O troco

por Luiz Henrique Matos e Emmanuelle Burci

“Não façais mal e o mal não existirá” (Leon Tolstói)

Assim como uma pequena chama na floresta pode se transformar em uma grande queimada, também um ressentimento guardado sem perdão pode, com o passar do tempo, tomar proporções gigantescas e destruir toda beleza naquela que antes era uma terra viva. O fogo mata o que antes era fértil, consumindo o verde reluzente e transformando-o em uma sequidão cinza. Para conter o fogo e impedir a destruição, é preciso esfriar a brasa e aprender a perdoar. Guardar ressentimentos só nos faz sofrer ver todo o resto de nossas emoções serem sugados.

Uma segunda opção lógica seria revidar o golpe e fazer justiça com as próprias mãos, mas nesse caso, como no exemplo acima, seria apagar o fogo com mais fogo, seria jogar lenha em uma fogueira. Quando se fazemos um contra-ataque deixamos a posição de vítima e nos igualamos ao agressor. A idéia racional que temos de justiça é dar ao “pecador” uma pena que lhe faça lembrar do sofrimento que causou, mas se fosse realmente esse um plano de Deus, estaríamos todos morrendo e pagando o preço de nossos pecados crucificados no Calvário.

Não precisamos morrer como Ele. De fato, isso aconteceu uma única vez, quando nosso Salvador o fez por todos nós. Mas devemos buscar viver como Ele, seguindo Seus passos e exemplo para vivermos em santidade.

Os primeiros seguidores de Cristo foram chamados pelo povo de ‘cristãos’ justamente porque se assemelhavam a Ele em sua postura e conduta (seria bom se em nossos dias, também fosse dessa forma). Agora, se Jesus não veio para condenar, mas para nos perdoar e libertar de nossos pecados, porque então nos damos o direito de julgar e condenar aqueles que nos magoam?

“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’. Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra” (Mateus 5:38-39).

Você pode pensar: “Tudo isso parece muito fácil se fosse um simples tapa, mas e o gosto amargo de ser traído, violentado, perseguido e oprimido pela injustiça? Isso é doloroso!” Certamente, o peso cai sobre as costas e com esse fardo é difícil caminhar. Mas por todas as nossas dores Ele morreu e as Escrituras nos dizem que não há provação que Ele não tenha passado afim de nos capacitar a viver e passar por elas como Ele o fez.

E, além disso, Jesus diz que essa é uma condição do Pai para os Seus filhos e se você deseja ver os seus pecados perdoados então precisa perdoar os que pecaram contra você. Não lhe cabe decidir em que medida seu próximo merece ou não ser perdoado.

“Pois se perdoarem as ofensas uns dos outros, o Pai celestial também lhes perdoará. Mas se não perdoarem uns aos outros, o Pai celestial não lhes perdoará as ofensas” (Mateus 6:14-15 ênfase minha). “Não julguem, para que vocês não sejam julgados. Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados; e a medida que usarem também será usada para medir vocês” (Mateus 7:1-2).

Não se trata de diminuir o sofrimento que o abala, tampouco dizer que o que se passa em sua vida é fútil a ponto de ser esquecido em um sopro. Trata-se, porém de cristianismo e em nenhum momento Jesus falou que isso seria fácil. Como parte do esforço na jornada da fé, esse é mais um passo que precisa ser dado no estreito e penoso caminho. Mas lembre, ainda que não mereçamos, há uma recompensa viva e eterna brilhando como luz no fim deste túnel que conduz para o Pai.

“A lógica diz: ‘cerre os punhos’. Jesus diz: ‘Encha a bacia’. A lógica diz:’Esmurre o nariz dela’. Jesus diz: ‘lave-lhes os pés’. A lógica diz: ‘Ela não merece isso’. Jesus diz: ‘Isso mesmo, mas você também não’”. (Max Lucado no livro “Ouvindo Deus na Tormenta”, p. 58).

Coração novo

por Luiz Henrique Matos

Ah, seu eu não soubesse o que é amor e fosse ainda um ignorante, leigo a respeito da Palavra e livre para o pecado. Caminharia em minha inocência, errando, errante pelo mundo, seguiria escravo sem saber de quê, crente na falsa liberdade e abundante dos manjares da carne.

