tia mas não deu, a tia falou que eu não parava de espirrar por causa de tanto sorvete e que se nadasse na água gelada ia ficar espirrando mais ainda e a mãe ia dar bronca e eu não ia poder nadar por um tempão.

Mas em compensação a gente tinha que ir na igreja toda noite e ficava lá cantando. Depois um homem de gravata abria um livro bem grosso (que eu achei que ele ia ler inteiro e eu ia dormir) e contava uma história para todo mundo e eles choravam e depois se abraçavam e então a gente ia embora bem tarde para comer lanche e tomar refrigerante na praça.

Por falar em comer, um dia eu tava com muita fome e o tio também. Já era hora do almoço e ele ficava enchendo a paciência da tia falando: “Vaaaai nêga, eu tô com fome!”. Daí chamaram as tias da tia, os tios da tia, os primos da tia e mais um monte de gente e falaram que a gente ia em um restaurante bem legal.

Combinaram que a gente ia em uma cantina, mas não era igual a que tem na escola, porque lá não vende salgadinho e chiclete, só massa. Mas a massa também não é aquela de brincar de fazer bonecos, é uma diferente que é de comer com garfo e faca e tem um molho daqueles vermelhos que sujam toda a camiseta.

Olha vô, eu sei que o senhor não parece adulto porque brinca com a gente que nem criança, mas vou dizer que adulto é mesmo tudo estranho (a mãe vai ler isso e vai me dar uma bronca depois). Mas parece que quanto mais gente tem, mais demora para escolher o que fazer, o que comer, onde ir… e eu e o tio só ficando com mais fome. Se fosse lá na escola a gente via quem foi que falou primeiro e aí já tava decidido.

Então, aí a gente entrou na cantina e aí eu sentei naqueles bancos super legais que são bem altos e cabem no canto da mesa. Eu fiquei do lado do tio. Puxa, como ele reclamava! O tio é bem paciente e bonzinho, mas a tia fala que tem duas coisas que deixam ele chato pra caramba: uma é ficar com fome e a outra, bem, a outra eu conto outro dia vô.

- O que vocês vão querer para beber? – perguntou uma garçonete bem legal, que me deu um pirulito na saída e ficava apertando minha bochecha.

Nessa hora foi um fuzuê só, um queria suco, outro queria refrigerante, outro pediu água e até todo mundo decidir demorou mó tempão. Eu queria um refrigerante só pra mim mas o tio falou que não podia porque ia ficar sem gás e sem gelo no copo, então eu ia beber com ele.

Rapidinho a bebida chegou, cada um pegou o seu (alguém pediu mais gelo) e a moça fez uma pergunta que parecia mais difícil ainda:

- Já escolheram a comida?

Silêncio total. Mas não por muito tempo, só até todo mundo pegar os cardápios e começar a vasculhar e falar ao mesmo tempo. Aí a moça foi embora e todo mundo ficou escolhendo, menos eu que ia ter que comer junto com o tio porque eu não agüento um prato inteiro (é grande de verdade). Depois de um tempo eles decidiram e voltaram a conversar alto enquanto o tio falava que queria comer. Ele fica chato mesmo.

Passou um tempão, eu não sei quanto porque ainda não consigo ver no relógio, mas demorou muito e a comida não chegava nunca.

Aí chegou o irmão da tia com a namorada dele e tiveram que sentar em outra mesa, de tão cheia que tava a nossa. Escolheram a bebida e a comida que queriam e já pediram tudo para a moça (uma outra, mas que também gostava de apertar minha bochecha. Acho que faz parte do serviço deles).

Só que aí, a comida dos dois chegou bem rápido e a nossa ainda não tinha vindo. Aí o tio, que já estava chato, quer dizer, super chato mesmo, começou a fazer bico e queria reclamar com um tal de Responsável que não tinha aparecido ainda (mas se viesse eu acho que ia apertar minha bochecha também). A mesa toda ficou naquele fuzuê de novo e aí chegou a moça que atendeu a gente primeiro.

