Sobre guerreiros e pigmeus

por Luiz Henrique Matos

(O texto abaixo tem como propósito ser uma analogia para a nossa postura dentro das comunidades e em nossa conduta cristã. Reconheço que pode soar um tanto preconceituoso quanto à questões físicas e étnicas de alguns povos, mas isso não condiz com a intenção real, que é sempre a de edificar a caminhada com Cristo – escrevo esse comentário depois do texto já divulgado em outros meios, obrigado ao Tonho pela observação).

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Alguém disse certa vez, talvez um professor, que existe uma razão para alguns homens serem mais altos do que outros, a exemplo de algumas tribos africanas onde chegam a medir quase dois metros em contraste a certas comunidades de pigmeus, também africanos, que mal chegam a um metro e trinta.

Conta a história que no tempo em que nossos ancestrais começaram sua peregrinação pelo mundo, o macho tinha por função sair diariamente para a caça e trazer para casa o alimento que supriria a necessidade de sua família (eram tempos em que as geladeiras não existiam). Nessa jornada errante, algumas tribos foram viver em desertos e grandes planícies (no exemplo acima, é o caso dos africanos) e outras firmaram suas moradias nas florestas (os pigmeus).

Segundo a (provável) teoria do (também provável) professor, a caminhada por grandes campos e planícies criou em alguns homens a necessidade de ampliar o seu campo de visão diante de um horizonte tão longínquo. Essa necessidade, ao longo de anos e anos, gerou homens com biotipos mais altos e reconhecidos como grandes guerreiros e caçadores. E muito disso é por conta de sua excelente capacidade de visão e pela estatura.

Quanto aos pigmeus, cresceram em meio às florestas. Esse “habitat” sempre os impediu de ver mais do que alguns metros adiante e sua necessidade de visão limitava-se aos espaços e detalhes que os cercavam. Diante de tal cenário, seu corpo nunca foi dos mais avantajados. Enxergavam muito bem no estreito ambiente à sua volta mas eram facilmente atacados pelas feras quando expostos a um campo muito grande. A tática para não serem devorados era abaixar e se esconder, afim de passarem desapercebidos.

Hoje, as nossas igrejas estão cheias de “pigmeus”. Crescemos dentro de pequenos espaços e nos limitamos a olhar para os empecilhos que nos cercam, as lutas particulares, as dificuldades em nossas comunidades e nos esquecemos da “visão de Reino” que o Jesus nos deixou como tarefa. Precisamos passar mais tempo no deserto, encarar a planície e compreender que fomos criados para enxergar a partir de uma visão alta e global. Assim como Deus.

Quando deixarmos de olhar para os obstáculos de baixo para cima e os observarmos de cima para baixo, compreenderemos que os problemas não são afinal tão grandes. No momento em que lembrarmos que o mundo não é constituído apenas pela pequena floresta em que habitamos e suas dificuldades rotineiras, mas é na verdade uma enorme massa em movimento, saberemos então que essas tribulações são ínfimas diante do “todo”, que devemos ser guerreiros preparados para as batalhas e que afinal de contas, a Terra é redonda e quanto mais altos formos, mais longe enxergaremos.

Então veremos um mundo realmente grande. Veremos nossos irmãos sendo perseguidos de um lado, veremos a igreja carente de outro, os povos sofrendo por toda a parte, a sede de Cristo vindo daqueles que nem ao menos sabem que Ele veio. Entenderemos a necessidade e o valor de nossa intercessão, aprenderemos que a Terra não se resume ao nosso umbigo e enfim teremos implícitos em nossos corações o verdadeiro significado de expressões como: servir, amar ao próximo e crescer… crescer para ver longe.

“Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor. Porque, assim como o céu é mais alto do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos” (Isaías 55:8-9).

Não fomos concebidos para viver perdidos em meio à floresta, sem visão, tropeçando em qualquer pedra que cruze o nosso caminho e nos escondendo das feras. Mas fomos feitos à semelhança de Deus para crescer e ter visão… visão do alto, visão ampla e plena, conscientes e batalhando pelas bênçãos e promessas que Deus sonhou para nós, todos nós.

Retratos e semelhanças

por Luiz Henrique Matos

“A glória de Deus é um ser humano em plenitude de vida” (Ireneu).

Fico a pensar por quais ruas ele andou, que caminhos trilhou, que vida levou desde aquele dia, sentado no banco da praça, com seus vinte e poucos anos, protegendo sob sua guarda a noiva que ostenta nos braços. Sei, tão pura e simplesmente, que hoje aquele jovem transformou-se em um pequeno senhor de poucos cabelos brancos que chamo por “meu vô” desde que me entendo por gente. Mas vê-lo no retrato com possivelmente a minha idade, abraçado à minha avó e juntos, sentados no banco da praça no interior, remete a imaginação a tempos em que eu não vivia, tempos sem os dezessete filhos que ele viria a ter.

Hoje, conheço e admiro – ainda que à distância fria e desgarrada de um neto adulto – sua bondade simples sem interesses ou jogos. Um homem que separa um tanto do alimento em seu prato para satisfazer a fome curiosa dos pássaros no quintal, que toca todo e qualquer inseto porta a fora a fim de poupa-los da morte iminente de um pisotear inimigo. Incapaz de maltratar, matar, enganar, seu único esforço é lutar contra a regra que o obriga a tomar pontualmente os remédios para o coração. Coração tão bom em espírito e essência, mas doente em seu aspecto físico e na aparência.