Ah, se Seu poder não me tivesse alcançado e meu coração cheio de sombras continuasse a não crer. Então eu não precisaria me arrepender, afinal nem saberia onde pequei, não deveria perdoar pois enfim me é prazeroso revidar o tapa que me ardeu a face e devolver com força a mentira, a traição e o ódio que preenche a alma.

Ah, se Ele não tivesse vindo, Sua história me passasse oculta e meu entendimento permanecesse alheio à Sua verdade. Eu seguiria em meu rumo cigano, amando a vaidade, louco e insano, cheio de estupor e maldades planejadas.

Ah, se esse mundo não fosse tão dividido e eu não precisasse tanto dessa porção, desse frasco, do carinho do Seu toque e o constrangimento de Teu amor. Poderia eu ficar sem pensar, dia e noite a cada instante, que daquele momento até então eu seria o mesmo, cego, perdido e sujo pecador.

Ah, Jesus, se não fosse o Teu sangue redentor. Minha vida continuaria tal, longe de esperanças, verdades e desse abraço, que me envolve, purifica e solta, para enfim conhecer a liberdade.

Ah, meu Deus obrigado, me livraste e lavaste do pecado, hoje sou limpo, novo homem em Ti nascido. Nenhum passo mais consigo dar na direção do que de Ti me afasta, pois na tábua de meu peito está gravada a verdade do Verbo Criador e arde forte a presença do Espírito, amado Consolador.

Pai, Hosana! Honra e glórias ao Senhor!

Vamos ao zoológico!

por Luiz Henrique Matos

“Mas Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes” (1 Coríntios 1:27).

Nove feridos e seis mortos, esse é o saldo de mendigos agredidos em São Paulo, brutalmente atacados com pancadas na cabeça. Os atos aconteceram durante a madrugada e, segundo depoimentos de testemunhas, um indivíduo trajando roupas pretas fora o responsável pelos ataques a moradores de rua no centro da capital.

A polícia investiga, a população se indigna e os moradores de rua protestam. Já há anos eles protestam, mas nada se ouve, eles são mudos, nada se vê, eles são os seres invisíveis que “deletamos” em nossa rotina cotidiana da grande metrópole.

Agora sim, porque foram agredidos, as autoridades se interessam em abriga-los em albergues que sempre existiram, mas de portas fechadas aos “seres invisíveis”. Agora sim, a imprensa se comove em mostrar o rosto daqueles que por vergonha, medo e frio escondiam-se embaixo de papelões e jornais.

Acontece que tiramos a responsabilidade de nossas costas, com esse falso moralismo e encontramos um (possível) neonazista para incriminar. Ah sim, não somos todos nós os culpados, os corruptos e sonegadores, é ele, o skinhead maldito.

O curioso – e não menos trágico – dessa barbárie é que “morador de rua” na percepção da população e da imprensa, deixou de ser uma condição sub-humana de vida e passou a categoria social.

E nesses dias têm sido diferente, mendigos ganham quinze minutos de fama e são a nova atração de nosso zoológico de aberrações imundas e intocáveis. São os leprosos separados como resto, são a escória, a maldade inimiga que só ousamos enxergar através de um vidro: o que cobre nossos aparelhos televisores. Vidro que tal qual jornais e papelões, servem a nós como instrumento para encobrir a vergonha, o medo e o nojo em pensar que aquilo pode ser real. É real.

Mas agora… bem, agora eles são celebridades. Os “moradores de rua” se reúnem para fazer protesto, dão depoimentos na TV com direito a legenda informando: “Fulano de Tal, morador de rua”. Como se isso fosse uma preferência pessoal de habitat e não um sinal brutal de desigualdade.

Não impressionaria se em breve, miseráveis brasileiros que sobrevivem de forma precária em outras regiões de nosso país, abandonassem seus humildes barracos e passassem a migrar para São Paulo afim de tornarem-se “moradores de rua” na grande metrópole. Afinal, aqui sua voz ecoa com mais força, têm destaque nacional e a chance de aparecer na primeira página do jornal, página central de revista semanal e horário nobre da TV.

