Um instante

por Luiz Henrique Matos

Ele abaixou a cabeça e retirou-se angustiado. Seus olhos marejaram, a garganta travou e seu peito doía incessantemente. Então se isolou, entregou-se e chorou. Percebeu o que havia feito, que grande bobagem! Como era possível?

Há poucas horas suas palavras eram outras, sua firmeza surpreendia, sua fé impressionava. Era uma rocha! Mas agora, era a escória dos homens, um pecador imundo, em nada o santo ou escolhido dentre tantos.

As lembranças dos últimos meses lhe vinham à memória. As grandes aventuras, as experiências de uma nova vida, pescador de homens.

Eram muito nítidos aqueles três anos. Surgira entre eles mais do que um relacionamento disciplinar de mestre para servo, tornaram-se amigos íntimos. Partilhou suas dificuldades, foi franco com suas dúvidas e sentimentos – por vezes até controversos. Foi fraco, foi homem, foi filho e foi irmão.

Viajaram juntos, percorreram toda a Galiléia e a Judéia. Dormiram no deserto, andaram milhas e milhas, comeram da mesma panela, partilharam o mesmo pão.

Em todos os momentos a fidelidade, o amor, o respeito, o serviço. A cada dia um aprendizado e uma experiência nova com o próprio Deus, em carne, osso e… barba.

Estava ali, ao seu lado, o Deus homem que se emociona, que chora, dá bronca, sorri e brinca. O Deus que perdoa satisfeito, cura enfermos, multiplica pães, fala às multidões e depois dorme exausto em seu barco sob a tempestade assustadora. Deus que nasceu menino, frágil e puro. E assim permaneceu.

Agora ele via o Deus vivo quase morto, sem carne, sem sangue e desfigurado. Cuspido, chutado e esmurrado, prestes a ser imolado como um Cordeiro, sem máculas, em seu lugar.

E todas as lembranças correm-lhe a mente num instante, como um filme, e acabam finalmente ali, ao vê-Lo acorrentado, sendo levado pelos guardas a pontapés e socos.

Segundos antes dessa lembrança, seus olhos haviam se cruzado pela última vez e tudo fez um sentido assustador. Ele sentiu-se consumido pelo amor de seu amigo fiel e seu ouvido abriu-se para ouvir um som distante ecoar pela madrugada: o galo cantou, pela terceira vez, ele cantou.

E então a “pedra” chorou e chorou. E clamou arrependida.

“Ainda que todos te abandonem, eu nunca te abandonarei” (Mateus 26:23). “Mas ele o negou diante de todos, dizendo: ‘Não sei do que você está falando’” (Mateus 26:70). “O galo cantou” (Mateus 26:74b). “E saindo dali, chorou amargamente” (Mateus 26:75b).

O silêncio

por Luiz Henrique Matos

O silêncio. Se tem algo na crucificação de Jesus que me espanta é o silêncio. É claro que dia após dia ainda me sinto comovido com todo o propósito de Seu sofrimento por nós e a salvação que há n’Ele. Mas esse fato (como Ele mesmo diria) já “está consumado” nos corações e na história. Mas o silêncio…

Porquê Ele não falou nada? Porquê sofreu quieto, sem reclamar ou se defender? Porquê não condenou aqueles pecadores que blasfemaram e não quiseram crer? E se ali, na cruz, Ele dissesse: “Estou aqui por causa de vocês, ingratos. Estou morrendo no seu lugar!” Isso mudaria alguma coisa? Ele deixaria de ser o Filho de Deus e Salvador da humanidade?

Mas preferiu sofrer quieto. Em Suas últimas horas neste mundo não pregou o arrependimento, nem falou de morte ou ressurreição, não realizou milagres e tampouco se defendeu. E tantos à sua volta o agrediam com palavras, socos, pontapés, chibatadas, pregos, cravos. Foi humilhado, não reagiu e todos que se diziam Seus amigos também não fizeram nada.

