De propósito

por Luiz Henrique Matos

(6º texto da série “Plantar e Colher – Princípios Bíblicos”)

Noé tinha exatos seiscentos anos quando concluiu a construção da arca, cumpriu o seu propósito e viu cair a primeira gota de chuva sobre a Terra. Abraão tinha setenta e cinco anos quando Deus o mandou sair de sua casa e ir para um lugar distante, prometendo-lhe um filho com sua mulher estéril e a partir dele, uma descendência incontável como as estrelas do céu.

Davi foi ungido rei aos quinze anos de idade, mas teve que fugir e esconder-se por cerca de mais quinze até que fosse reconhecido e levado ao trono sobre Israel. Jesus nasceu entre os homens e aguardou por trinta anos até começar Seu ministério e então morrer na cruz para cumprir as 332 profecias ditas a seu respeito e salvar a humanidade. E Lázaro, bem, Lázaro esperou menos, foram “só” quatro dias, mas ele estava morto até que seu amigo Jesus chegasse e lhe desse a vida novamente.

Quanto tempo você tem esperado? Quanto tempo ainda vai esperar? Não é tarde, nunca é. Houve um rapaz, bandido, que no seu leito de morte, olhou para o lado e viu um barbudo que também morria. Olhando em seus olhos sentiu algo estranho, um arrepio talvez, e junto disso, um coração angustiado e arrependido. Então ele disse: “Jesus, lembra-te de mim quanto entrares no teu Reino” (Lucas 23, 42). E o barbudo que morria – Deus – o perdoou e salvou.

Davi escreveu certa vez: “Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe. Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Digo isso com convicção. Meus ossos não estavam escondidos de ti quando em secreto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu embrião; todos os dias determinados para mim foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir” (Salmo 139, 13-16).

E o mesmo Deus que criou o universo, a terra e tudo o que há aqui, criou também a mim e a você. E não criou à toa, aliás, Deus não faz nada à toa. Tudo tem o seu porquê, tudo tem o seu propósito.

Noé foi chamado louco e zombado por todos durante os cerca de noventa anos que passou construindo a arca, mas se não o tivesse feito, teria também sido consumido pelo dilúvio e toda a humanidade teria seu fim, inclusive seu descendente Abraão. E se Abraão não tivesse saído de sua casa e crido que Sara podia ficar grávida, não veria nascer o seu filho Isaque e séculos depois, desse mesmo fruto, o surgimento do povo judeu seria inviável e com isso tornaria-se impossível o nascimento de Davi.

E Davi… e se por um instante aquele adolescente franzino ignorasse as palavras de Deus e continuasse a passar a vida cuidando de suas ovelhas, teria certamente destruído todo o povo de Israel, impedindo o surgimento do reino. E se Davi não tivesse adulterado (quem imaginaria) com Bate-Seba, não nasceria o seu filho Salomão e dos descendentes dessa história, Jesus. E Jesus enfim, precisou morrer, para que você e eu, hoje, pudéssemos nos alegrar pela vida eterna que há nEle. Ah, e sem Jesus, é claro, o pobre Lázaro estaria naquela tumba para sempre.

Há um motivo nos acontecimentos, um encadeamento na história que só nos faz enxergar o resultado quando percorremos todo o trajeto. Mas existe, porém, algo comum nas vidas desses homens: Eles ouviram a voz de Deus. E mais do que ouvir, eles a obedeceram sabendo que havia para eles, um propósito.

* * *

E assim como tudo o que Deus faz, é também com um propósito que Ele te criou. Pense por um instante em Deus, todas as Suas ocupações, todas as orações que Lhe dirigem, as blasfêmias, as batalhas, a logística desse mundo. E ainda assim, Ele separou um tempo especial para parar, sonhar, sorrir e criar a sua vida. No coração do Pai, há um plano especial para o qual você foi moldado e que só você pode realizar. Ele sonhou com um objetivo para o mundo e nesse contexto Ele te inseriu.