- Moça, nós já chegamos há mais de uma hora e nossa comida não chega. Eles dois chegaram depois e já receberam os pratos – foi o que disse uma tia da tia, super simpática, porque se o tio falasse ele seria mal educado (enquanto isso eu comia as batatinhas dos outros dois, porque também estava com muita fome, mas eu sou legal e não reclamo tanto né?)

- Me dá só um segundo que eu vou verificar.

- Talquêi! – falaram todos ao mesmo tempo, menos o tio que estava azedo e eu com a boca cheia.

Depois de uns segundos (não foi um só) voltou uma outra mulher, sem uniforme e com cara de chefe. Era a Responsável, mas nem veio apertar minha bochecha porque se apertasse eu ia derramar toda a batatinha. Aí ela disse uma coisa que deixou todo mundo assustado:

- Olha, eu verifiquei lá atrás e não foi registrado nenhum pedido.

- Como não? Escolhemos duas lasanhas grandes, uma média, três filés à parmeggiana, um nhoque e blá blá blá!

- Mas vocês pediram?

Fizeram o terceiro sururu daquela tarde (é o mesmo que fuzuê vô, mas eu quis falar diferente) e perceberam, sei lá como, que tinham demorado tanto para decidir os pratos que aí a moça foi embora e acabou que ninguém pediu nada. Ficaram só na vontade. Aí fizeram uma baita cara de sem graça, igual a minha quando a mãe me vê fazendo coisa errada, e junto com isso uma outra cara, de muita fome. E o tio tava quase desmaiando em cima de mim.

Que gente estranha né vô? Queriam comida, precisavam comer, mas ficavam reclamando e reclamando ao invés de pedir. Parecia uma história que o homem de gravata contou lá na igreja um dia. Ele falou que um amigo de Jesus deu uma bronca em uns outros amigos dele.

Eu soube que Jesus fazia um monte de coisas legais e boas (muito massa mesmo vô, vou falar dele lá na escola pro pessoal), só que esse amigo dele estava achando estranho porque todos de uma certa igreja lá, sabiam que Jesus podia ajudar em tudo o que eles precisassem, mas o povo só reclamava e contava pra todo mundo, mas para Jesus mesmo, que ia resolver, ninguém pedia nada e quando pedia, fazia tudo errado, pedindo coisa que não prestava.

O cara da gravata leu no livro bem grande uma carta (não vô, ainda não tinha e-mail) que o amigo de Jesus que chamava Tiago escreveu: “Vocês cobiçam e não alcançam; matam e invejam, mas não conseguem obter o que desejam. Vocês vivem a lutar e a fazer guerras. Não têm, porque não pedem. Quando pedem, não recebem, pois pedem por motivos errados, para gastar em seus prazeres”. Eu demorei para entender essas palavras de gente culta, mas também né, o cara era amigo de Deus!

O pastor (nome do cara da gravata… é, pastor, igual a raça do Micci, meu cachorro), falava de oração e disse que isso é a nossa conversa com Jesus, quando contamos tudo para nosso melhor amigo, mais amigo até do que o Fausto lá do 1º B. No fim da reunião na igreja, o pastor, que também apertou minha bochecha, me disse que Jesus até tinha uns amigos da minha idade (massa!).

Eu aprendi que eu tenho que pedir as coisas pra Ele (com êzão assim). Acho que vou pedir para que o tio não fique mais tão bicudo quando tem fome e quando passar por aquela outra coisa que deixa ele irritado, que é… é… xi, agora esqueci.

Vô, agora eu vou parar de escrever e mandar logo o e-mail porque a mãe tá falando que eu aprendi a digitar no teclado e fico enrolando e não paro mais de falar, ops, teclar e quase não durmo (dói menos a mão, acho que vou levar um desse aqui para a escola. Me dá um de aniversário?).

Fique com Jesus e um beijo na careca.

Do seu neto, Theo M.