Será que realmente algo será feito? Certamente encontraremos um Zé Ninguém para culpar (nisso somos muito bons) mas, quando a onda passar, esses mendigos poderão um dia abandonar suas “casas” (sic!) e enfim fazerem parte de uma condição mais digna denominada apenas “moradores”?

“Estando Jesus em casa, foram comer com Jesus e seus discípulos muitos publicanos e pecadores. Vendo isto, os fariseus perguntaram aos discípulos dele: ‘Por que o mestre de vocês come com publicanos e pecadores?’ Ouvindo isso, Jesus disse: ‘Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Vão e aprendam o que significa isto: ‘Misericórdia quero, e não sacrifício’. Pois eu não vim chamar justos, mas pecadores’”. (Mateus 9: 10-13).

“Eles também responderão: ‘Senhor, quando te vimos com fome ou com sede ou estrangeiro ou necessitado de roupas ou enfermo ou preso, e não te ajudamos?’ Ele responderá: ‘Digo-lhes a verdade: o que vocês deixaram de fazer a alguns destes mais pequeninos, também a mim deixaram de fazê-lo’. E estes irão para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna” (Mateus 25:44-46).

Homens das cavernas

por Luiz Henrique Matos

“As cavernas não são o lugar oportuno para melhorar o estado de ânimo. Existe certa mesmice entre todas elas, não importa em quantas você tenha dormido. Escuras. Úmidas. Frias. Bolorentas. Uma caverna se torna pior ainda quando você é o seu único habitante…” (Gene Edwards no livro “Perfil de Três Reis”, p. 39).

Quem já esteve em uma caverna entende o que o autor quer dizer. Não há nada de aconchegante naquela rocha, são locais cheios de infiltrações, irregularidades, insetos em suas cavidades, um ambiente gélido e desconfortável. Algumas não têm mais do que poucos metros de profundidade, já outras são tão extensas que mal se pode chegar ao seu fim. Definitivamente, não são lugares onde um homem possa viver em paz. Exalam a solidão, exaltam os ruídos com ecos espantados rasgando o silêncio assustador e as frias trevas em seu interior não são estímulos para a paz de espírito.

Uma caverna não é um lugar para se estar sozinho.

Em uma rocha dessas, em Horebe, o profeta Elias descansou após caminhar, fugitivo, por quarenta dias e quarenta noites. Deprimido, sem esperanças e fora dos planos que Deus havia traçado para seu ministério, entrou naquele lugar, deitou e não queria se levantar (já tinha inclusive, pedido a Deus para que tirasse sua vida). Foi ali, deitado, que ouviu então o Senhor chama-lo e dizer: “Que fazes aqui Elias?” (1 Reis 19:9).

Uma caverna não é um bom lugar para se viver.

* * *

Mas existe um outro personagem, em uma outra história. É o causo do pequeno homem que foi ungido rei sobre Israel ainda jovem, mas durante quase 20 anos precisou fugir do rei vigente que tentava lhe tirar a vida. O jovem Davi então fugiu da lança de seu perseguidor e por anos buscou refúgio nas cavernas, várias delas, por todo o território de Israel e vizinhanças.

Havia porém um fato diferente naquela ocasião. As cavernas de Davi eram certamente as mesmas, tão frias e solitárias como a de Elias e qualquer outra que possamos visitar. Mas aquelas fendas pareciam feitas em uma rocha firme, aconchegante e abundante em paz. Não pelo seu estado físico, mas pelo poder renovador que a preenchia. Davi morava em cavernas comuns, mas abrigava-se na Rocha, que é o Senhor.

E foi Davi, habitando em cavernas, que escreveu os mais belos salmos que ainda hoje nos edificam e consolam quando nos sentimos tal qual Elias: “O Senhor é a minha rocha, a minha fortaleza e o meu libertador; o meu Deus, o meu rochedo, em quem me refúgio; o meu escudo, a força da minha salvação, e o meu alto refúgio” (Salmos 18:2).

Na Rocha Eterna nunca se está sozinho.

Eis uma boa nova: há um lugar seguro para nós. Quando nossos perseguidores parecem insaciáveis, quando nosso chão está prestes a ceder e o desespero sobe pelo nosso interior afligindo o coração que se aperta, há um lugar seguro: a Rocha na nossa Salvação. Ali, abrigados ao lado do Pai, sustentados por Sua mão poderosa, podemos encostar nossa cabeça e repousar nessa tranqüilidade inabalável.