E você também pode, desde já, passar a caminhar seguindo os sonhos de Deus e experimentando a abundância de vida que há nEle. Ou então, pode continuar nessa inércia e esperar o último respiro, em seu leito de morte, para reconhecer que deveria ter feito diferente e procurar o Salvador que lhe estenda a mão. Mas irmão, essa escolha Ele deixou em suas mãos.

Como na história de Noé, Abraão, Davi, Jesus e Lázaro, é visto que não há nada melhor do que ouvir a voz do Pai e saber a direção em que é preciso caminhar. E é isso que Ele quer que você faça. Ele quer lhe ouvir perguntando qual é a Sua vontade e espera feliz o momento certo de responder.

Deus te concebeu com um propósito de vida e hoje você tem uma escolha: pode se prostrar diante dEle e começar uma vida ativa de comunhão com o Pai, aprendendo dia após dia a ouvir e obedecer a Sua voz, sentir o toque do Seu poder, ver grandes planos se concretizarem e passar a viver os sonhos de Deus. Ou também pode escolher por esperar anos e anos por um chamado que parece nunca vir (mas como ouvir a voz de Deus se você não a conhece?), sentando em um banco de igreja e lendo esse texto em algum lugar.

O que lhe parece mais correto?

“Olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, mente nenhuma imaginou o que Deus preparou para aqueles que o amam” (1 Coríntios 2, 9).

Assim como Lázaro naquela tumba, você hoje pode estar morto no cumprir e realizar dos sonhos de Deus. Já há algum tempo que você morreu, até cheira mal pelos dias que se passaram e agora está em um buraco escuro tapado por uma grande pedra.

Mas enquanto você está preso, perdido em sua morte, Jesus chora do lado de fora, ordena que removam a pedra que o mantém preso e grita com poder e amor:

- Lázaro, venha para fora! (João 11, 43).

“Eis que estou a porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo” (Apocalipse 3, 20).

Sementes para um “propósito de vida” – Arrependa-se de uma vida acomodada, ore ao Senhor pedindo uma direção e diga a Ele, de coração, que quer viver os sonhos dEle para você. Experimente o melhor de Deus, tenha uma vida abundante e vitoriosa em Jesus Cristo.

Me dê motivos

por Luiz Henrique Matos

Afinal, porque Jesus nasceu? Pare um instante para pensar, qual o motivo de o Senhor ter nascido como homem e vivido 33 anos entre nós se, sendo Deus, poderia fazer uma breve “participação especial” na história da humanidade e resolver a questão da redenção de forma muito menos polêmica?

Qual a razão para Ele ter sido gerado em uma mulher, carregado por nove meses, nascido em um lugar sem condições apropriadas, fugir para o Egito, trabalhar como carpinteiro, esperar trinta anos para começar seu ministério, pregar por três anos apenas, ser perseguido e ainda sofrer tudo o que sofreu sem ter nenhum tipo de culpa, pecado ou necessidade?

Ele poderia, por exemplo, do alto de Sua glória, lá no céu, olhar para a humanidade, colocar Satanás em uma gaiola, furar a ponta do dedo com uma agulha e com aquela gota de sangue espremida, lavar todos os homens de seus pecados e nos dar a salvação. Nenhum trabalho, nenhum sofrimento, um preço razoável e tudo se resolveria.

Acho que é assim que eu agiria e acredito que alguns outros também (ou você colocaria seu filho para morrer na cruz no lugar de outra pessoa, que nem gosta de você?). Mas, Ele não. Ele é Deus, o Filho presente ao lado do Pai desde o princípio. Jesus participou da criação do universo e dos planos para conceber o homem à semelhança do Senhor. E sendo Ele a Palavra criadora, sabe exatamente como se comporta, como julga e como vive a Sua criação.