PS. Ah, anotei uma coisa que o homem da gravata falou. Foi um outro amigo de Jesus que escreveu para os camaradas dele. Achei bem legal para usar quando for fazer oração ou quando for no restaurante de novo e tiver que pedir comida. Olha aí:

“Mas se esperamos o que ainda não vemos, aguardamo-lo pacientemente. Da mesma forma o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações conhece a intenção do Espírito, porque o Espírito intercede pelos santos, de acordo com a vontade de Deus” (Romanos 8:25-27). He he he (isso é risada vô) esse Deus é legal!

(*Obrigado à Manú, minha esposa, que me lembrou desse “causo”)

Firme certeza – a fé que liberta

por Luiz Henrique Matos

Olhei para aquele guindaste montado na areia da praia. Sozinho, era noite, por volta das dez. Me dirigi ao balcão de informações e perguntei:

- Quanto é?

- Quinze real – informou o rapaz

Pensei por algum tempo, não muito, apenas os segundos suficientes para enfiar a mão no bolso da bermuda e pagar minha inscrição. Depois andei até o final da fila, que ficava toda sentada olhando para o alto, me ajeitei na cadeira, respirei fundo e pensei eufórico: Caramba, eu vou saltar de bungee jump!

Depois de uma hora e tantos, subíamos eu e minha coragem pela plataforma do guindaste. Momentos antes eu vira um bêbado saltar todo torto pendurado naquele elástico. Agora era minha vez. A medida que o elevador subia, na mesma proporção iam ao máximo a minha adrenalina e o frio na barriga. Já no alto, dois homens encaixam um equipamento na minha cintura, eu olho para o céu, amarram meus pés, eu vejo o balneário inteiro, me suspendem no ar, eu clamo a Deus, me soltam, eu berro:

- Jeroonimoooooo!

Caio em queda livre por alguns segundos e pipoco no elástico por outros tantos, tudo gira, o frio na barriga já congela o corpo inteiro e inacreditavelmente um sorriso me toma a face de orelha a orelha, sou um bobo. Mas eu consegui. Consegui e estava vivo. Abri os braços e me entreguei, sentindo o vento me tocar e alguma reação da física me balançar naquele pêndulo. Sozinho. Ninguém para me julgar, ninguém também para me elogiar. Nenhum amigo em volta para ver meu feito, ninguém para eu poder mostrar minha coragem, masculinidade viril, minha fé… Calcei meu chinelo e fui para casa dormir.

Nesse tempo eu pensava que “fé” era só uma expressão monossilábica. Tinha meus 16 anos e achava que Jesus era um cabeludo loiro que parecia bastante com aqueles surfistas que eu via nas revistas. E igreja era onde eu ia com meu pai quando pequeno só para poder passar na padaria após a missa e comprar doces.

Anos depois, precisamente hoje, eu gostaria de saber onde foi parar essa minha fé. Não a fé espiritual, da certeza no Deus vivo e da salvação em Cristo. Mas a “fé” crua e corajosa em agir sem pensar nas conseqüências do gesto, sabendo simplesmente que a vida estava do outro lado da corda, ou melhor, lá embaixo, no fim dela, que me sacudia na ponta do elástico. A certeza infantil em mergulhar na parte funda da piscina e confiar que meu pai estaria ali para me resgatar com seu braço forte. A adolescência inconseqüente ao descer sobre meu skate pela ladeira mais alta do bairro sem imaginar o que me aguardava lá no fim: um asfalto cortante como lixa que me consumia os cotovelos e o estoque de ataduras ou a glória da vitória sobre aquela tábua com quatro rodas.

Eu queria saber em que momento ela se foi. Não que eu a tenha apagado de minhas intenções, ainda faço planos – firmemente rejeitados pela minha esposa – de pular de pára-quedas, descer o rio sentando em um bote, mergulhar em águas cristalinas no Pantanal, velejar em alto mar e de estar pendurado em uma corda na boca da caverna.

Mas percebo triste que a fé que eu tinha nesse nada não se repete na minha certeza sobre as promessas de Deus. E me pergunto: Porquê? Porquê sou tão incrédulo? Porquê simplesmente não confio e me lanço na profundidade desse espaço, no porto seguro de meu Criador? Porquê, afinal de contas, teimo em achar que os meus braços são mais fortes que o de Deus e que Ele, soberano, pode não ser tão pontual quanto eu quero?