“Confiai sempre no Senhor; porque o Senhor Deus é uma rocha eterna” (Isaías 26:4).

Abrigados na Rocha, esse é o melhor lugar para se viver. E a pedra angular – Jesus – nosso Salvador está a todo tempo com os braços abertos, prontos para nos acolher.

“Pois assim é dito na Escritura: ‘Eis que ponho em Sião uma pedra angular, escolhida e preciosa, e aquele que nela confia jamais será envergonhado’” (1 Pedro 2:6). “Este Jesus é á pedra que vocês, construtores, rejeitaram, e que se tornou a pedra angular” (Atos 4:11).

“Não vos assombreis, nem temais; porventura não vo-lo declarei há muito tempo, e não vo-lo anunciei? Vós sois as minhas testemunhas! Acaso há outro Deus além de mim? Não, não há Rocha; não conheço nenhuma” (Isaías 44:8).

Nome sujo

por Luiz Henrique Matos

Luiz Henrique de Oliveira Matos, é assim que fui batizado. Desde a gravidez de minha mãe, meus pais me tornaram conhecido aos parentes e amigos por este nome. Passados os anos, ainda não faço idéia da origem do título, me soa um tanto luso, pela semelhança e pelo parentesco, mas ora pois, não sei bem de onde vem.

Nesse aspecto, gosto de observar os hábitos dos antigos, que davam aos filhos nomes que de fato, tivessem algum significado. Assim faziam os índios, as tribos primatas e os hebreus. Consultando as Escrituras percebemos que cada nome tem o seu significado e esse tem ligação direta com a vida de seu dono.

A título de exemplo vemos que Abraão quer dizer ‘pai de muitos’, Assuero significa ‘homem poderoso’, Malaquias é ‘mensageiro do Senhor’, Jotão é ‘o Senhor é perfeito’ e Timóteo quer dizer ‘que honra a Deus’. São nomes muito bonitos, fortes e cheios de significados, mas que sinceramente, eu não daria a nenhum de meus filhos. Mas existem também os nomes cujos significados são tão pouco interessantes que nem precisariam ter um. Veja alguns exemplos e tente entender o que se passava na cabeça dos pais desses coitados: Esaú quer dizer ‘peludo’, Nabote é ‘frutas’, Finéas é ‘boca de serpente’ e Filipe se resume a ‘amante de cavalos’.

* * *

Hoje em dia, temos também a nossa preocupação com o nome. Não exatamente o significado, como faziam nossos antepassados, mas com o seu ‘valor’. Nosso nome é a propriedade que temos e pela qual zelamos. Um ‘nome sujo’ na praça pode significar o impedimento ao se abrir uma conta corrente, ao conseguir crédito para uma compra, a perda de propriedades e até a impossibilidade de se conseguir um emprego registrado.

O que caracteriza um nome sujo? Dividas.

Deixar de pagar um título e deixar voltar o cheque estão entre algumas das razões. Estar em dívida significa necessariamente estar em falta com alguém. E para ‘limpar o nome’ é preciso seguir alguns passos (muito mais complicados e lentos do que o que fizemos para suja-lo): Perceber que estamos errados e reparar o erro (pagar). Se não fizermos isso, nosso nome certamente constará no registro de inadimplentes e essa falta nos seguirá cada vez mais nos arquivos de órgãos financeiros privados e federais.

E uma dívida leva a outra. Para cobrir um rombo, faz-se outro na terra farta das financiadoras e então surgem sabe-se lá de onde, juros e mais juros a serem pagos e essa maldição perdura por tempos e tempos.

* * *

Há pouco mais de dois mil anos, toda a humanidade vivia em dívida. Um dia, lá no início, Adão estourou sua conta e pela primeira vez, desobedeceu a ‘regra’. E então, por séculos, toda a descendência do homem continuou a cometer infrações e prosseguir em errar, errar, errar e errar. Escravos de um devorador que nos mantinha presos às suas regras e estratégias destrutivas, afundamos no buraco negro sem qualquer chance de sair dali. Senão por um milagre!