Deus sabia o que o homem esperava, Ele havia feito a promessa há tantos anos antes de vir. Homens de Deus profetizaram a vinda do Messias e os judeus esperavam (e alguns ainda esperam) o surgir do Cristo de forma sobrenatural, esplendorosa e prática, talvez como citei acima, mas com um cavalo branco, milhares de anjos voando e louvando e o som de um trovão em tons altíssimos.

Mas em Seu coração havia um propósito muito mais profundo. Como se diz na teologia, Jesus é 100% Deus e 100% homem. Para livrar o homem de todos os seus pecados e dores e tornar-se enfim o seu Salvador, Ele optou por viver como homem, ser tentado em TODOS as suas fraquezas e aflições e mostrar um exemplo vivo de como Ele espera que Seus filhos se comportem, de como Ele sonhou que ajam.

Nasceu como todos nós, viveu, trabalhou, pregou e morreu. Em tudo o que passou, Jesus sofreu mais do que qualquer um sofreria e venceu além do que pensávamos ser possível. Sendo Deus, não usou em momento algum de Sua deidade em benefício próprio.

“Pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado” (Hebreus 4:15 ênfase minha). Você já foi tentado em tudo? Eu não.

Viveu e morreu como um de nós para que possamos compreender que se o Deus pôde ser homem e ainda assim vencer, então é possível que busquemos ser como Ele (veja bem, “ser como” Ele e não “ser” Ele). O escritor Max Lucado escreveu algo a respeito:

“Porquê? Por que Ele suportou todos estes sentimentos? Porque Ele sabia que você também os sentiria. Ele sabia que você sentiria cansaço, perturbação, sono, fome e raiva. Ele sabia que você sentiria dor. Se não dor corporal, a dor da alma… Dor muito aguda para qualquer droga. Ele sabia que você sentiria sede. Não só de água, mas sede da verdade, e a verdade que salta da imagem de um Cristo sedento é: Ele compreende” (no livro “Ele escolheu os cravos”, p. 89).

Saiba sempre de uma coisa: Deus te compreende. Quando tudo pesa e quando tudo é leve. Quando odeia e quando ama. Quando acerta e quando peca. Quando levanta e quando cai. Quando ri e quando chora. Em todo o tempo Ele entende e Ele ama. O amor de Deus não depende de nós, é incondicional. Não é uma troca, é graça. Nós só precisamos dizer: “Sim Jesus, eu creio”.

Foi por isso que Ele veio, para nos mostrar Seu sentimento, Sua misericórdia e fazer ecoar pela eternidade Seu brado, ainda que silencioso e refletido no gesto da crucificação enquanto exclama: “Eu te amo meu filho e fiz isso para tê-lo de volta em meus braços”.

Jumentologia

por Luiz Henrique Matos

(5º texto da série “Plantar e Colher – Princípios Bíblicos”)

Até agora estou desconcertado, meio eufórico, mas me conforto em saber que eu sou parte da promessa. Você pode ler na sua Bíblia, há claramente uma descrição a meu respeito em uma das profecias que fala do Cristo (Zacarias 9, 9). Mas para esclarecer os fatos, vou lhe contar um pouco de minha história…

Oxente! Eu estava lá, tocando minha vidinha em Betfagé, próximo a Jerusalém, sossegado, na minha. Sempre tranqüilo, ao lado de minha mãe naquela humilde cidade da Judéia. Mas aí um dia, as coisas mudaram para nós.

Chegaram dois homens e sem mais nem menos começaram a desamarrar mâínha e eu do poste onde estávamos presos. Já iam nos levando embora quando outros homens ali do vilarejo perguntaram onde iam aqueles cabras com dois jumentos que nem eram deles. Tiveram ali um dedo de prosa, chegaram em uma conclusão e finda a conversa continuaram levando a gente em direção à entrada da cidade.