O profeta Jeremias falou: “Assim diz o Senhor: Maldito o varão que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor!” (Jeremias 17:5). Quem sou eu para dizer o contrário? Quem sou eu para não fazer disso a minha oração?

Quero poder confiar, não nas alturas, nas grandezas ou na precisão de um elástico radical, mas voltar meus olhos para um pequeno ponto, um minúsculo grão, uma semente de mostarda (Mateus 17:20) e através dele depositar minha esperança em Jesus. A esperança das coisas que não se podem ver, mas através das quais todo o visível foi criado (Hebreus 11:1-3).

O pequeno grão que é plantado em meu coração e cresce, e cresce, e cresce, me levando a voar tão alto como águia. E a medida que essa certeza me eleva em fé, na mesma proporção vai ao máximo a minha alegria e o frio na barriga continua. Lá em cima, o Filho do homem me guarda em Suas mãos, eu olho para o céu, firma meus pés na Rocha, eu vejo meu futuro inteiro, me suspende no sopro da vida, eu louvo a Deus, me solta para a eternidade, eu confesso livre:

- Eu creio Senhor, eu creio! Glória a Deus nas alturas.

“Mas os que esperam no Senhor renovarão as suas forças; subirão com asas como águias; correrão, e não se cansarão; andarão, e não se fatigarão” (Isaías 40:31).

Quantos pães?

por Luiz Henrique Matos

- Trinta moedas de prata!

- Trinta? É muito pouco, quero mais.

- Bah! Não me faça perder tempo, Iscariotes, são trinta moedas que te ofereço, nada mais! Não entendo essa sua incerteza, se o tal Jesus é mesmo o Cristo que você segue há tempos, capaz de “salvar o mundo e nos libertar do mal” – esnobou com ironia – porque afinal o receio em aceitar minha oferta? Só vai lucrar com isso.

- Bem, na verdade eu seguia um salvador que viria nos libertar dos romanos e fazer nosso povo livre, mas ele só fala em perdão, amor, salvação, tudo uma grande bobagem. Certos estão os rebeldes, precisamos lutar! Só que ao mesmo tempo, ele fez tantos milagres…

- Milagres! Milagres! Parece doença, esse povo só sabe falar disso agora. Quanta blasfêmia! Imagine, um carpinteiro galileu se dizer o Messias!

- Todo o povo crê. Os outros onze também. Eu só cuido das finanças…

- Não vou perder meu tempo com você, traidor imundo! Quer ou não a prata?

- Tudo bem, eu aceito – disse após olhar para baixo sondando os próprios pés, coçar a cabeça acima da nuca, pensar por alguns instantes e se entregar constrangido.

- Hahahahah – gargalhou sarcasticamente sacerdote – idiota, fez um bom negócio. Agora suma daqui. Logo meus homens o acompanharão para caçar o criminoso.

Trinta moedas de prata. Hoje isso equivaleria a três meses de salário de um trabalhador médio, algo na faixa dos dois mil reais. O que se compra, ou melhor, o que se vende por esse valor? Lembro-me de um conhecido, ex-padeiro, que costumava calcular o dinheiro que ganhava no trabalho baseando-se na quantidade de pãezinhos que era possível comprar ou vender com o tal valor. Tomando sua matemática como parâmetro, as trinta moedas de prata seriam suficientes para se vender oito mil pães.

- Ei! Sabe mesmo onde está nos levando? – perguntou intrigado o guarda ao discípulo que caminhava ofegante.

- Sim, eu sei. Estivemos juntos hoje. É por aqui, no alto daquele monte. Ele foi até lá para orar.

- A essa hora da noite… é bom ficarmos atentos. Esse traidor pode estar nos levando para uma emboscada.

- Já o vejo, ali está. Junto com mais três – disse ignorando a opinião do soldado.

- Vamos nos aproximar. Aponta-nos quem é o Jesus e nós o prenderemos.