E nesse grupo, ainda hoje, estou eu. Estou entre os que Lhe prometeram fidelidade e fugiram ao menor sinal de perigo. Estou entre os que clamaram por sinais e milagres mas que no Sinédrio apontaram o dedo gritando: “Crucifica!”. Estou como o discípulo que afirmou que morreria em Seu lugar mas que em apenas uma noite foi capaz de negar Seu Mestre por três vezes e também estou como o outro discípulo que O entregou aos guardas, com um beijo na face, por algumas moedas prata. Estou entre os soldados que O torturaram, cuspiram e pregaram no madeiro. Estou entre os fariseus hipócritas.

Sim, sou um deles, cada um deles, com suas atitudes e razões, lutando contra os impulsos da minha carne e buscando acreditar na Verdade que agora se cala. O silêncio.

Ironicamente, o silêncio que disse tudo. O silêncio que expôs a dor, revelou o amor e ensinou Sua misericórdia. Silêncio rompido pela voz fraca e os lábios trêmulos que enfim disseram o que mais me dói o peito: “Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem”.

“Quando insultado, não revidava; quando sofria, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga com justiça. Ele mesmo levou em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, a fim de que morrêssemos para os pecados e vivêssemos para a justiça; por suas feridas vocês foram curados” (1 Pedro 2:23-24).

Amigo de pecadores

por Luiz Henrique Matos

Ele ainda é amigo de pecadores. Ainda senta-se à mesa com os publicanos e circula por aí falando com mulheres samaritanas, prostitutas e adúlteras. Ele ainda chama revolucionários para serem discípulos e pescadores de peixes para fisgarem almas. Escolhe jumentos para o conduzirem em meio ao povo, ainda visita a casa daqueles que ninguém mais gosta e prefere a simplicidade à tradições vãs. Ele ainda cura, liberta e salva os homens que a sociedade coloca à margem de seu padrão.

Ele ainda conta histórias para entendermos as coisas grandes e sobrenaturais que enxerga com tanta clareza. Ainda nos alimenta com sua palavra renovadora e com pão e peixe multiplicados.

Ele ainda chora por seus amigos, ainda remove pedras, montanhas e até ressuscita mortos. Ele ainda tem esperança em sua criação rebelde.

Ele ainda sente o toque na orla de sua veste, sente o poder saindo de si e ainda se curva para os que o buscam com fé. Ele ainda faz barro para curar cegos, ainda seca árvores infrutíferas, ainda anda sobre as águas e acalma as tempestades que nos assustam.

E se tudo não tivesse acontecido, Ele ainda rasgaria os céus e romperia o tempo para se fazer carne entre nós. Ele ainda lavaria pés, partiria o pão e serviria o cálice. Ainda choraria sangue em sua oração derradeira, ainda apanharia, receberia os insultos. E ainda ficaria quieto. Ainda morreria a pior morte, morte de cruz, ainda viria ao mundo na plenitude dos tempos, nascido do ventre de uma graciosa virgem.

Ele ainda provaria a que veio, ainda diria a mesma mensagem, talvez por palavras diferentes, mas com a mesma intenção. Ele, sendo Deus, ainda viria, vivendo em homem, para mostrar a esse que é possível vencer, quando se está em Deus.

E ainda hoje Ele faz coisas loucas para confundir as sábias. Ainda anda ao lado do povo, serve os que não se prestam a tal. Ele ainda vem para os doentes, os pobres, os cansados. Ainda carrega fardos. Ele ainda entra nas portas abertas e convidativas.

Ele ainda dá seu reino às crianças e o nega aos maldosos. Mas ainda perdoa, perdoa incansavelmente até os que se cansam de tanto pecar.

Ele ainda é o Nazareno, é o carpinteiro, é o Verbo que se fez carne. Ele ainda é o Messias, é o Cordeiro Santo, é Deus conosco, Emanuel. É o Leão da tribo de Judá, é o grande Eu Sou, é Filho de Davi, Filho do Homem, é o ungido de Deus. Ele é Cristo, Jesus Cristo. Ele é o que morreu e ressuscitou, e para sempre reconhecido como Senhor e Salvador.

Ele é o mesmo, ontem, hoje e sempre. Ele não veio para os sãos, veio para os doentes. Ele não veio para santos, veio para pecadores. Ele não veio para dizer, mas deixou outros dizerem a que veio: veio porque “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:16).