Então, surpreendentemente, surgiu um homem, ou melhor, o Filho do Homem e pagou a nossa dívida – “Vocês foram comprados por alto preço” (1 Coríntios 6.20) – com seu sangue Ele nos livrou da escravidão da morte e nos libertou para a vida eterna. Ele limpou o nosso nome e de placa, o nosso coração.

E apesar do altíssimo preço pago Ele nada cobrou, mas ao contrário, o fez de graça. “E, se é pela graça, já não é mais pelas obras; se fosse, a graça já não seria graça” (Romanos 11.6). E graças a Deus, desde então é possível que nos cheguemos aos Seus pés e O adoremos por isso que fez.

Não quer dizer que somos filhos obedientes. Sem juízo, continuamos a errar e soltar aqui e ali os nossos ‘borrachudos’ e com isso, pecamos contra os mandamentos de Deus e formamos outras dívidas. Mas – oh glória! – Ele também pensou nisso e nos permite recobrar nosso crédito com um simples e único gesto: chegar a Ele e pedir perdão.

É com Ele, somente com Ele a nossa dívida. E o processo para ‘limpar o nosso nome’ não muda, devemos: reconhecer que erramos e deixar de pecar. “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 João 1.9).

Agora, uma pergunta: porquê é tão difícil reconhecer que erramos? A Bíblia descreve todos os erros e nos dá parâmetro para saber o que são pecados. Deus nos diz que seremos perdoados sempre que, de coração, nos arrependermos. E mais do que isso, diz também apagará esse pecado: “Sou eu, eu mesmo, aquele que apaga suas transgressões, por amor de mim, e que não se lembra mais de seus pecados” (Isaías 43.25).

As misericórdias do Senhor renovam-se a cada manhã, a cada nascer do dia, nasce também a graça, o poder e o amor eterno de Deus. Não precisamos fugir e desviar o olhar, mas prostrados, chegar diante dEle prontos para sermos apedrejados pela acusação maligna e ouvir Sua doce voz a dizer: “Nem eu também te condeno. Vai, e não peques mais” (João 8.11).

Tudo se cria

por Luiz Henrique Matos

(7º e último texto da série “Plantar e Colher – Princípios Bíblicos”)

O ser humano é um espécime engraçado. Somos os únicos dotados da capacidade de raciocinar, um privilégio dado por Deus, mas de certa forma – como tudo o que é de graça – desprezamos essa bênção com um escape um tanto esquisito. Alguns estudos revelam que o cérebro humano é capaz de adaptar-se facilmente a algo que chamamos de “rotina”. Ele é auto-suficiente para não nos fazer pensar muitas vezes na mesma coisa. Aquela sensação de que a cada ano os dias passam mais depressa ou a impressão estranha ao chegar em casa do trabalho e nem perceber o percurso que fizemos, trata-se de uma reação cerebral para não gastarmos novamente a mesma força, ou seja, se já fizemos algo outras tantas vezes, nosso cérebro otimiza suas funções e faz parecer que não as temos vivido.

Pois existe uma má notícia nisso: se cada vez mais os dias parecem “voar”, isso é sinal de que temos feito todos os dias a mesma coisa, sem repetição, sem novidades. Daí o fato de nossas férias parecerem ter dias mais longos do que o normal, nesse período temos experiências diferentes.

Em um artigo para o jornal O Estado de São Paulo, Airton Luiz Mendonça escreve sobre o assunto: “Não me entenda mal. A rotina é essencial para a vida e otimiza muita coisa, mas a maioria das pessoas ama tanto a rotina que, ao longo da vida, seu diário acaba sendo um livro de um só capítulo, repetido todos os anos” … “Felizmente há um antídoto: Mude e Marque. Mude, fazendo algo diferente e marque, fazendo um ritual, uma festa ou registros com fotos” … “Seja diferente”.

* * *

Infelizmente, isso não afeta somente nossa experiência individual. Nota-se também o mesmo “efeito” na vida a dois. Quando iniciamos um relacionamento afetivo, tudo parece novo, os filmes no cinema, os jantares, almoços, passeios, os primeiros gestos de carinho que um casal nunca esquece e se recorda eternamente, guardando cartas e recados amorosos. O momento em que se conhecem e interagem, a excitação do primeiro amor.