Ele se aproximou. Ao que o Mestre observava, junto de Pedro, João e Tiago intrigados. Caminhou na direção de Cristo e beijou-lhe a face.

- Salve, Mestre!

- Judas, com um beijo você está traindo o Filho do homem? – Judas nada disse e afastou-se cabisbaixo.

- Prendam-no! – gritou o chefe dos guardas enquanto avançava como um cão na direção do Deus vivo.

Hoje, com as trinta moedas, meu amigo venderia milhares de pães em seu comércio. Judas, com a mesma quantia vendeu um só, o Pão da Vida. Mas no dia seguinte, ao contrário dos últimos três anos, não houve Pão na manhã do Iscariotes. Houve sim um vazio amargo, houve fome e ausência da única coisa que de alguma forma o alimentava. Houve remorso. Remorso que o fez notar a estupidez de seu gesto e correr, ainda ofegante, ao templo para falar com os líderes que o pagaram.

- O que quer? – perguntou o principal ao vê-lo se aproximando.

- Parem essa barbárie, estão o machucando.

- Do que está falando traidor?

- Pequei, pois traí sangue inocente.

Suas palavras, ditas àqueles homens determinados, soaram como ironia.

- Que nos importa? – disseram – a responsabilidade é sua.

- Mas não…

- Saia!

- Não podem mata-lo!

- Saia daqui, já lhe disse!

Então, Judas pegou o dinheiro que recebeu e lançou contra o templo e os que estavam ali. E fugiu. Serpenteou angustiado pelas vielas e ruas estreitas de Jerusalém, sentia-se preso aos sentimentos que, como fogo, ardiam em seu peito e atordoado pelas acusações que, como estaca, os demônios fincavam em sua mente. Em sua batalha pessoal podia ouvir a voz de seu Mestre ecoando nas pregações, ao longo daqueles três anos juntos.

- Arrependam-se, pois o reino dos céus está próximo – lembrava as palavras do profeta João Batista que pouco antes sinalizava a vinda do Messias.

- Arrependam-se, pois o reino dos céus está próximo – era então o próprio Messias iniciando Seu ministério.

- Segue-me – ouviu pessoalmente o seu chamado.

- Tenha bom ânimo, filho; os seus pecados estão perdoados – disse Cristo a um paralítico antes de cura-lo e a tantos outros quanto vinham a Ele.

- Eu não vim chamar justos, mas pecadores ao arrependimento.

- Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso.

- Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim.

- Nem eu tão pouco te condeno. Agora vá e abandone a sua vida de pecado.

E assim Judas conhecia cada mensagem, ouviu de perto, seguiu ao lado daquEle que traiu e que, de forma irônica, naquele instante era o único capaz de livra-lo do mal que o assolava. A lembrança recente vinha-lhe à memória.

- Digo-lhes que certamente um de vocês me trairá.

- Senhor, sou eu? – ele perguntou, já pensando em seu gesto.

- Tu o disses – e dessa hora em diante viu sua vida pacata transformando.

- Agora é tarde, ele já está sendo julgado – dizia Judas para si mesmo enquanto corria – porque não compreendi tudo isso antes? Me lembro dessas palavras, me lembro de sua mensagem. Eu sei, sabia desde a ceia, seria eu o traidor. Mas e agora, onde está a resposta que me foge diante desse tormento insuportável? Onde está minha luz?

Era tarde para corrigir seu gesto inconseqüente, mas não para obedecer ao mandamento. Viu Jesus proclamar arrependimento e conceder o perdão por tantas vezes ao tipo mais imundo de gente, que se entregavam a Ele todos os dias, mas esqueceu-se de que ele mesmo precisava se entregar. Então lembrou, sentia-se sujo. E degladiava com os demônios que, sedentos, lançavam-se contra sua vida.

Esfregava a face procurando enxergar o que deveria estar tão nítido. Estava cego, não viu a clareira que brilhou em sua escuridão. A vista lhe ficava turva, a Verdade cada vez mais distante. O medo tomou-lhe de ímpeto, a angústia, a dor, o frio. Seu mundo agora era de trevas, seu destino desviou-se do propósito, Judas tinha uma chance, mas só encontrou uma mentira. “E, saindo, foi e enforcou-se”.