“Quando se aproximaram de Jerusalém e chegaram a Betfagé, ao Monte das Oliveiras, Jesus enviou dois discípulos, dizendo-lhes: ‘Vão ao povoado que está adiante de vocês; logo encontrarão uma jumenta amarrada, com um jumentinho ao lado. Desamarrem-nos e tragam-nos para mim. Se alguém lhes perguntar algo, digam-lhe que o Senhor precisa deles e logo os enviará de volta’” (Mateus 21, 1-3).

Ali, na entradinha do vilarejo, estava aquele homem alto, forte e barbudo. Junto dele, mais doze cabras que o cercavam e serviam. Então pegaram a mãe e eu, jogaram umas mercadorias no lombo dela e o tal do Mestre (como eles chamavam o cabra forte e barbudo) subiu no meu lombo. Eu mal podia imaginar que enfim, o meu dia de fama estava começando.

“Os discípulos foram e fizeram como Jesus havia ordenado. Trouxeram a jumenta e o jumentinho, colocaram sobre eles os seus mantos, e sobre estes Jesus montou” (Mateus 21, 6-8).

Sendo sincero com você nessa minha autobiografia, sempre sonhei em ser um popstar sabe? Queria ficar famoso e brilhar no showbusiness aqui na minha terra, mas esse não era um lugar de grandes oportunidades para os jumentos. O povo nos recrimina, fala que não somos tão dignos, sei lá, acho tudo isso muito preconceituoso. Até usam nosso nome como artifício para denominar alguns humanos: “Seu jumento!” eu ouvia alguém gritar e logo pensava que era comigo, mas quando via, era alguém ganhando a glória pelos nossos feitos. Mas algum dia, ah algum dia, eu seria reconhecido e mudaria essa perspectiva!

Minha mãe contava a história de um ancestral nosso que era de uma linhagem nobre e até falou com os tais humanos. Êita! Veja só, disse para um cabra coisas que Deus precisava falar e o cabeça dura não ouvia. E olha que o hômi era profeta (mas pelo que ouvi, o tal do profeta Balaão era teimoso que nem um jumento!). Na Bíblia até tem um registro que fala disso (Números 22, 20-31).

Mas eu, Jujúmento de Israel, depois de tanto tempo no ostracismo, esquecido aqui nessa terra, já até achava que minha vida estava mesmo destinada a atividades operacionais e chatas e que de fato, eu nunca brilharia. Mas eis que aquele Mestre é usado para me dar essa glória. Naquele dia ele montou em mim e foi mostrando o caminho do estrelato enquanto dirigia para entrar na cidade.

Cheguei então à via principal daquele local. Via pessoas me cercando, abrindo caminho para eu passar e estendendo mantos e ramos de árvores para dar passagem ao Jujú aqui. Era tudo por minha causa, eu era a estrela brilhando naquele dia e o homem sentado nas minhas costas mostrava para toda aquela gente que um jumentinho pode enfim ser uma celebridade. Gritavam ali umas coisas estranhas: “Rosana! Rosana!” mas eu nem ligava muito (isso lá é nome de macho?) só desfilava com toda pompa e honra.

“Uma grande multidão estendeu seus mantos pelo caminho, outros cortavam ramos de árvores e os espalhavam pelo caminho. A multidão que ia adiante dele e os que o seguiam gritavam: ‘Hosana ao Filho de Davi! Bendito é aquele que vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas!’” (Mateus 21, 8-9).

E assim foi até chegarmos no centro da cidade. Aí o Mestre desceu do meu lombo, entrou no templo e fez um fuzuê lá dentro. Expulsou uns caras que vendiam coisas por ali, disse que aquela era a casa do Pai dele e que eles não deveriam fazer aquilo. Teve gente que gostou da atitude, mas um monte de cabra casca-grossa não achou nada bom e começou a perseguir o Mestre depois disso.

Eu só sei que tive meu momento de glória. Fui montado por um cabra muito do gente boa e tive meu nome escrito no livro mais publicado e vendido de toda a humanidade. Minha história está lá, para os meus descendentes lerem e lembrarem que jumento também tem seu valor e que eles também podem ser “instrumentos” nas mãos do Criador (sim, Ele também criou os jumentos ãra!).

“Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que vem a ti o teu rei; ele é justo e traz a salvação; ele é humilde e vem montado sobre um jumento, sobre um jumentinho, filho de jumenta” (Zacarias 9, 9).

* * *

Em suas atribuições sabemos que Deus é o único onipotente, onisciente e onipresente. Criou todas as coisas nessa terra, o tempo, as florestas, os homens e… os jumentos. Cada um de nós foi projetado por Deus para cumprir o Seu propósito e o que Deus sonhou para mim e para você são coisas exclusivas, que só nós poderemos fazer.

Mas há um inimigo muito audaz que pode impedir a concretização dos sonhos de Deus: a nossa carnalidade. Explícita na vaidade, na arrogância, na auto-suficiência, no rancor, na altivez e tantos outros frutos de nossa índole corrupta. O pecado é o que nos separa de Deus. Originalmente, em grego, “pecado” quer dizer “errar o alvo”, ou seja, errar o plano para o qual fomos criados.

Como o Jujúmento em seu texto, somos escolhidos e separados pelo Senhor como instrumentos para a Sua obra e temos todo o potencial e capacidade para cumprir esse chamado. Mas em nossa ignorância requeremos para nós mesmos uma glória que é dEle. Nos dispomos e nos alegramos em ser usados para levar Jesus ao encontro do povo, mas chegamos também a acreditar que o caminho aberto à frente e a celebração são de fato, para nós.

Precisamos aprender a ser mais jumentos e menos humanos em outro aspecto, o real: ter humildade para servir mais e brilhar menos. Carregar sobre nós Aquele que reina e deixar que com os nossos esforços diários e constantes Ele seja visto e adorado. A obra é dEle, nós somos dEle e tudo o que for feito por Ele através de nós, deve refletir a Sua santidade e honrar o Seu nome.

É necessário saber que Deus é Deus apesar de nós e Sua obra a de se cumprir. Precisamos deixar de ser teimosos tal qual jum… ops, Balaão e ser mais humildes como o ancestral de nosso amigo que falou com o profeta.

Sementes - Exerça sua humildade e coloque-se à disposição de Deus para servi-Lo independentemente de sua vontade. Ele quer subir em nossos lombos e ser visto pelos povos através de nossas vidas. Mas Deus não divide Sua glória com ninguém, por isso não queira brilhar ou ser aclamado pelo que faz. A honra é conseqüência de um trabalho feito com excelência, mas a glória e louvor devem ir para o nosso Deus, sempre.

Pega ladrão

por Luiz Henrique Matos

(4º texto da série “Plantar e Colher – Princípios Bíblicos”)

O centrovante avança pelo campo de ataque com a bola dominada nos pés. Toda raça e habilidade nos minutos finais do jogo e fazer um gol nesse momento seria a consagração da vitória. Enquanto avança, toda a defesa do time adversário recua rapidamente e se posiciona na entrada da grande área. Sem opções de ataque, o jogador pára, segura a bola e procura ao seu redor alguma opção de tabela entre seus companheiros. Enquanto espera, é surpreendido por um volante do time rival que chega por trás e rouba-lhe a bola dos pés.

Onze horas da noite no centro da cidade de São Paulo. O rapaz sai do trabalho e caminha cerca de dois quilômetros até o ponto de ônibus onde toma a condução que o leva para casa. O chefe lhe pediu que fizesse hora extra e o segurou no escritório até tarde. No ombro esquerdo, o peso da mochila com os cadernos e livros da escola e lá no fundo o envelope com o pagamento do mês: dois salários mínimos e alguns passes de ônibus. Cansado, ele caminha pelas ruas escuras do centro abandonado da capital, pensativo nas atividades do dia seguinte e frustrado com o trabalho que já não o motiva mais. Não percebe quando um garoto vindo em direção contrária se joga sobre ele, fazendo com que, na trombada, perca o equilíbrio, enquanto outro moço aparece por trás, puxa de seu ombro a mochila e saem, ambos, correndo ruelas a dentro.