Mas temos em nós essa tendência e tal qual o cérebro, os relacionamentos começam a cair nessa “rotina” e o que no começo foram os momentos marcantes da vida a dois, agora tornam-se parte da mesmice diária, sem graça e cansativa. Por conta disso, muitos casais reclamam e discutem sem saber o que de fato mudou, ou melhor, não mudou. Por essa razão, as conversas cessam e os jantares cheios de descobertas e som de música clássica passam a ser silenciosos e acompanhados pela trilha sonora do telejornal. O aroma de perfume, o penteado impecável e a roupa nova dão lugar ao desodorante Avanço spray, barba mal feita e camiseta velha do time de futebol com autógrafo do ponta-esquerda.

* * *

Ainda falando em relacionamento. Você se lembra de sua última oração? Lembra-se das últimas palavras que trocou em sua conversa com Deus? Não se trata do “quando” mas “o quê” foi que você disse ao seu Pai.

No nosso relacionamento com Deus, passamos invariavelmente pelo impacto do “primeiro amor”, o arder da descoberta do Espírito Santo habitando em nós, o quebrantar pela Sua presença e pelo arrependimento, a emoção e ansiedade em conhecer mais de perto o nosso Jesus Salvador.

Mas o tempo passa e a rotina aparece. Acordar, orar, tomar café, trabalhar, comer, trabalhar, ver TV, orar e dormir. Dia após dia, domingo após domingo, transformamos esse relacionamento precioso em algo distante e frio. Armazenamos Deus em um pote fechado ao qual recorremos quando isso nos convém.

Um relacionamento entre duas pessoas que se amam. Não tenha dúvida de que assim como marido e esposa, pai e filho, irmão e irmão, o Pai e Seus filhos também compartilham esse sentimento, mas precisamos voltar ao primeiro amor. Ouvir a dura disciplina que nos alerta: “Contra você, porém, tenho isto: você abandonou o seu primeiro amor” (Apocalipse 2.4).

O Pai quer ouvir Seu filho chegar, deitar em Seu colo e ali abrir o coração sobre as coisas que lhe afligem, as que alegram, os pedidos de desculpa, os agradecimentos pelo presente da vida. Ele quer que ele reconheça Sua grandeza e poder, mas antes disso quer que eles O olhem e sintam o Seu carinho, Seu toque e o quanto Ele tem Se dedicado a mostrar o Seu amor. Ele quer nos ouvir falar, trabalhar em nossa causa e então responder: “Não tema, pois eu o resgatei; eu o chamei pelo nome; você é meu” (Isaías 43.1b).

A leitura das Escrituras unida a uma vida de oração e amor a Deus e ao próximo, nisso traduz-se a nossa essência. Não precisamos das regras, precisamos de amor, simples e verdadeiro amor. E a cada dia Ele se preocupa em nos mostrar esse amor, surpreendendo-nos com a providência do pão, com a misericórdia no perdão e a sustento de Sua proteção. Bênçãos, abundância e toque renovador, cada item da natureza terrena e celestial reflete a maravilhosa capacidade do Pai em criar e operar para o nosso bem.

Precisamos ser criativos e com dedicação e todo o coração, oferecer a Ele algo novo. Desejar verdadeiramente agrada-Lo, obedecendo aos Seus mandamentos e tendo compromisso com Sua palavra. Buscar a Deus pelo que Ele é e não pelo que faz. Seguir a afirmação de Lutero, que dizia: “Ser cristão para mim é olhar para Jesus Cristo e dizer: esse homem para mim é Deus”. Então começaremos a aprender o que de fato é adoração.

* Sementes para uma vida de criatividade em nosso relacionamento com o Pai – Suas orações têm sido fruto de momentos de intimidade com o Pai ou resumem-se a um gesto religioso? Inove em seu relacionamento com Ele, pense e dedique-se a fazer coisas novas para agrada-Lo. Ele certamente merece. Procure agradar a Deus com algo diferente, fugindo da rotina da religiosidade, dos dogmas, doutrinas e tradições que vivemos em nossas igrejas.