O homem muda na medida que os anos passam. Diz a piada que na velhice, voltamos a ser como quando bebês: carecas e banguelas. Mas assim como os anos transformam nossa aparência, também interferem em nossas emoções, pontos de vista e caráter. Mudamos não apenas fisicamente, mas também em nosso interior.

Vendo a foto do jovem na parede eu não diria que aquele é o vô e tampouco poderia concluir algo a respeito de sua personalidade. O retrato na parede mostra a imagem, o exterior, a aparência. Mas o convívio da vida revela o coração, o interior e a essência.

“Criou, pois, Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gênesis 1:27).

Fomos planejados desde o princípio dos tempos pelo nosso Pai Criador. Antes de nascermos nesse mundo, fomos concebidos em Seu coração. Ali, Ele pensou em nossa aparência, nossa personalidade, nossos talentos, fez planos para nosso futuro e procurou neste planeta o casal com o código genético ideal para que pudéssemos existir.

Não tivemos escolha quanto isso, o maior e mais claro sinal de nossa insignificância global e dependência. Somos “apenas” Criação de Deus, formados para Sua glória e louvor. O nosso exterior Ele fez, entalhou como obra de arte, tomando como inspiração Sua própria imagem, fazendo de nós uma amostra refletida de Sua figura. E como estátua de barro esculpida e sem vida, soprou em nossas narinas o espírito e nos permitiu nascer, tal como quis, livres, inteligentes e… homens.

Concebidos à luz em alguma maternidade, viemos a este mundo. Ao longo dos anos aprendemos a falar, andar e pensar sozinhos, independentes de nossos pais e (infelizmente) independentes de nosso Pai.

Cada vez que caminhamos sem a orientação de Deus, seguimos justamente na direção contrária, estamos em pecado (“pecado” que originalmente no grego quer dizer “errar o alvo”) e longe de nosso verdadeiro abrigo que encontramos n’Ele.

“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o poderá conhecer?” (Jeremias 17:9).

Mas também disso Ele – onisciente – já sabia. E triste por nossa rebeldia, nos livrou dessa escravidão, lavando-nos novamente, dessa vez no doloroso derramar do precioso sangue de Seu Filho. E para que voltemos todos para casa, Ele pede: “nasça novamente” (João 3:3).

Nascemos uma primeira vez e à Sua imagem fomos criados, mas precisamos nascer novamente para à Sua semelhança ser moldados. Como o barro foi trabalhado e esculpido para chegar ao padrão de Sua arte prima como homem e receber o espírito da vida, Ele precisa entrar em nosso interior para, de dentro para fora, moldar o nosso coração em um modelo idêntico ao Seu. Temos a aparência de Deus e quando reconhecemos Seu sacrifício, começamos a ser transformados para ter também o Seu caráter, com o Espírito Santo habitando em nós.

Isso é conversão. Isso é uma nova vida em Cristo. Isso é ser… cristão.

Jesus diz: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo” (Apocalipse 3:20). Se você algum dia abriu essa porta, sabe o quão gratificante é ter Deus vivendo dentro de si, mas ao mesmo tempo e sabe também o quão doloroso é quando Seus instrumentos nos entalham por dentro, removendo o que é desnecessário, para que alcancemos a forma madura e perfeita que Ele um dia sonhou. Mas se você nunca permitiu uma fresta para aceitar esse convite, aconselho que faça-o agora e então você viverá dias de consolo, plenitude e sacrifícios, que o conduzirão ao crescimento pleno, à eternidade e ao colo de um Deus que você pode chamar de Papai. A todos nós, um banquete nos aguarda.

Renascidos em Cristo, somos o reflexo de Sua glória. Barros mudados à Sua semelhança e Filhos moldados à Sua essência. Antes criação, agora família.

E nascendo de novo, concebidos à luz da vida, seguiremos para além deste mundo. Ao longo dos anos aprenderemos a falar, andar e pensar em comunhão com Seu Espírito, independentes de nossos interesses e (felizmente) diariamente dependentes de nosso Pai, refletindo a Sua glória.

“E nós, todos os que com a face descoberta contemplamos a glória do Senhor, segundo a sua imagem estamos sendo transformados com glória cada vez maior, a qual vem do Senhor, que é o Espírito” (2 Coríntios 3:18).

Aos olhos dos homens, dos anjos e do inferno, Seu Sebastião é aquele garoto da fotografia datada, conhecido pela aparência, trajes e traços. Uma imagem a ser julgada, ignorada e esquecida pois de fato, imagens não traduzem o coração. Aos olhos dos insetos e pássaros, é ele o bom velhinho que dá de comer, partilha o pão e protege dos perigosos predadores. O curioso é ver que pequenos seres irracionais o enxergam mais próximos do ponto de vista do Pai eterno do que os homens. Os insetos o vêem como é, pura e unicamente pelo transbordar de suas atitudes. Mas nós precisamos de um certificado eclesiástico, registrado em cartório e protocolado na igreja para só então concedermos o “valioso” título de: bondade.

Pecados? Certamente ele os tem, mas você e eu também temos e cabe ao Juiz eterno, somente a Ele, julgar o seu caminhar. A mim, cabe ama-lo, como neto e como próximo e olhar não para sua foto, mas para o seu coração e ver o exemplo antagônico do que eu sou: um coração regrado, com boa aparência e saudável em suas funções, mas doente em essência, precisando dos cuidados de meu Santo Criador, sentindo as dores de ser apertado, manuseado e refeito para que um dia eu possa ver os sonhos do Pai sendo realizados em mim.