“Olha o ladrão!” é o que deveria gritar o companheiro de time do pobre centrovante que agora vê perdida a antes dominada bola nos pés e a chance do gol decisivo. Nunca fui um exímio boleiro, mas como um bom espectador aprendi que no futebol é assim, não adianta ter a bola nos pés, é necessário estar atento às movimentações no adversário para não ser pego de surpresa pelo combatente inimigo que chega com os pés e os cravos da chuteiras apontados para a canela alheia.

“Olha o ladrão!” é o grito vazio do trabalhador que vê sua mochila e salário sendo levados pelo oportunismo dos trombadinhas na cidade grande. Viver em uma grande metrópole é isso, não se pode caminhar sozinho no escuro, mas um passo após o outro deve ser dado, observando as movimentações ao redor e qualquer sinal de perigo prevenido.

“O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (João 10:10).

É preciso tomar cuidado, o ladrão está a solta. Com sua chuteira cheia de cravos pontiagudos, ele mira nossa carne afim de roubar a bola de bênçãos e preferivelmente quebrar uma de nossas pernas (vida) com seu ataque voraz. Ele chega na espreita, ataca em bando os que lhe parecem fracos, não suporta ver o salário da providência sendo recebido dignamente com o suor do rosto humano. Com seus comparsas malignos ele planeja a tocaia para deixar desamparado o pobre trabalhador e roubar seu sustento, destruir sua família e matar sua esperança.

Imprescindível é também vigiar. O ladrão está a solta e tem seus objetivos muito claros, mas o bom guerreiro sabe como combatê-lo. Somos filhos escolhidos e temos por herança a salvação por Cristo, mas Ele nos alerta para não deixar a retaguarda desprotegida, nos posicionar como a sentinela e estar prontos para nos defender dos ataques. “Vigiem e orem para que não caiam em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mateus 26:41 nvi).

Satanás não perde tempo investindo em áreas em que estamos fortalecidos. Ao contrário, ele lança seus dardos na direção da carne sensível, nas dificuldades, nas tentações, nos pecados em que tanto teimamos e onde sabe que já caímos. Ele chuta a perna de apoio do atacante, ele empurra o desatento andarilho, ele é a astuta serpente maquinando contra a inocente ambição de Eva (Gênesis 3:1).

Paulo sabiamente alertou o centrovante: “Assim, aquele que julga estar firme, cuide-se para que não caia!” (1 Coríntios 10:12). O gol realmente parecia fácil naquele contra-ataque. O salário suado parecia ganho naquele exausto final de dia.

Vigiar: olhar para cada ponto do campo e saber a posição do adversário, seguir à noite pelas ruas procurando pontos iluminados onde se possa ver a movimentação das sombras. Orar: ter sobre si a cobertura do manto de Deus, que nos reveste de Sua paz e segurança na medida que nos dispomos a seguir o seu caminho.

E então, cada passo é certeiro em direção ao gol de placa, para a alegria da torcida celestial que canta: “Santo! Santo! Santo! É o Senhor!” (Isaías 6:3). E no final, cada dia de trabalho e aflição (João 16:33) será vencido e recompensado com a tranqüilidade de se chegar na morada preparada (João 14:2), receber um abraço quente e aconchegante do Pai e deitar na cama da eternidade com a sensação de dever cumprido.

“Eu lhes disse estas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo” (João 16:33).

Sementes – Olhe para cada área de sua vida, ore a Deus pedindo a revelação de suas fraquezas e que Ele lhe cure e fortaleça nos momentos de luta e tribulação. Vigie em cada gesto, cada falsa oportunidade, cada emboscada que possa estar mascarada pela tentação maligna. Vigiar e orar é o seu papel, o dEle é edificar esse santuário precioso que é a sua vida. Veja: “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela” (Salmo 127:1).