* * *

Judas conheceu a pessoa de Jesus, mas não vislumbrou o Deus que havia n’Ele. Esteve com o Pão que vendeu, mas não provou de Seu sustento. Viu Jesus multiplicar os cinco pãezinhos do garoto em tantos quantos suas moedas de prata não poderiam comprar. Vendeu-se por tão pouco. Ainda na última noite, antes da traição, partilhou com Cristo e os outros onze um outro pão, na ceia, símbolo eterno de Seu corpo que seria dado em sacrifício dali a pouco.

Ele conhecia bem suas opções. As duas únicas dadas a todo homem que peca: a vida ou a morte. Podia arrepender-se, pedir perdão ao seu Senhor e viver a eternidade livre de seu erro. Mas também podia achar seu erro grande demais, pensar que para ele não haveria salvação, entregar-se à mentira diabólica e ser consumido pela morte.

Judas Iscariotes trilhou pelo segundo caminho. Escolheu a morte e não aprendeu que em Cristo o arrependimento por si só não é suficiente, é necessária a confissão.

E como foi dado a Judas em conseqüência do pecado, diante dos filhos de Deus também estão dois caminhos, apenas dois, que o Senhor de toda forma tentou ensinar-lhe antes que fosse tarde.

Para Judas foi tarde demais, mas para os outros, bem, aos outros resta a opção.

“Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram” (Marcos 7:13-14).

O hospital dos sãos

por Luiz Henrique Matos

“Somos pela religião contra as religiões” (Victor Hugo).

Conto-lhes, por uma vez essa história, que aconteceu em certo ano aqui na capital, onde fora fundado o Hospital dos Sãos. A monumental obra tivera seu início anunciado e em apenas seis meses erguera-se como a construção imponente, que deixava admirado todo o povo do local.

Para a cidade vieram, segundo fontes, os médicos mais bem estabelecidos da nação, diplomados com honras e proprietários de tamanha autoridade em suas teorias clínicas.

Foi então fundada a clinica, famosa por seu corpo médico excelente e deveras por seu propósito singular e inovador: o Hospital dos Sãos empenhava-se em atender apenas os cidadãos de saúde indiscutivelmente impecável.

Ali, eram atendidos aqueles que não careciam de tratamento e gozavam de saúde intacta. Nada de enfermos, coxos, deficientes ou indivíduos carentes, a clinica existia para hospedar os que não possuíam registros em outros estabelecimentos concorrentes e para louvar os Sãos.

Os médicos, igualmente perfeitos, foram treinados e capacitados a doutrinar seus clientes sob a penosa Lei, que condenaria os doentes desobedientes e engrandeceria de forma ímpar os saudáveis “eleitos”. Dizem até, pela surdina, alguns que lá estiveram, que os doutores recitavam a “glória” a seus pacientes em doses clinicas na medida de seu vigor.

Julgando-se a circunstância, um contumaz cumpridor de hábitos saudáveis, mediante a Lei, poderia chegar ao ponto de ser gratificado com um diagnóstico instantâneo e – segundo bula – com a posologia devida. A título de exemplo, seguem aqui algumas: cinco aplicações de Tapi-Nhas NasCostas a serem dadas em uma única vez, um frasco ao dia de Vai Dad, três cartelas de Alti-wez para os mais confiantes e um tubo de creme facial de nome Péh Roba, espalhado pelo rosto antes e após circunstâncias de pressão altíssima.

Os sãos eram celebrados, surgiam como bonecas plastificadas nas colunas sociais do jornal local, patrocinado pelo oculto e discreto proprietário do hospital, que na boca do povo era conhecido vulgar e popularmente pelo trocadilho de “o homem que compra a são-tidade”. Estavam, pois, brincando de deuses e celebrando a si próprios.