Ele veio para você.

Serviço de entrega

por Luiz Henrique Matos

“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce” (Fernando Pessoa).

Não costumo falar muito sobre evangelização. Para ser sincero, até sofro em saber que não sou muito eficiente na tentativa de levar Cristo às pessoas. Atrapalhado, começo tratando de princípios cristãos, passo por questões teológicas, divago a respeito da Criação e só então chego em pontos mais fáceis de se “digerir” como: salvação, perdão e (até que enfim) Jesus. Em geral, nesse momento, meu amigo já está a ponto de dormir. Sou um desastre, mas sinto-me confortado pelas Escrituras ao acreditar que estou “plantando a semente” e talvez encontre alguém por aí em que frutifique…

E sabendo de Seu favor gracioso, que filho não é inspirado pelo mandamento do “ide” que Ele deixou a todos? “Se Ele fez tudo isso pela humanidade, porque então nem todos sabem disso? Preciso fazer a minha parte!”. Esse é um pensamento correto e lógico, mas infelizmente não é tão comum.

Daí a estranheza de nosso gesto quando queremos ver alguém que amamos entregar seu coração a Cristo, ser salvo e ver a família crescer. Em geral, nossa principal atitude é convidar essa pessoa para ir à igreja, na esperança de que aquele ambiente com o qual estamos tão habituados seja instantaneamente um lugar familiar e agradável para ela. Como se cristianismo se passasse por osmose.

Na maioria dos casos, um indivíduo só aceita um convite para visitar uma igreja por insistência de algum conhecido crente (e por vezes, chato). E em maior parte, só procura uma igreja espontaneamente quando está na fossa. Como diz um amigo: “Acho que Deus mora no fundo de um poço. Porque todo mundo que vai para o fundo do poço, quando volta diz: ‘Encontrei Deus’”.

Mas assim como alguns procuram uma igreja nesses penosos momentos, outros milhares buscam preencher esse “vazio” com ídolos, misticismos, vícios e outras tantas “soluções” mundanas que são tão divulgadas hoje em dia. É até moderno ser místico, holístico ou crer em “algo diferente”. Agora, Jesus que é simples, prático e vivo, tornou-se “careta” para a nossa sociedade.

Atribui-se a Martinho Lutero a frase: “O homem nasce com um buraco no coração, que tem a medida exata de Deus”. Todos nascem com essa carência e muitos passam a vida procurando respostas, sem conseguir preencher esse espaço.

Pois Deus confiou aos Seus filhos a tarefa de transmitir Sua verdade e alcançar essas ovelhas perdidas. Ele não disse: “traga as pessoas para Jesus”, Ele ordenou: “Vá, pregue o Evangelho e faça discípulos. E os milagres que me viu realizar, também o acompanharão!” (Marcos 16, 15:18 – parafraseado). Nosso objetivo não deve ser o de conduzir pessoas a Jesus, mas justamente o contrário, precisamos levar Jesus às pessoas. E para “entregar” Jesus a alguém, precisamos primeiro nos entregar a Ele, diariamente, a cada instante.

“Pregue em todo o tempo, se necessário use palavras” (São Francisco de Assis).

Se o Senhor inspira o Seu coração em amor por alguém, mostre a essa pessoa o cristianismo. Mas não é o cristianismo dos livros, da teologia ou da igreja. Também não é o cristianismo do seu pastor, líder ou de um irmão experiente. Mostre a ela o verdadeiro motivo de você ser chamado “cristão”, deixe transbordar a presença de Deus que há em você.

Sendo tocada por esse amor de Cristo, ela vai querer conhecer qual é a fonte de onde nascem essas águas (vivas) da qual você bebe e vai sentir fome pelo alimento de bom cheiro que tem comido. E atraída por essa essência, poderá experimentar do amor incondicional de Deus sobre si.

Aí sim, você poderá ter o privilégio de abrir as grandes portas e chamar: “Venha meu irmão e seja bem vindo ao Reino eterno de nosso Pai”.