Aconteceu que naquela cidade, ainda pouco populosa apesar de tratar-se da capital, todos os cidadãos achavam-se sãos e imunes de toda e qualquer deficiência, logo, dignos do prontuário máximo do aclamado estabelecimento.

Ao que para surpresa de todos, dia a dia os médicos passaram a rejeitar pacientes sob o grave diagnóstico de que sofriam eles, vejam só, de doenças mortais!

E de fato, sabe-se hoje, sofriam. E sofriam delas também os próprios médicos que… bem, nisso falarei mais adiante.

O alvoroço foi tamanho por conta dos pareceres que os “sábios” doutores isolaram-se em suas Leis e consultórios e renegaram os cidadãos, condenando-os ao vazio fatal.

Não fosse isso, o pior. Ouriçado com a boa notícia da fundação do Hospital dos Sãos, meses antes o prefeito decretou que fossem fechadas todas as clinicas que atendiam e recebiam enfermos. Afinal, deveriam prevalecer na cidade apenas os eleitos, segundo sua ordem.

Mas todos estavam tomados pelo desespero e crentes de que, segundo a Lei, morreriam de fato.

E assim viveram muitas gerações. Tantos morreram crendo em seu penoso fim, enquanto outros tantos, descendentes dos médicos, possuíram ano após ano o Hospital e suas imediações, chegando a comercializar a “verdade” de sua Lei, deturpando a própria insanidade.

* * *

Apareceu então, certa feita, um forasteiro. Homem simples e humilde, cabelos longos e barba na face. Túnica impecável e sandálias. Rapaz moço, de fala mansa, sorriso largo e grande carisma. Vinha de uma província não muito distante e sabia-se pelos mensageiros, tinha como capacidade nova o conhecimento da Lei dos Sãos e a ensinava abertamente a todos.

Da Galiléia, d’onde vinha, sabia-se que era carpinteiro. Em seu discurso, palavras fáceis acerca daquilo que tanto sofriam os cidadãos e seus descendentes desde a fundação daquela doutrina, convenhamos, insana.

Não bastasse, sabia-se que o tal carpinteiro, acompanhado de doze amigos, vinha a realizar proezas e milagres pelas terras que seguia, inclusive, pasme, curando enfermos!

Souberam então os médicos da presença do vil invasor. Providenciaram que dentre os seus, alguns fossem observa-lo a fim de avaliar, compreender e disseminar qual afinal era sua enfermidade. Feito tal, pensavam, seria prático o plano de denunciar aos ventos a sua invalidez e condena-lo ao fim mortal, tão comum ao povo reles.

Porém, pobres, investigaram e não acharam nele mal algum. Não havia falha, tampouco doença ou descumprimento da Lei. Tão sábio, tão simples, tão perspicaz… tão perigoso!

Porque não estava então entre os doutores? É de se perguntar. Mas não, ele não poderia. Certamente não estava entre estes o seu convívio, nem para os quais viera de tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe. Ao contrário disso, caminhava ao lado dos doentes, das prostitutas e dos pobres. Como podia? Aos olhos de seus algozes, deveria ele estar contaminado pelo vírus daquele povo imundo.

Contam os livrinhos que a partir de um dia, passou a defrontar-se com os “doutores da Lei” e a eles expôs sua Verdade. Afinal, dizia, ele era o único caminho, era ele próprio a verdade e também a vida, por meio da qual viria a salvação daquele povo que por anos viveu sob condenação escrava. Na ocasião, imagine só, chamou aos doutores de hipócritas e os colocou na condição de doentes.

Entrou o forasteiro no Hospital dos Sãos e derrubou as mesas de comércio que tomavam aquele lugar. Expulsou dali os que desonraram a pura e real cura e declarou indignado a quem verdadeiramente pertencia aquele local, usado de forma horrível por tantos e tantos anos, um Pai Criador, chamado por ele mesmo dessa forma.

Mas o antigo, misterioso e nesse momento suposto proprietário da clínica continuara ali nos arredores, oprimindo e acusando o povo, colocando seu corpo de profissionais a trabalho da Lei humana e dirigidos em um propósito único e momentâneo: eliminar aquele forasteiro ameaçador.

E o galileu simpático afirmou a todos quantos desejassem ouvir, que seria ele o ponto final na condenação mortal de todos os homens. E revelou o fato de que os doutores, sim, sofriam eles do mesmo mal ao qual condenaram tantos à morte, sendo também portadores do vírus letal, chamado pelo nome verdadeiro: Pecado. E o pecado, impregnado em todo o povo, deveria ser removido.

Durante os três anos de suas idas e vindas pelas bandas da capital, armou-se entre os doutores a tocaia para sua prisão. Eles, como feras famintas e cegas, ansiavam pela morte daquele que julgavam ser blasfemo e enganador, sem saber explicar como lhe era possível tanto conhecimento e poder.

Ao mesmo tempo, crescia de forma incontrolável a sua fama e proporcionalmente a multidão que o seguia. Tantos cegos agora vendo, aleijados andando, surdos ouvindo, leprosos limpos, mortos ressurretos, endemoniados libertos, poder emanando de suas vestes e agindo por meio daquele homem, Filho do homem, são e santo, que amava e curava pecadores.

Já não havia condenação. Eram por meio dele de fato, como o próprio dizia, “feitas novas todas as coisas”.

E por hora, chegamos aqui ao ponto conclusivo dessa narrativa, quando ao fim dos dias, sabe-se que com 33 anos de idade o galileu chamado Jesus reuniu-se com seus discípulos pela vez derradeira e insistiu outro instante na estranha idéia de que morreria em breve. Fato este, sabe-se, incompreensível a qualquer um que o tinha como Messias.

E foi entregue nessa mesma noite, ali na capital, levado pelos braços pesados dos guardas, conduzido à presença dos doutores da Lei, que lambendo o veneno que lhes escorria pelos lábios, mentiram a respeito da vida santa de seu condenado, provando dessa forma, quem eram os pecadores afinal.

Sem doenças, sem pecado, sem máculas, assim estava diante de todos, doutores e povos reunidos, todos sabendo e vendo sua pureza, mas fizeram juntos o coro da falsidade doentia e pecaminosa bradando por sua morte: Crucifica-o!

Morreu na cruz o misericordioso galileu.

Três dias depois, ouviu-se outro alvoroço dentre o povo. Seus seguidores, aqueles doze, o viram novamente. Jesus havia ressuscitado e trazia consigo uma surpresa maravilhosa: com ele, na cruz, morreram todos os pecados e doenças da humanidade e na sua ressurreição, estabelecia-se a prova grandiosa de que era findo o período da morte e vivo, eternamente vivo, todo homem que cresse em seu propósito.

Ressurreição essa que salvou todos os homens, inclusive os médicos doentes que compreenderam seu erro e arrependeram-se. O Cristo, médico dos médicos, enquanto vivo fez perpetuar sua mensagem de cura para os enfermos, receitando dois remédios, de dose diária e perene aos que o reconhecem ainda hoje como seu Senhor redentor: arrependimento e santificação.

Disse um profeta a seu respeito, quatrocentos anos antes de seu nascimento: “Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e sobre si levou as nossas doenças” (Isaías 53:4).

E de forma curiosa viu-se crescer depois disso o grande número de condenados que, crendo em suas palavras, viram-se curados de suas enfermidades. E de certo modo, os que se diziam sãos, foram encontrados perdidos e expostos com suas doenças. O misterioso dono do hospital, agora conhecido pelo seu verdadeiro nome – Satanás – foi revelado como o incompetente perseguidor do Cristo, ao ser derrotado por seu poder e santidade na morte da cruz e na boa nova da ressurreição de Jesus dentre os mortos.

Enfim, lembra-se hoje também, de outros escritos registrados nos livrinhos, que revelam algumas das palavras ditas pelos lábios do próprio Salvador e que nos provam – como se ainda fosse necessário – sua ação por entre aquele povo:

“Os sãos não necessitam de médico, mas, sim, os doentes. Eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores” (Marcos 2:17). “Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso” (Mateus 11:26). “Pois nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Marcos 10:45).